Mistério do Natal/IV

Mistério do Natal por Coelho Neto
Capítulo IV: A refeição


Suave som de flauta pastoril deu a Maria o encanto de um égloga. Voltou a cabeça dourada e viu o rebanho que se aproximava em vagaroso passo.

Trazia-o um menino, guiando-o por entre as heras de aroma. Um lindo menino, tão alvo que não despedia sombra, como as naves que os raios de sol atravessam; tão louro que a sua cabeça alumiava.

Vinha a flauta soando em suaves acentos e atraídas, enlevadas na música, abelhas voavam em volta do pastorinho, que assim apascentava dois rebanhos; um pela terra verde, outro pelos ares claros.

Ergueu-se Maria e, sem dizer palavra, olhando os ubres apojados das ovelhas, deu a sentir o seu desejo.

Como devia saber aquele leite que era a metamorfose das flores dos silvados! Como devia recender na boca e aquecer a fartar!

Calou-se a flauta e o menino, fitando os olhos meigos do casal errante, como se de muito o conhecesse e amasse, deteve-se, e os animais pararam.

Ficou o rebanho unido, tão junto que não fazia mais que um velo e as abelhas, zumbindo, puseram-se a esvoaçar em torno dos lírios alvos.

José adiantou-se e, oferecendo um óbolo ao menino, pediu-lhe um pouco de leite. Sorrindo, o pastorinho tomou o tarro que trazia ao flanco.

Logo, entre as ovelhas, houve um movimento ansioso. Balavam todas oferecendo as tetas refertas, atropelavam-se, saltavam querendo, cada qual, ser a escolhida e o pastorinho brandamente as afastava.

Foi à primeira, ordenhou-a. O leite esguichou em um fio; outra chegou, depois outra e a todas ele atendia para que nenhuma ficasse preterida.

Já a espuma fervia crescendo em flor, transbordando do vaso e as ovelhas festejavam-se contentes.

Sorrindo, aceitou Maria a oferta do zagal; bebeu a lentos goles, saboreando. E foi a vez de José.

Refeito, o patriarca insistiu na dádiva da moeda, mas o menino negou-se a recebê-la:

“Que era um gole de leite? Qualquer pastor faria o mesmo.”

Saudou-os, e, pondo-se à frente das ovelhas, levou a flauta aos lábios.

Os sons vibraram. Lento e manso o rebanho prosseguiu. Foi então que Maria viu que as abelhas, tantas que ocultavam os lírios, deixavam as flores voando à música de flauta.

- Lindo pastor! Lindo rebanho! Disse, enlevada, a Virgem. Mas logo, referindo-se às abelhas que fugiam, perguntou a José: Que terão elas buscado nas flores d’água?

- O aroma e o néctar, explicou o patriarca.

Chegaram-se os dois às flores e viram, maravilhados, que estavam cheias de mel cristalino e louro como o âmbar precioso e tão perfumado como se contivesse toda a essência das flores.

Tomou José um dos lírios e deu-o a Maria; a Virgem ofereceu-lhe o outro. Depois, deliciados, contemplavam-se felizes.

- A flauta já não soa, vai muito longe o pastor, disse Maria.

- Vai muito longe! Repetiu José contrito, levantando os olhos para o céu, como se procurasse nas nuvens o pastorinho louro e as ovelhinhas brancas.