Musa de olhos verdes

Musa de olhos verdes
por Machado de Assis
Poema publicado em Falenas.

Musa dos olhos verdes, musa alada,
          O' divina esperança,
Consolo do ancião no extremo alento,
          E sonho da criança;

Tu que junto do berço o infante cinges
          C'os fulgidos cabellos;
Tu que transformas em dourados sonhos
          Sombrios pesadelos;

Tu que fazes pulsar o seio ás virgens;
          Tu que ás mãis carinhosas
Enches o brando, tepido regaço
          Com delicadas rosas;

Casta filha do céo, virgem formosa
          Do eterno devaneio,
Sê minha amante, os beijos meus recebe,
          Acolhe-me em teu seio!

Já cansada de encher languidas flôres
          Com as lagrimas frias,
A noite vê surgir do oriente a aurora
          Dourando as serranias.

Azas batendo á luz que as trevas rompe,
          Pião nocturnas aves,
E a floresta interrompe alegremente
          Os seus silencios graves.

Dentro de mim, a noite escura e fria
          Melancolica chora;
Rompe estas sombras que o meu ser povôão;
          Musa, sê tu a aurora!