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Livro de uma Sogra por Aluísio Azevedo
Capítulo XVI


Só mais tarde comecei a achar prazer nas ligações com meu marido; os primeiros dias foram horríveis. Ainda me lembro do calafrio de medo que tive na segunda noite, quando ele quis recomeçar a campanha da véspera.

Para evitar à minha filha todo esse ridículo infortúnio, entendi e resolvi que ela devia entrar na sua vida de casada sem "pagar patente" com a clássica "lua-de-mel". De sorte que, na mesma manhã do casamento, achando-se já tudo disposto, carreguei com os noivos para a fazenda de um amigo meu, no interior da província, a qual de antemão me fora franqueada. A fazenda estava entregue apenas aos cuidados do feitor e da escravatura, enquanto os senhores passeavam na Europa.

Acomodamo-nos por lá como nos foi possível, sem arranjos especiais de quarto de noivos. Nada disso! Cada um tomou conta de seu aposento e tratou de si.

Durante a viagem de trem, e principalmente depois de chegados à fazenda, meu genro, que não deixava a mulher um só instante, furtava-lhe beijos sempre que eu me afastava deles, ou quando me supunham muito distraída. Não os perseguia nem rondava, mas também não lhes facilitava ocasiões para os arrulhos. A gente da casa não sabia se eles eram irmãos, ou primos, ou casados, ou noivos, ou simplesmente namorados. O quarto de Palmira era distante do quarto do marido, e entre os dois estava o meu. Esta disposição foi intencionalmente estabelecida por mim: se eles com efeito se sentissem arrebatados um para o outro, o próprio desejo havia de aproximá-los de qualquer modo, não era absolutamente necessário que os fechasse eu dentro da mesma prisão, como fizeram comigo e Virgílio, e como se faz com as cadelas e os cães de raça que têm de procriar.

Como eles se uniram pela primeira vez, em que ocasião e em que circunstâncias, só vim a saber meses depois, narrado comovidamente por minha filha, que até hoje guarda a mais doce, a mais poética e consoladora impressão desse momento de completa felicidade.

Nem foi em casa, foi num sombrio, ignorado canto da mata deserta, sítio protetor de outros amores, de cujos suspensos ninhos partiam bíblicos duetos de ternura. Não foi sobre colchas bordadas, nem lençóis de renda adrede preparados, mas no regaço carinhoso da floresta, ao casto e lascivo respirar da natureza, na confidência maternal da terra.

Tínhamos chegado à fazenda às onze horas da manhã, com tal fome, que, mal nos desfizemos do pó da viagem, atiramo-nos ao almoço vorazmente. Almoço de roça, que são os melhores, porque são os que se comem com mais apetite. Depois, não pude resistir ao cansaço daquele dia tão cheio, deitei-me, e quando acordei soube que minha filha tinha ido dar um giro pelo campo com o — namorado. Achei natural, e nada lhes notei na fisionomia quando os vi de volta às cinco horas da tarde. Apenas uma coisa me impressionou suavemente, é que Leandro, ao entrar em casa, tomou-me as mãos com meiguice e deu-me um beijo na testa. Com esse beijo quis ele naturalmente dizer que já era meu filho, mas na ocasião não dei por isso, notei sim que as suas roupas, como os cabelos de Palmira, respiravam cheiro de folhas verdes esmagadas.

Se eu reproduzisse aqui a descrição que dela ouvi desse furtivo passeio ao fundo da mata virgem, deixaria entre estas pobres linhas uma vivida página de romance, mas como não sou romancista, nem estou fazendo literatura, mas tão-somente escrevendo uma justificação de meus atos de mãe e sogra, destinada a dois únicos leitores — minha filha e meu genro, nada direi do que então se passou entre eles, mesmo porque, a respeito de tal cena, é o caso de afirmar com segurança que os meus leitores a conhecem já melhor do que eu.

Foi no mesmo dia, e eu tola, que sou! imaginava ainda que os brejeiros esperassem ao menos pela noite. E o mais curioso é que nunca percebi, mesmo depois, as vezes em que eles se uniram. Durante o dia estávamos quase sempre juntos; às horas de recolher cada um ia para seu quarto, depois de enchermos o serão a fazer música ou canto, ou jogando cartas, até a ocasião do chá; e durante a noite nunca ouvi o ruído de uma porta que se abrisse ou fechasse, nem senti passos na varanda, nem rumor de cochichos abafados nos aposentos dela ou dele. Podem gabar-se, os matreiros, de terem sido umas verdadeiras abelhas do amor.

Nessa ocasião, o meu empenho único a respeito deles era não deixar que faltassem ao preceito imposto pela Bíblia no Levítico, vers. 19, do seu cap. XV, ficando ao lado um do outro durante o período condenado. E assim foi. Logo que percebi a aproximação da crise, mandei fazer as malas e determinei levantarmos acampamento na manhã seguinte, sem dar ouvidos às súplicas e às reclamações dos dois.

Meu genro parecia ter endoidecido com o fato, amuou-se, resmungou, não quis jantar; contentei-me pela minha parte em lembrar-lhe as condições do casamento.

Ele, sem se resignar de todo, recorreu então aos meios humildes; tomou-me nos braços, beijou-me, pediu-me por amor de Deus que lhe concedesse mais uma semana de lua-de-mel, apenas uma semana!

Fui inflexível; se cedesse logo à primeira vez, estaria desmoralizado para sempre o meu programa.

A volta da fazenda foi por conseguinte quase muda e muito triste. Palmira chorava em silêncio ao canto de um banco do vagão; o marido, ao lado dela, de pernas cruzadas, sobrolho franzido e dentes cerrados, não emitia palavra, nem desviava os olhos de um só ponto, a não ser para desferir de vez em quando, contra mim, um fulminante olhar de ressentimento e raiva. Ia furioso!

E, já na cidade, lá em casa nas Laranjeiras, as despedidas foram dolorosas.

Uma cena violenta! — frases de maldição! Houve soluços por parte de minha filha; lágrimas por parte de Leandro. Sim, eu vi as suas lágrimas, ele é que não viu as minhas, porque lhas não mostrei. No entanto o meu pobre coração chorava: doía-me separá-los tão depressa. E quando os contemplei abraçados, a despedirem-se, com os rostos escondidos no pescoço um do outro, o corpo de minha Palmira sacudido pelos soluços, sem ânimo nenhum dos dois de largar dos braços o consorte, apertou-se-me tanto a alma, que, por pouco, não fraquejo e abro a mão da disciplina, deixando-os ficar juntos o tempo que entendessem.

Felizmente, porém, não sucumbi à momentânea fraqueza e tive alento para dizer ao rapaz em tom sereno e já com a voz segura:

— Bom! O caso não é assim também para tão grandes despedidas! A separação não é tamanha! Agora vai o senhor, meu estimável filho, para a sua casa, e nós cá ficamos em nosso canto. Pode visitar-nos uma vez por dia, até nova ordem. Não durará muito a interdição — descanse! Olhe: venha jantar amanhã conosco... O Dr. César deve estar aí, e temos de conversar os três sobre interesses comerciais. Não venha antes das três horas da tarde. Adeus, adeus.

E Leandro destacou-se com efeito para sua casa, acompanhado pelos olhos da esposa, que não saiu da janela enquanto ele não dobrou a esquina da rua, depois de repetidos sinais de adeus de parte a parte.

Como passara meu genro essas primeiras horas de isolamento depois de quase um mês de convivência com a sua amada, só o soube muito mais tarde, repetido por minha filha, a quem ele no dia seguinte descreveu os seus tormentos. Ela também estava então inconsolável; chegou a fazer-me biquinho. Eu, porém, tinha de sobra no meu amor materno segredos para o desarmar contra mim. Consolei-a o melhor que pude.

Mas que alegrão no outro dia, quando os dois se encontraram de novo! Dir-se-ia que a ausência não fora de vinte e tantas horas, mas de vinte e tantos meses! Leandro acudiu pontualmente à hora marcada por mim. Palmira, ao perceber da janela que ele chegava, lançara-se com tal ímpeto pelo corredor, que não sei como não rolou a escada. Recebeu-o nos braços, chorando de alegria.

Ele trouxe-nos flores; beijou-me a face, como sinal de que já não estava agastado comigo, e abraçou expansivamente o Dr. César, que também fora ao seu encontro com um calmo sorriso e uma amorável frase paterna.

E o nosso jantar foi o mais alegre que tivemos até aí. Abriu-se uma garrafa de champanha.

Foi bastante a separação de um dia para que voltasse ao casal todos os arrulhos de antes do matrimônio. Meu genro tocava com os pés, por debaixo da mesa, os pés de Palmira, e segurava-lhe furtivamente a mão, e dizia-lhe em voz baixa sedutoras palavras de amor, requestando-a de novo para um novo casamento.

Eram felizes. E eu me sentia também feliz, ao reflexo da ventura dos dois; e sorria para César, que esse bem compreendia o alcance da minha felicidade e orgulhava-se de ter contribuído para ela.

À meia-noite dissolveu-se a roda. Leandro retirou-se com o médico, ficando ajustado que voltariam ambos no dia seguinte às mesmas horas. O meu velho e querido amigo disse-me, ao sair, por ocasião de dar-me a mão:

— Vai muito bem! Vai muito bem!... Continue, Olímpia!

— Creio que consigo fazer o milagre... segredei-lhe, abraçando-o.

— Consegue, consegue tudo! Você é uma santa, minha amiga! Adeus.