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Livro de uma Sogra por Aluísio Azevedo
Capítulo VIII


O casamento um ato imoral! Ó meu Deus, a que triste conclusão me arrastaram os meus raciocínios!

Imoral o casamento! — logo, todo homem ou toda a mulher que persiste ao lado um do outro, depois da amamentação do primeiro filho, é um ente imoral? E minha filha, minha pobre Palmira, teria de ficar eternamente solteira, privada dos seus direitos naturais de mulher, ou teria de ser uma criatura imoral, quer tomando para companheiro de vida um amante, quer aceitando um marido?...

Que horror!

Seria preferível conservá-la virgem, ou seria isto ainda maior atentado? Se o casamento é imoral porque é contra as leis da natureza, o celibato casto também o é pela mesma razão.

Conservá-la virgem! Mas conservá-la virgem seria matá-la por dentro, secando-lhe com a abstinência forçada a vida dos seus mais importantes órgãos, os órgãos direta e indiretamente empenhados na procriação! Mas uma mulher é toda ela, dos seus pequenos pés brancos e fracos, aos longos, cetinosos e tépidos cabelos, um simples aparelho de amor! Tirem-lhe o que foi formado para o conjunto do mister propagador, e o que fica?

Sim! por que tem ela os quadris mais amplos e volumosos que o homem? por que tem as coxas grossas, as mãos mimosas, e pele fina? por que tem peitos tão doces e tão macios? por que tem os lábios vermelhos e a boca livre e desembaraçada de barba, senão para dar beijos? e por que tem o rosto liso e rosado, senão para provocá-los e recebê-los? por que tem os olhos súplices, lamentosos, banhados em ternura e desejo? por que tem os cabelos tão compridos e tão perturbadores? e por que numa longa existência, de menina a octogenária, desde a primeira boneca ao último netinho, ela só viveu para a carícia e para o amor? e só teve uma função real e constante — amar, abraçar, beijar?

Não! minha filha não ficaria assim perdida para o seu verdadeiro destino de mulher!

Mas, se o casamento como a mancebia eram ambos imorais e não podiam proporcionar a felicidade que eu sonhava para ela, Palmira precisava de um novo cooperante genésico todas as vezes que tivesse de ser mãe. E isso, valha-me Deus! seria a mais completa e feia prostituição; seria perdê-la irremediavelmente para a moral e para a sociedade!

Oh! só agora, depois de pensar em tudo isto, é que vejo quanto fui casta e quanto fui boa; quanto fui sacrificada e quanto fui generosa! Que me não ouçam as mulheres fracas e vulgares; perder-se-iam com a minha dolorosa filosofia. Mas as fortes, as espartanas do lar doméstico, se algum dia souberem do segredo destas confissões, que se consolem com a minha heróica desgraça, porque só essas compreenderão as orgulhosas lágrimas que chorei.

Triste de mim, pobre mãe, cujo único ideal na vida era agora a inteira felicidade de minha filha, e acabava de compreender que semelhante felicidade era impossível, tanto no celibato casto, como no matrimônio, como na concubinagem, como na prostituição. E fora isso, nada havia a explorar.

Que desespero!

Cheguei a lembrar-me do Mormonismo, a amaldiçoada seita polígama de José Smith. Mas, no dogma dos mórmons, o caso essencial era precisamente contrário ao que me parecia indispensável à felicidade fisiológica da mulher e às conveniências individuais do filho. Lá o homem tem o direito de tomar quantas esposas lhe apeteçam, desde que as possa manter; a mulher, porém, essa há de contentar-se com um só marido, se é que se pode chamar um marido a um homem partilhado por vinte esposas. Um vigésimo de marido!

Ora, se um achava eu insuficiente para bem gerar todos os filhos de uma mulher, quanto mais a vigésima parte de um! Entretanto, lendo de boa-fé a exposição dos princípios filosóficos e religiosos dos mórmons, abalei-me com certos preceitos da moralidade conjugal por eles estabelecida e observada. Afirmam com orgulho que, no mundo civilizado, são os únicos bons e honestos cumpridores do sagrado mandamento de Deus: "Crescei e multiplicai-vos", porque um varão pode procriar duzentos filhos, e uma mulher nunca mais de vinte.

Como, pois, exigir que seja uma só mulher a mãe de todos os filhos que produza um homem, quando precisa ela de dois anos para a gestação, parto e criação de cada um? Não será isso constranger o marido a uma destas três coisas: — ou condenar-se à esterilidade forçada, para não faltar a fé conjugal; ou transigir das regras da boa higiene, aproximando-se da consorte nos períodos em que não deve; ou procriar fora do casal, o que lhe fará ser pai de alguns filhos legítimos e, ao mesmo tempo, de muitos e muitos filhos inconfessáveis? Não seria melhor, mais digno e mais generoso, argumentam eles, que o homem, em vez de ter uma só mulher legítima e várias concubinas de ocasião, e que, em vez de ter filhos reconhecidos e filhos abandonados, aceitasse corajosamente as imposições do seu organismo e vivesse claramente, à luz da legalidade, com todas as suas consorciadas, sem subterfúgios desleais e dissimulações ridículas?

E os mórmons justificam-se com os exemplos da Bíblia: Lamech, filho de Methusael, teve duas mulheres — Ada e Zilla; Jacob quatro; Abrahão muitas mais; David todas a que herdou de Saul, e Salomão nunca menos de mil.

E entendem que só a poligamia pode realizar o grandioso fim do matrimônio — multiplicar e apurar a espécie; e que ela é a regra instintiva e natural em toda a extensa ordem dos mamíferos que povoam a terra, e que ela é ainda a garantia da felicidade conjugal e dos direitos fisiológicos e sociais da descendência.

Não há dúvida! Tudo isso pode ser muito justo e muito razoável, apenas acho que os senhores mórmons legislaram conforme os seus interesses de homem e conforme os interesses da sua descendência, mas sem pensar absolutamente nas delicadas conveniências morais e físicas da mulher. E como a minha única preocupação era o interesse de minha filha e não o do marido que ela viesse a ter, vi e previ o revolucionário dogma social pelo lado contrário ao ponto de vista dos autores, o que fez com que a minha impressão fosse diametralmente oposta à deles. De resto, quando fosse com efeito o casamento polígamo o melhor e mais aceitável de todos, iria eu carregar com Palmira para Salt Lak City, abandonando a minha pátria, os meus amigos e os meus interesses no Rio de Janeiro? E para quê? para a levar a um sultão? para a deixar cair no serralho de Utah, como se deixasse cair uma franga dentro de um galinheiro?

Não! De tudo que li sobre os mórmons, só uma coisa me aproveitou, foi o desejo de consulta a Bíblia a respeito do que era possível fazer pela felicidade de minha filha. E aí, sim, encontrei afinal a chave do problema que me atormentava.

Foi na Bíblia, foi nessa inesgotável fonte de consolações para os que sofrem, foi nesse eterno poema de amor, que me orientei sobre o único caminho que tinha a tomar.

Depois da lição dos capítulos XII e XV do Levítico, convenci-me de que o mal do nosso casamento não estava precisamente na monogamia, mas só no meio de exercê-la; convenci-me de que um marido, para não perder a ilusão do seu amor conjugal, precisa afastar-se da mulher em certas ocasiões. Eis tudo!

Como afinal é sempre intuitiva e simples a base dos maiores problemas da nossa vida! Mas prossigamos:

A eterna permanência de um homem ao lado da esposa obriga-os a prosaicas intimidades inimigas do amor (amor sexual), e acaba fatalmente por azedar-lhes o gênio e trazer a ambos o fastio, o tédio, a completa relaxação do desejo, e afinal a explosão dos caracteres em perene atrito, e as brigas, a troca violenta de injúrias, e, muita vez, se os desgraçados por falta de educação não souberem conter os seus ímpetos nervosos, o pugilato e até o homicídio.

"L’amour finit par s’aigrir, comme le vin qui reste trop longtemps en bouteille", reza a velha filosofia dos provérbios.


O primeiro ponto da minha questão era, pois fazer desaparecer a imoralidade de dentro do casamento monógamo. Ora, este casamento era imoral e trazia o tédio e o cansaço por parte de cada um dos cônjuges, só porque depois do desempenho do primeiro filho, o pai e a mãe incompatibilizavam-se entre si para a concepção perfeita de um novo descendente. Tratei pois de descobrir em que consistia a causa dessa incompatibilidade. Não foi preciso grande esforço de inteligência para dar logo com ela: É que o entusiasmo sensual, o amor, de um pelo outro consorte, era um puro produto da imaginação e do desejo de ambos, e desde que os dois se não separavam nunca, nem só se podiam desejar de novo, como igualmente não podiam manter, de parte a parte, a mútua e cativante impressão que os havia ligado.

O instinto da conservação da espécie, que é o amor, deve ser de qualquer modo tratado como o instinto da conservação pessoal, que é a fome. Não há estômago que resista a faisão-dourado todos os dias; o melhor acepipe, se não for discretamente servido, enfastiará no fim de algum tempo. O mesmo acontece no matrimônio: os cônjuges acabam invariavelmente por se enfararem um do outro, não pelo uso que fazem do seu amor, mas pelo abuso mútuo da convivência e da ternura.

Se tens um prato predileto, que se dá bem com o teu paladar e com o teu estômago, e o qual não podes ver sem sentires a boca lubrificada pelo apetite, não abuses desse estimável prato, para que ele se não inutilize para o teu desejo, e para que possas continuar a saboreá-lo com o mesmo gosto; e principalmente não comas dele sem boa vontade.

A pessoa amada ganha sempre valor e novo prestígio aos olhos do amante, quando dele se afasta por algum tempo. É nessa reforçadora ausência que ela é mais desejada e querida. Dois amantes, inopinadamente arrancados dos braços um do outro e desunidos por um pequeno espaço de tempo, continuarão a amar-se e a cobiçar-se com a mesma primitiva intensidade de antes da posse; enquanto, deixados tranqüilamente juntos, na mesma casa, na mesma mesa, na mesma cama, no fim de alguns meses já nenhum dos dois enxergará no companheiro os elementos de sedução que os inodou sacramentalmente, e cada um há de perguntar de si para si, com a mais sincera estranheza, por que diabo se apaixonou por aquela criatura que ali está a seu lado, a ponto de unir-se com ela para sempre, por um voto eterno?

E tanto assim é, que, no caso, infelizmente tão comum, de homens casados que mantêm uma concubina fora da casa em que moram, e com a qual não convivem todos os dias, nem todas as noites, mas que freqüentam a furto, uma vez por outra, amam, sempre e sempre, dada mesmo a hipótese de igual valimento físico entre as duas, muito mais a amante do que a mulher legítima, e são por ela capazes de sacrifícios e esforços que já lhes não merece a esposa.

Dir-me-ão alguns que é porque mesmo ele nunca amou deveras a consorte; que se enganara quando supunha amá-la, e que só depois do casamento, já irremediavelmente tarde, reconheceu o seu erro; e que na outra mulher fora encontrar a "afinidade eletiva!", ensinada por Goethe, e depois sentira-se irresistivelmente arrastado para ela.

"O amor que pôde extinguir-se não era amor!" dir-me-ão outros com o poeta.

Pois sim! era bastante que aquelas duas mulheres trocassem as posições entre si, para que o decantado amor também trocasse de objetivo. Fosse a concubina morar com o amante, conviver com ele noite e dia; e começasse a esposa a ser visitada pelo marido somente de longe em longe, em furtivas escapulas, e veríamos qual delas seria, no fim de algum tempo, a mais amada e desejada — a amante de cama e mesa ou a esposa proibida?

Há muitos exemplos de marido, que só veio a amar deveras à mulher, depois que esta lhe fugiu para os braços de outro, ou de outros.

Quando um homem e uma mulher são condenados por lei a viver eternamente inseparáveis, o corpo pode ceder a tal violência, mas a imaginação, que é a mãe do amor, essa reage logo e foge, põe-se ao largo, onde as suas asas encontrem livre o espaço e o vôo franco. O espírito do homem é por natureza independente e só se poderá escravizar a uma mulher, o que não é tão comum, quando o faça, não por lei de qualquer espécie, mas por livre e espontânea vontade.

A legítima esposa, que vive inalteravelmente ao lado do marido, pode, a força de virtude e de bondade, conservar e até desenvolver a estima, a consideração e o respeito, que ele lhe tributa; pode ser amada moralmente. Mas o outro amor, o sensual, esse belo instinto tão necessário ao bom resultado da progênie, esse vai para a mulher ilegal, para a inconfessável amante, cujos beijos são mais apreciáveis, porque são mais raros, cujas horas de convivência são preciosas, porque são contadas, minuto a minuto, e cujo ligeiro contato de corpo é sempre, para ele, um gozo conquistado, seja pela ternura, seja pelo dinheiro, e nunca um dever imposto por lei ou um direito exercido com sacrifício.

Estava afinal achado o X do meu grande problema. Consistia em nada mais do que uma pequena inversão de princípios. O meu raciocínio concludente era tudo o que há de mais simples; era o simples:

Um casal vulgar só pode ser feliz enquanto dura de parte a parte a ilusão do amor sensual que o determinou; uma vez esgotada a provisão de amor ou de ilusão, o casal deixa de ter razão de ser e deve ser dissolvido. Logo, a mulher, para ser fisiologicamente feliz, precisa substituir o seu amante por um novo, desde que ele não continue a exercer sobre ela o fascinante prestígio que a cativou. Ora, sendo de todo impossível substituir assim um esposo, o que restava a fazer? — Substituir a ilusão. O ator seria sempre o mesmo, os papéis, representados por ele aos olhos da consorte, é que teriam de variar e seriam sempre novos.

Minha filha, pois, conhecendo um só homem, teria nesse homem uma bela e sedutora variedade de amantes.

Mas, como chegar a semelhante resultado? Como obter na vida prática a execução de tão revolucionário sistema? Como vencer a exigência dos velhos costumes e arraigados hábitos domésticos e sociais? Como poderia eu dispor assim de meu genro e governá-lo na sua íntima vida conjugal? Como conseguiria reformar-lhe ou reforçar-lhe, de quando em quando, as suas qualidades insinuativas e os seus dotes de sedução e encanto, para desse modo manter o amor de minha filha sempre no mesmo grau de entusiasmo?

Eis o que principiei a inquirir com a alma e coração, até chegar a um resultado satisfatório, como exporei neste manuscrito, se Deus para tanto me conservar vida e saúde. Posso afiançar desde já é que ao amor de mãe nada é impossível por mais transcendente que pareça, quando se trata da felicidade do filho; e que eu, longe de desanimar com o peso da tarefa que me impunha, sentia a minha confiança cada vez mais segura e forte nas energias do meu coração materno.