Numa e a Ninfa/II

Numa e a Ninfa por Lima Barreto
Capítulo II


O ar estava translúcido e fino. A manhã ia adiantada mas tinha ainda um pouco do encanto das primeiras horas. Botafogo é dos lugares do Rio de Janeiro aquele em que mais agradável é o amanhecer. A proximidade do mar e a vizinhança das altas montanhas, cobertas de vegetação, quando o sol é meigo, aí pelas primeiras horas do dia, casam-se, unem-se, fundem-se sob a luz macia e o céu azul, de tal forma que o encanto da manhã é inesquecível. Esquecemo-nos da áspera e violenta atmosfera das outras horas e mesmo de certas manhãs; deixamo-nos envolver na tênue e carinhosa gaze azulada do momento, totalmente, inteiramente, corpo e alma, idéias e sonhos, como se nos preparássemos para suportar os outros bravios instantes do dia.

Aquele dia amanhecera soberbo e quem andasse pelo arrabalde, pouco notaria as pretensiosas fachadas das casas, os gradis pelintras dos jardins, o movimento da criadagem, dos banhistas, para só aspirar o ar, aspirar e vê-lo e também as flores daqueles prudentes jardins minúsculos que bem medem a nossa riqueza, a nossa magnificência e o nosso luxo.

As palmeiras farfalhavam suavemente na rua Paissandu, levando o mar para as montanhas e trazendo a montanha para o mar; as árvores estremeciam na atmosfera e todos pareciam contentes. Os criados tagarelavam em grupos, cestos ao braço, mais animados para o árduo serviço; os caixeiros olhavam as cozinheiras com a ternura da manhã; os colegiais caminhavam brincando para as escolas; as patroas não tinham no rosto o enfado necessário do matrimônio, e os maridos, de volta do banho de mar, tiritavam alegres, sorridentes, esperançados nos seus negócios. A jocundidade da manhã porejava nas pessoas e nas coisas.

O diretor do Diário Mercantil , muito interessado no negócio da venda da Estrada de Ferro de Mato Grosso, tinha resolvido procurar Numa Pompílio, naquela manhã. Demandava a casa do deputado, sem notar a inocência e a bondade do momento e da paisagem, preocupado com a transação, desprezando as árvores, o ar, as montanhas, as flores e a gente.

Fuas Bandeira era português de nascimento e desde muito se achava no Brasil, metido em coisas de jornal. Homem inteligente, não era nem ignorante, nem instruído. Tinha a instrução e a inteligência de homem de comércio e pusera na sua atividade jornalística o seu espírito e educação comerciais. Escrevia, mas escrevia como um guarda-livros hábil. A influência da "correspondência" sentia-se bem na sua redação econômica de pontos, períodos longos, procurando dizer tudo sem suspender a pena.

Emigrado de Portugal, por motivos suspeitos, tendo recebido unicamente os princípios da educação secundária, Fuas foi durante muito tempo um fura-vidas sem felicidade. Sucessivamente guarda-livros, gerente de frontões, professor de montar em velocípedes de que era alugador, editor de pequenas revistas, concessionário de patentes que escondiam jogos de azar, um belo dia a magnanimidade de um patrício fê-lo empregado da gerência do Diário , mais tarde gerente e, quando o proprietário foi à Europa, deu-lhe procuração em causa própria para tratar dos negócios da empresa; e Fuas se serviu do instrumento para se apossar dos cabedais do protetor, não só dos que giravam na empresa, como dos particulares que ele soube, com a mais requintada má-fé e com a ousadia de ladrão profissional, arrancar à inexperiência de uma velha parenta do seu benfeitor e amigo, sob cuja guarda estavam.

Voltando precipitadamente o proprietário que fora prevenido dos desvios dos seus bens, levado a efeito pelo procurador infiel, reclamou imediatamente a restituição dos haveres, sob pena de queixar-se à polícia. Fuas foi ter com o chefe de Estado que ordenou ao Tesouro fornecer-lhe os fundos necessários. Daí em diante sua fortuna estava feita e os seus processos de foliculário firmemente estabelecidos. Nunca mais lhe faltou dinheiro, e muito sempre obteve, por este ou aquele meio escuso e cínico. Apesar disto, a sua folha sempre andava em concordatas, devendo ao pessoal; o que, a todos, causava admiração, pois Fuas, ao que diziam, tinha até aí, recebido de vários governos do Brasil cerca de três mil contos. Não é de espantar, quando se considera que só da vez que em que seu viu atrapalhado com o antigo proprietário do Diário , ele conseguiu em dias, graças às ordens do Presidente da República, obter quase mil e quinhentos contos. Todo esse dinheiro que ele cavava , empregava em aparentar largueza, peitar disfarçadamente os influentes e mais depressa perdia cinqüenta contos no jogo do que pagava, dos três em atraso, um mês à reportagem. Era preciso não perder a linha...

Encarava todo o debate jornalístico como objeto de comércio ou indústria e estendera esse critério aos casos políticos, às pretensões de qualquer natureza. Dizia o mesmo francamente e francamente agia, embora, quando acusado publicamente, se defendesse indignado.

Fazia uma vida brilhante: gastava, jogava, presenteava, mas a sua generosidade era sempre interesseira. Ele a tinha com os poderosos da indústria, do comércio, da política e dos negócios; e, nos apertos, não sacrificava um ceitil de suas despesas, para atender o pagamento dos salários dos seus próprios criados.

A sua venalidade provinha de um ceticismo inconsciente quanto ao valor da política, da ação do governo, mas o curioso é que ceticismo ele só o tinha quanto ao Brasil. No que toca à sua pátria de origem, era crente e desinteressado, esperando resultados fecundos dos atos acertados do governo.

Seguia-lhe a política, advogava este ou aquele partido, gabava tal ou qual personagem sem remuneração alguma, até com prejuízo. Fazia sistematicamente porém, ente nós, a indústria do jornal e não havia empreendimento ou obra por mais útil que fosse, representando emprego de capitais avultados e lucro para os empreiteiros de que não se procurasse tirar o seu quinhão.

Não acumulava dinheiro, talvez não sentisse vontade de voltar à terra de origem e tinha o Brasil na conta de mina inesgotável que, para dar-lhe lucro, precisava estar-lhe à testa.

Conhecia todos os poderosos, os que se faziam de poderosos, os que se iam fazendo e prometiam sê-lo, e a nenhum se acanhava de pedir isto ou aquilo. À proporção que subiam, subiam os seus pedidos; e, dessa forma, quando no fastígio podia pedir-lhe o que quisesse.

Lendo os jornais, fumando teimosamente, sem sentir a olente fragrância dos jasmins e a rua pitoresca, Fuas chegou à residência do parlamentar.

A casa do deputado Numa Pompílio ficava pelas bandas de Humaitá, por aqueles lados de Botafogo onde Darwin morou e ao anoitecer, punha-se a ouvir embevecido o hino que a Natureza, por intermédio das rãs humildes, entoa às estrelas distantes. Era um casarão comum, sem movimento, quer na fachada, quer na massa toda do edifício. Muito simplesmente um paralelepípedo, com largas aberturas de portas e janelas, tinha um só pavimento, mas o porão era tão alto que bem se podia contar como outro.

Vasto de fato era, e as seis janelas da frente e a situação ao centro do jardim, mais amplo que os comuns, com velhas fruteiras nodosas, corrigiam de algum modo a indigência de sua arquitetura. Tinha uma certa imponência e, demais, com o fundo para a escarpa verde-negra dos contrafortes do Corcovado, o casarão ressaltava, saía, adquiria certa distinção solarenga entre as jovens e acanhadas edificações dos arredores. Não era novo; pertencera aos avós da mulher de Numa e fora edificado aí pelos meados do século passado.

O velho Gomes (assim fora conhecido o avô de Edgarda) era português de origem humilde, traficara, enriquecera e se fizera, com os anos, uma potência comercial a cidade. Quando edificou aquele casarão, ainda era roça Botafogo e o fizera amplo e franco como uma casa de campo. Viveu muito e enterrou quase todos os descendentes, exceto a filha, que se casou com o Dr. Neves Cogominho.

O genro, graças à previdência do velho negociante, não pudera desbaratar os haveres da mulher; ele mesmo não precisava disto. Médico, novamente formado, só necessitava de representação para ganhar fortuna na clínica; não teve tempo porém de o fazer, porque, antes de cinco anos de casado, proclamara-se a República e a política ofereceu-lhe campo mais vasto e menos trabalhoso para a vida abundante,

Lembrou-se de que era republicano, e seu tio, o Coronel Fortuna, amigo íntimo de Deodoro, tomou conta do seu Estado natal e ele foi feito deputado, enquanto os seus primos, concunhados, sobrinhos, aderentes e afins ocuparam outros cargos no Estado, implantaram nele o domínio dos Cogominhos de que ele se fez chefe por morte do venerando Fortuna.

A mulher não lhe viu a ascensão na política; morrera pouco depois de proclamada a República, deixando-lhe uma filha de dois ou três anos que foi criada por uma velha tia do pai.

Cogominho não abandonou o casarão de Botafogo e só o deixou de habitar continuamente quando casou a filha. Assim mesmo tinha nela aposentos, mas dera para ficar em Petrópolis, onde antigamente costumava passar só três ou quatro meses.

Seu genro, em começo, custou muito a habituar-se à velha casa. Achava-se deslocado, julgava-a grande em demasia; era como se tivesse vestido a roupa de um gigante. Aquelas amplas salas, grandes quartos e longos corredores, quase sem habitantes, só com móveis, as mais das vezes fechados, pareciam-lhe povoados de duendes. Habituado às pequenas casas, órfãs de trastes e outros adereços, Numa esforçava-se por entrar na significação e necessidades daqueles consolos, reposteiros e divãs. Achava os sofás estufados baixos demais e as cadeiras frágeis; o que o aborrecia muito era a falta de escarradeiras.

O cunhado estava na Europa e grande parte da casa vivia fechada, só vindo a conhecer algumas dependências quando a velha tia de Cogominho, D. Romana, voltou de Sepotuba. A velha fazia abrir, varrer e espanar tudo aquilo diariamente e movia-se dentro do casarão com a liberdade de quem conheceu daqueles como centro de léguas quadradas de uma fazenda.

Era de supor que Numa esperasse por tudo isso, mas não pedia tanto a sua ambição de posição e dinheiro. Nela, não havia necessidade interna de grandeza, de luxo, de comodidade, de magnificência; havia tão somente preguiça, preguiça física preguiça mental, vontade de ficar a coberto dos vaivéns da sorte, das "rebordosas", o pavor nacional do dia de amanhã. Ficou estranho à casa, às alfaias e continuou com os seus hábitos medíocres.

Após a café e a leitura dos jornais, viera o deputado até a sala de visitas espairecer um pouco. Vinha ver pelas janelas a rua que lhe ficava em frente da casa. Antes de espiar o movimento matinal do bairro, quis o acaso que examinasse um pouco os adornos da sala. Aí, parou um pouco, convidado por esse ou aquele móvel. Julgou uns antipáticos, gostou dos antigos, pesados e amplos; examinou os bibelôs e demorou-se a considerar uma estatueta de bronze. Sentada em êxedra, de marfim, uma mulher tinha os braços abertos sobre os ramos da cadeira. O busto estava nu, a parte inferior coberta, e, aos pés, uma coroa de louros. Viu-lhe o olhar perscrutador, a expressão do rosto de serena imaterialidade, a atitude geral de suspensão. Olhou-a ainda demoradamente e descobriu qualquer coisa naquele pedaço de bronze que até ali não tinha sentido nunca. Afastou-se um pouco, examinou um biscuit , um outro bronze; mas, sempre aquela mulher em expectativa, à espera não sei de que atraía o seu exame.

Teve medo de apanhá-la; afinal, o fez. Leu alguma coisa na base; não decifrou bem ou não teve confiança na leitura. Apesar da manhã muito clara, devido às cortinas, a luz entrava escassamente e a sala estava em uma meia penumbra. Trouxe-a bem junto à janela e leu claramente: Histoire - História!

Numa não precisou bem a relação entre a estatueta e a legenda, mas ainda assim olhou o bronze, o modo natural de seus braços abertos, a sua serenidade total, quando lhe avisaram que havia uma pessoa que queria falar-lhe. Leu o cartão e mandou que fizessem entrar para a saleta o Sr. Fuas Bandeira, diretor do Diário Mercantil .

Apurou melhor a "toilette" matinal e foi ao encontro do jornalista, depois de ter ao acaso lançado o olhar sobre o retrato do avô de sua mulher, enquadrado em uma grande moldura dourada.

Fuas Bandeira desculpou-se preliminarmente por ter vindo incomodá-lo tão cedo e expôs com franqueza o objeto da sua visita. A rejeição do "veto" oposto ao projeto de venda da Estrada de Mato Grosso devia ser posta em ordem do dia e Fuas esperava que Numa voltasse pela rejeição.

O legislador afastou da lembrança a figura da estatueta e respondeu:

— Qual é a opinião de Bastos?

— A mim, meu caro doutor, ele já me disse que não tinha opinião firmada. Dá mesmo a entender que é questão aberta...

— Mas não disse claramente?

— Não, não disse. O doutor sabe como é o doutor Bastos. Ele não costuma dizer, quando se trata de insignificâncias. penso assim ou não. Parece-lhe que dizer a tal respeito a sua opinião é insinuar que os seus amigos votem com ele. O doutor Bastos já está tão farto de ouvir dizer que ele violenta a consciência dos seus amigos, que é um ditador, que é a sua vontade que domina a dos outros, que ele é o partido. Ora, doutor, quando se trata dessas coisas de nonada, ele abstém-se de falar para que os republicanos votem como entendam.

— Mas no caso do Peixoto...

— Ah! doutor! O caso aí outro. Tratava-se, é verdade, de uma licença, mas Peixoto é inimigo do partido, inimigo acérrimo. Com o caso da Estrada, não há nada disso, posso garantir-lhe!

— E o povo?

— O povo! O povo! Que tem o povo com estas questões? Por acaso ele pode raciocinar sobre finanças? Creio que não, meu caro doutor. Não é a sua opinião?

— Dizem que o governo gastou cem mil contos e vai vender pela metade.

— Não é certo; mas, se o fosse, valia a pena contar também com o "deficit" que ela dá. A operação, meu caro doutor, traz desafogo para o governo, não só para já, como para o futuro. O meu interesse como republicano, é facilitar meios de vida à república e também educar o Brasil no caminho da iniciativa particular. Se até agora ela não se tem feito sentir na economia do país, é devido à timidez dos senhores diante da algazarra dos caluniadores.

A teimosa fragilidade da estatueta passou de novo pelos olhos do antigo juiz de Catimbao.

Fuas Bandeira acendeu o charuto e continuou de pé:

— O doutor, certamente, conhece bem a questão?

— Pouco.

— Pois se quer... Ah!

— Que procuras, Sr. Fuas?

— A minha pasta... Está no automóvel.

Numa fez vir o criado para buscá-la e dela tirou o jornalista um folheto explicativo sobre a vantagem da operação. Ainda falaram sobre outras questões; Fuas não aceitou o almoço e despediu-se recomendando:

— Leia, doutor! Leia! Quanto à opinião do doutor Bastos, não se incomode, pois ele dá toda a liberdade a seus amigos.

Quando Numa voltou em demanda ao interior da casa, ainda olhou distraído a estatueta que continuava repousada, serena, na meia penumbra do salão.

A vida do casal continuava a ser a mesma. Viviam um ao lado do outro, sem grandes ternuras, sem ódio, sem também a perfeita e mútua penetração que o casamento supõe. Pareciam habituados àquele viver desde muito tempo; e D. Edgarda costumava a velar, a animar a carreira política do marido, maternalmente.

Era a sua ambição que se realizava na celebridade do marido. Educanda das irmãs, de Botafogo, ela não queria ficar atrás das outras e lembrava-se do que lhe dissera certo dia a irmã Teresa, com sua voz macia e aquele olhar inteligente que dava tanta vida à sua cútis de pergaminho.

— Veja só, Edgarda, quase todos os homens importantes do Brasil têm casado com moças educadas aqui. A mulher do Indalécio, O Ministro da Justiça, foi nossa discípula; a Rosinha, que se casou com o Castrioto, do Supremo Tribunal, também; e a mulher do almirante Chavantes? e a Laurentina? como era bonita, meu Deus! Coitada! essa morreu cedo mas o marido foi longe. É rara, minha filha, a educanda nossa que não leva o marido longe.

Nunca havia se esquecido do que lera naquele palimpsesto debaixo de tais palavras; e casara, certa de que Numa ia fazer o seu nome ecoar por todo o país. era preguiçoso, descansado; mas já dera o primeiro passo e a questão estava em continuar. A sua satisfação foi grande quando o viu elogiado, apontado, em caminho da notoriedade; mas, era necessário que não ficasse ali. Precisava insistir, ter o seu nome em todas as bocas, ser falado diariamente pelos jornais, como era o marido da Ilka, sua antiga colega.

Notava ela que a celebridade do marido começava a esfriar, a ser esquecida; e ficava contrariada quando lhe diziam nas lojas, aqui ou ali que não o conheciam. Fizera o marido comprar muitos números da Os Sucessos" e mandar para o Estado; insistira com o pai para que a biografia fosse transcrita no órgão oficial do partido em Itaoca. Esforçava-se por adivinhar os golpes que ele pudesse levar e só os via por parte de Salustiano, um contra-parente do pai, que parecia não ver com bons olhos o domínio de Cogominho.

Tinha nascido no Estado, ocupava um bom emprego e todo o desejo dela era tê-lo sempre afastado de Sepotuba, para não obter influência direta, ficar sempre na dependência de Cogominho e não fazer valer em proveito próprio a tradição do pai dele, Salustiano.

Recomendava muito ao marido que fosse gentil com ele, que o convidasse a jantar, que perguntasse pela família; mas Numa tinha uma pequena implicância com o parente, por saber que sempre o tratava como - "o genro do Cogominho".

Dissera mesmo isso à mulher; ela, porém, lhe recomendara que não desse atenção e lhe captasse a boa vontade.

Edgarda lembrou-se naquela manhã de insistir com Numa para que ele aparecesse na tribuna. A visita de Fuas fê-la adiar de propósito e ocupou toda a manhã em coisas caseiras. Foi ao jardim, correu à chácara, viu bem a horta, porque era ela unicamente quem se interessava por aquelas dependências da casa.

O marido, apesar de ter nascido em cidade pequena do interior, não as apreciava; e se ia por ali, passava por sobre os canteiros um olhar distraído e indiferente. Só uma mangueira despertava-lhe interesse e era de antipatia. Ele não notava a beleza da fruteira, os seus grandes ramos alongados como braços, a sua sombra maternal e piedosa; Numa antipatizava com a árvore porque não dava frutos.

A mulher era quem se interessava por aquelas silenciosas e consoladoras vidas, que lhe sugeriam recordações de menina, de moça, da mãe, do avô.

D. Romana, a tia-avó, ficava no interior e tinha pelos velhos trastes, pelas velhas terrinas rachadas, por tudo quanto era alfaia velha ou utensílio antigo, um interesse de depositária do passado. Não deixava pôr fora um móvel bichado, um bule sem tampa, só se de todo não lhe fosse possível esconder em qualquer socavão da casa.

Entre as duas, a velha tia e a sobrinha moça, havia esse acordo tácito de tratar uma do exterior e a outra do interior do velho casarão do falecido Gomes.

D. Edgarda viu com prazer a visita de Fuas. Estava no fundo do quintal, mas de lá mesmo pode reconhecê-lo pelo automóvel. Continuou, porém, na chácara e não notou a saída do jornalista.

Até quase à hora do almoço ficou vendo as hortaliças, os preparativos do chacareiro para protegê-las do verão; e, quando deixou a horta, já a mesa estava posta.

Numa empregava o tempo fazendo lentamente a sua "toilette" de sair. Sempre a fizera com lentidão e vagar; desde os tempos de pobreza, que ele oficiava no vestir a calça, no abotoar os punhos e estudava bem ao espelho o atar da gravata.

À mesa, sentaram-se, como de costume, ele, a mulher e a mulher e a velha D. Romana.

Em começo, antes de desdobrarem o guardanapo, Edgarda perguntou:

— Numa, não foi o Fuas quem esteve aqui?

— Foi

Numa respondeu e, sem alongar a resposta, começou a servir-se. A mulher insistiu:

— Que queria ele?

O parlamentar reprimiu um pouco o aborrecimento que a insistência da mulher lhe causava e respondeu:

— Nada! Um negócio de venda de uma estrada de ferro.

— Que estrada? A de Mato grosso?

— É, Edgarda.

— Você prometeu o voto?

— Disse que ia pensar.

— Pensar? Você já sabe a opinião de Bastos?

— Não, mas dizem que ele não faz questão.

— É preciso cuidado.

Arrependeu-se o marido da mau humor com que recebera as perguntas da mulher e indagou com afeto, olhando-a demoradamente:

— Se ele não faz questão e é coisa de dinheiro, quer dizer...

— Quer dizer...

— Quer dizer; quer dizer - o quê?

— Quer dizer que você deve aproveitar, seu tolo!

— Como?

A mulher riu gostosamente e a velha ficou espantada com atitude da neta e o espanto de Numa.

— Como?! - fez Edgarda. - Eu sou deputado, por acaso? Por que não pergunta aos seus colegas... Veja como o Cristiano está rico! Quando foi eleito, tinha alguma coisa? Tinha nada, seu tolo! Tinha nada!

Houve entre os dois um silêncio de inteligência; e, aproveitando uma ausência do copeiro, Numa refletiu:

— Esse Fuas não é coisa muito boa.

A mulher descansou o garfo, serviu-se de vinho e disse com vagar:

— Em política, nessas coisas, a gente não tem muito o que escolher. Se uns não são amigos dos outros, uns têm necessidade dos outros e as coisas vão passando. Você deve saber disso.

— É, mas esses homens de jornal... estrangeiro...

— Olhe, papai diz sempre: ninguém cospe no prato em que comeu; e papai já é antigo na política, é muito considerado... O que você deve fazer é aparecer, é falar, dar pareceres...

— Não tenho tido ocasião...

— Há sempre ocasião, desde que...

O copeiro interrompeu-os e avisou o patrão de que estava ali o Lucrécio que lhe queria falar.

Lucrécio, ou melhor: Lucrécio Barba-de-Bode, por sua alcunha, que tão intempestivamente interrompia o almoço do deputado Numa Pompílio, não era propriamente um político, mas fazia parte da política e tinha o papel de ligá-la às classes populares. Era um mulato moço, nascido por aí, carpinteiro de profissão, mas de há muito não exercia o ofício. Um conhecido, certo dia, disse-lhe que ele era bem tolo em estar trabalhando que nem um mouro; que isso de ofício não dava nada; que se metesse em política. Lucrécio julgava que esse negócio de política era para os graúdos, mas o amigo lhe afirmou que todos tinham direito a ela, estava na Constituição.

Já o seu amigo fora manobreiro da Central, mas não quis ficar naquela "joça" e esteva arranjando coisa melhor. Dinheiro não lhe faltava e mostrou-lhe vinte mil réis: Sabes como arranjei? - fez o outro. — Arranjei com o Totonho do Catete, que trabalha para o Campelo.

Lucrécio tomou nota da coisa e continuou a aplainar as tábuas, de mau humor. Que diabo? Para que esse esforço, para que tanto trabalho?

Fez-se eleitor e alistou-se no bando do Totonho, que trabalhava para o Campelo. Deu em faltar à oficina, começou a usar armas, a habituar-se a rolos eleitorais, a auxiliar a soltura dos conhecidos, pedindo e levando cartas deste ou daquele político para as autoridades. Perdeu o medo das leis, sentiu a injustiça do trabalho, a niilidade do bom comportamento. Todo o seu sistema de idéias e noções sobre a vida e a sociedade modificou-se, se não se inverteu. Começou a desprezar a vida dos outros e a sua também. Vida não se fez para negócio... Meteu-se numa questão de jogo com um rival temido, matou-o e foi sagrado valente. Foi a júri, e, absolvido, por isto ou por aquilo, o Totonho fez constar que o fora por empenho do Dr. Campelo. Daí em diante se julgou cercado de um halo de impunidade e encheu-se de processos. Quando voltou a noções mais justas e ponderou o exato poder de seus mandantes estava inutilizado, desacreditado, e tinha que continuar no papel...

Vivia de expedientes, de pedir a este ou aquele, de arranjar proteção para tavolagens em troco de subvenções disfarçadas. Sentia necessidade de voltar ao ofício, mas estava desabituado e sempre tinha a esperança de um emprego aqui ou ali, que lhe haviam vagamente prometido. Não sendo nada, não se julgava mais operário; mesmo os de seu ofício não o procuravam e se sentia mal no meio deles. Passava os dias nas casas do congresso; conhecia-lhe os regimentos, os empregados; sabia dos boatos político e das chicanas eleitorais. Entusiasmava-se nas cisões por ofício e necessidade. Era este o Lucrécio que, ao entrar, fez com tos jovialidade:

— Bons dias.

Todos responderam e ele esperou que lhe perguntassem a que vinha.

Esperou com muito acanhamento e respeito. Respondeu:

— O doutor Neves manda dizer a V. Exa. que não deixe de ir logo à tarde ao Senado.

— A que horas?

— Aí pelas três horas.

Edgarda voltou-se para Lucrécio e indagou naturalmente:

— Você sabe de alguma coisa?

— Eu, minha senhora, não sei bem, mas ouvi rosnar.

— O quê?

— Não sei... mas parece... eu não sei... A questão é do novo presidente. O Dr. Bastos...

— Ele sabe?

— Homem, minha senhora, ele é o macaco fino...

— Quem é o novo? Não é o Xisto?

— Não sei, mas se há "encrenca! é porque não é do gosto do "velho".

Numa pôs fim à conversa mandando que ele fosse almoçar. Lucrécio conhecia a casa e os criados, com os quais era familiar. Almoçou na copa com todo o desembaraço, como fazia na casa deste ou daquele parlamentar. O copeiro perguntou-lhe:

— Que há, Lucrécio?

— Olha: não digas nada. A força não quer o Xisto. Não digas nada. Querem pôr lá o ministro deles, o general Bentes... Não digas nada!

A saída do Barba-de-Bode não produziu o reatamento da conversa. Marido e mulher calaram-se. Pairou sobre eles uma atmosfera de apreensões e pressentimentos. As novidades do emissário, as suas meia palavras, o vago de suas informações, a imprecisão delas escondia algo tenebroso para as suas ambições. Viam na estrada obstáculos, viam-na interrompida bruscamente, violentamente. Sentiam a proximidade do imprevisto e esse sentimento se engolfava, avolumava-se, crescia neles, perturbava-lhes as sensações e as idéias, misturava umas com as outras, baralhava as lembranças; a consciência fugia de regulá-las, de encadeá-las; a personalidade perdia os pontos de referência. Era a catástrofe próxima, a catástrofe jamais esperada.

O dia ainda continuava lindo, fresco e tranqüilo; o chá foi servido quase em silêncio; a velha Romana olhava um e outro e não tinha nada a dizer. As breves palavras do serviçal e as que lhe eram dirigidas morriam no silêncio como se não fossem pronunciadas. O próprio copeiro servia sem desembaraço; parecia novo no ofício, constrangido. O ruído das xícaras era logo abafado. De quando em quando, o marido olhava a mulher, e esta aquele; e aos dois, com um olhar perscrutador, cheio de esforço de adivinhar, a velha D. Romana, tia-avó de D. Edgarda.

Ia assim o almoço já ao fim, quando a cadelinha apareceu na sala. Correu para junto da dona, com acentuados trejeitos de contentamento; festejou-a e a moça afagou-a, dizendo:

— Olha a minha pobre Lili.

Apanhou-a ao coo, abraçou-a, dizendo:

— Coitadinha! Coitadinha dela! Onde estiveste, meu bem?

Levantaram-se da mesa e D. Edgarda pode dizer:

— Não deixe de ir ver papai. Essas coisas não se adiam.

Ela continuou a afagar a cachorrinha; Numa acendeu o charuto que teimava em apagar-se e respondeu com firmeza:

— Não deixo, não deixo!... Sei bem, muito bem, que é preciso ouvi-lo.

As mulheres afastaram-se, enquanto Numa sentado à cadeira de balanço, fumava, vendo desfazer-se a mesa do almoço. Essas reviravoltas, essas contramarchas na política, ele ainda não sabia adivinhar. Às vezes estava na votação de um projeto; outras vezes na notícia de um jornal; outras vezes em um boato, de forma que não sabia se à sua inexperiência ou a outra qualquer coisa devia atribuir essa falta de acuidade para descobri-las.

Ainda ontem saíra da Câmara e nada vira, nada notara de extraordinário, a não ser um tenente do seu Estado a conversar à parte com um deputado veterano. Vira-os, lembrava-se de que quase sempre confabulavam; mas agora é que notava os reiterados encontros de ambos e o cuidado que tinham em falar baixo, quando se acercava deles. Haveria uma revolução? Mas não podia haver! Deviam estar satisfeitos os militares! A recomendação era dar-lhes tudo. Não tinham? O montepio das filhas que deviam perder ao casar, não ficava com elas depois do matrimônio? Queriam mais postos? A reforma não se fizera? As suas viúvas não viviam em casas do Estado sem pagar aluguel? Os seus filhos não tinham um luxuoso colégio de graça? Mas seria mesmo revolução?... Quem seria vencedor, se houvesse uma? Era preciso adivinhar. Mas como adivinhar, meu Deus? Quem estava garantido em um país desses? Quem? O imperador, um homem bom, honesto, sábio, sem saber por que, não foi de uma hora para outra tocado daqui pelos batalhões? Quem podia contar com o dia de amanhã? Ele, Numa? Julgara isto até ali, mas via bem que não. Só havia um alvitre; ir para fora e esperar que as coisas se decidissem, aderindo então ao vencedor. Seria bom.

A sua vontade era esta, mas... o seu sogro havia de indicar-lhe o a caminho. Tinha experiência dessas coisas.

O copeiro acabava de tirar a toalha e sacudiu pela janela as migalhas que tinham ficado nela. Numa reparou a operação sem nenhum pensamento, esquecido um instante de suas apreensões. A idéia da revolução voltou-lhe novamente e dirigiu suas idéias para o governo. Que fazia ele? Não sabia? Então o governo não tem tanta força que o país paga para mantê-lo - como não tinha tomado providências? Para que servia a Polícia, os Bombeiros? Que poder?! E a Constituição? Lembrou-se Numa que era também poder, poder Legislativo; e a revolução podia atingi-lo. A mulher apareceu:

— Pensei que você já tivesse ido.

— Não. Que é que há?

— Eu sei lá!

— Deve haver alguma coisa, porque...

— O melhor é você fingir que não sabe nada.

— É o que vou fazer.

— Outra coisa, Numa: você vê se os meus livros já vieram.

O deputado, com essas comissões da mulher, já ganhara uma certa prática dos livros e matara um pouco em si a aversão que sempre sentira por eles. Só julgava perdoáveis aqueles que lhe serviam à carreira, os outros julgava que deviam ser queimados.

Passava freqüentemente pelas livrarias, comprava um e outro, dava-os à mulher que sempre tivera o hábito de ler. E ela lia poetas, lia os romances, e foi alargando o campo de leitura. Deste e daquele modo foi completando a sua instrução, adquirindo essa segunda que as mulheres, no dizer de Balzac, só adquirem com um homem. Apanhara bem a relação que há entre a vida que não vivera e o livro que lia: entre a realidade e a expressão.

Numa tinha o cuidado de não dizer aos indiscretos que os livros eram para a mulher; e gostava daqueles encargos, mirando às vezes as estantes da esposa com íntimo orgulho.

O marido fora atender uma visita; ela abriu o livro que trazia marcado e seguro em uma das mãos e pôs-se a lê-lo sentada à mesa de jantar.

Numa que estava completamente preparado para sair, não se demorou em ir à sala. Nela encontrou uma elegante senhora de quarenta anos, luxuosamente de luto, irrepreensivelmente espartilhada, muito alva, com uns lindos olhos negros que mais se encheram de brilho e sedução quando disse:

— O Doutor há de desculpar-me tê-lo incomodado agora, mas...

— Não, minha senhora. Prefiro mesmo ser procurado à esta hora, porque à tarde, ou mesmo à noite, estou quase sempre ocupado com estudos, lavrando pareceres... Faça o favor de sentar-se... Os deputados trabalham muito, minha senhora.

Os dois sentaram-se, e a dama tomou uma posição natural e irrepreensível, como se posasse para o retrato.

— Sei bem, Doutor. Sei perfeitamente. Meu marido já me dizia isso.

— Seu marido foi deputado, minha senhora?

— Não, Doutor. Sou viúva do Sr. Lopo Xavier.

— Oh! Conheci muito...

— Deu-se com ele?

— Não. De nome, era um belo talento. Queira aceitar os meus pêsames.

— Obrigada, Doutor.

Calou-se um instante; com o dorso da mão esquerda, assentou melhor a blusa na cintura delgada e continuou a viúva mais melodiosa.

— O Doutor sabe que ele não deixou nada. Morreu pobre. Só deixou a casa em que moramos, o montepio, muito pequeno, e quase nada mais... Não nos é possível viver com isso, tudo está tão caro, Doutor, que requeri ao Congresso uma pensão.

Pronunciou as últimas palavras adoçando as sílabas com uma leve inflexão de sofrimento.

Numa perguntou:

— Muitos filhos, minha senhora?

— Um, uma filha.

— Julguei que fossem mais. Os jornais, se não me engano, disseram...

— São do primeiro casamento. Estão maiores, os filhos; e a filha, casada.

A senhora alongou o busto e explicou imediatamente:

— Não é justo, Doutor, que o governo deixe na miséria a viúva e a filha de um homem que tanto trabalhou pela pátria. Foi propagandista da República, bateu-se pela abolição...

— Sei bem disso, mas esse negócio de pensão... esse negócio de pensão... A senhora já falou com o senador Bastos?

— Já. Ele me disse que dava o voto dele.

— Vou ver.

— Dão-se tantas. Não deram à viúva de um calafate que morreu no incêndio de um navio de guerra? Meu marido foi um juiz íntegro...

— Não há dúvida, minha senhora; mas houve grande dificuldade em dar-se à viúva daquele general...

— Ah! Doutor! O montepio é muito grande; não é como o nosso, viúva de civis.

Numa passou o olhar pela sala e demorou-se um instante olhando o retrato do avô de sua mulher. Notou-lhe a expressão de energia, a agudeza do olhar e considerou depois a espessa moldura dourada. O legislador ia falar, mas a viúva tomou-lhe a palavra.

— É de toda a justiça, Doutor, o que peço.

— Não há dúvida, minha senhora! Não há dúvida! Conte comigo, minha senhora.

A viúva levantou-se e, estendendo a mão irrepreensivelmente enluvada, despediu-se:

— Obrigada, Doutor. Obrigada. E, sem querer incomodá-lo mais, desde já lhe agradeço muito o favor que me vai prestar.

Encaminhou-se para a porta e a marcha fez que ondas de essências caras envolvessem o doutor carinhosamente.

Ao pisar no patamar da escada, arrepanhou gentilmente as sedas da saia, voltou-se e cumprimentou, sorrindo, o deputado, que a levara até aporta da entrada.

Edgarda tinha continuado, na sala de jantar, a leitura do seu querido Anatole France. Relia o volume e se detivera na frase em que um velho acadêmico, depois de cochilar um tanto, afirma: "Rassurez-vous, madame: une comète ne viendra pas de si tôt heurter la terre. De telles rencontres sont extremement peuprobables!.

Lembrou-se bem do fim do almoço e ficou segura de que o fim do mundo estava indefinidamente adiado.

Tendo-se despedido da viúva, Numa voltou à sala de jantar, já com o chapéu na mão, para sair. A mulher perguntou.

— Quem era essa senhora?

— É a viúva do Lopo Xavier.

— Que queria ela?

—O meu voto para que lhe fosse concedida uma pensão que requereu.

— Prometeste?

— Prometi.

— E o Bastos?

— Não se incomoda

— Tu a conheces?

— Não.

— Pois saibas tu de uma coisa: ela é rica, não muito, mas tem com que viver.

— Quem te disse?

— Todos sabem. O pai deixou-lhe dinheiro e o marido alguma coisa. O que ela quer é luxar... Não precisa... O que tem dá e sobra.

Os dois calaram-se e Numa ficou um instante parado, hesitando em despedir-se da mulher. Não achava nenhuma gravidade na promessa. Que podia ser? Trezentos ou quatrocentos mil-réis por mês. Adiantou-se para beijar a mulher, quando esta lhe perguntou de repente:

— Numa, vocês já votaram a pensão para a viúva daquele bombeiro que morreu num incêndio da Saúde?

— Que bombeiro?

— Homem, não sabes? O presidente pediu até em mensagem especial... Não te lembras?

— Ah! É verdade!

— Então?

— Ainda não. A comissão ainda não deu parecer.

Beijaram-se e Numa saiu para a sessão da Câmara dos Deputados.