Mistério do Natal/III

Mistério do Natal por Coelho Neto
Capítulo III: Lírios


Clareava.

Manhã opaca, envolta em bruma que algodoava a terra, flutuando com um lento ondular, fluindo em frouxéis alvíssimos como penugem, esgarçando-se, diluindo-se em fumo tênue que se esvaía no ar silencioso.

A espaços frondes boiavam, ramarias excídias irrompiam.

Ouvia-se o lentejo lacrimoso das folhas orvalhadas.

Ouvia-se o lentejo lacrimoso das folhas orvalhadas.

A terra dava-se avaramente, a trechos curtos, à medida que os viajantes avançavam e o caminho percorrido, como os da vida, eram logo fechados em branco pelos nevoeiros.

ranco também era o céu e triste, pesando sobre a terra, tão baixo que as nuvens, por vezes, envolviam os peregrinos.

Pássaros piavam nas taliscas, ocultos; vozes de gado, longínquas, evocativas, anunciavam casais.

Maria tiritava.

A túnica pesava-lhe nos ombros, úmida, e as faces, rorejadas, tingiam-se em duas rosas como se as flores, transidas, houvessem procurado abrigo ao calor carinhoso daquela mocidade pura.

José distraia a companheira falando-lhe dos lugares que iam atravessando.

Todos aqueles atalhos tortuosos, aqueles carreiros ínvios haviam sido, em tempos remotos, trilhados por patriarcas.

Ali haviam-se travado batalhas sangrentas; ali alvejara a tenda, crescera, em louro estendal, o trigo, retorcera-se a vinha, pastara o armento, correra o azeite, fundira-se o ferro, britara-se a pedra, cosera-se o barro sob as vistas de Iahve onipotente.

Por ali andara Elias trovejando oráculos. Judite afiara o gládio libertador nas arestas daquelas penhas.

Em poeira de ouro foi-se mudando a névoa: era o sol.

Já aparecia uma nesga de azul; árvores, moitas destacavam-se. A mortalha rasgava-se para a ressurreição.

Alegremente as aves, em claras vozes, cantaram a vitória da Luz. E Maria, contente, d’olhos em êxtase, esperava o astro anunciado pela fulguração das nuvens.

Num recanto, entre mirradas árvores de troncos retorcidos, uma água escura e quieta reluzia.

Pedras negras, cobertas de limo, escondiam-se sob ramos acenosos.

Maria, sentindo a dobrez da fadiga, os olhos pesados de sono, sentou-se tão perto d’água que ela toda refletiu-se na superfície espelhenta.

Viu-se, sem vaidade, com a mesma inocência com que revê o pássaro e, num momento, infantilmente, mergulhou, até o punho, as mãos ambas no paul.

Quis José repreendê-la, vendo-a, porém, sorrir, sorriu também.

Gotejando saíram as pequeninas mãos da água que tremia.

Olhavam os dois os círculos que se abriam quando viram dias flores subirem à tona, brancas, abertas em cinco pétalas, eretas em finas hastes, como se o reflexo das mãos da Imaculada se houvesse materializado em memória da ablução ligeira.

Eram lírios e trescalavam.

Virtude, brilho das almas, que importa que desças à vasa? És impermeável como a luz, purificadora como o raio de sol.

Não perdes a límpida pureza e, se entras no vício, fazes desabrochar a graça; se afundas no crime, tiras o arrependimento.

O pântano era lôbrego, coberto de folhas mortas e as mãos de Maria, só com o aflorarem, tanto o purificaram que dele nasceu o lírio sem mácula, símbolo formoso e cândido da inocência.