O Fim do Mundo/XVII

O Fim do Mundo
por Joaquim Manuel de Macedo
Grafia e realces originais mantidos.


XVII.

Deixei a policia, e para distrahir-me quiz tomar o fresco no campo da Acclamação. O espirito de classe obrigou-me a penetrar no barracão do Provisório.

Subi ao salão ; e que scena havia de se offerecer a meus olhos ?... Ah !... todas as coristas da companhia lyrica tinhão morrido no meio do um ensaio! desgraçadas!... havião feito pausa final... eterna.

Aquellas flôres viçosas e bellas ! aquelle formoso grupo de encantadoras fadas !... aquellas nymphas, ou divindades de belleza arrebatadora e de voz de rouxinol, coitadinhas ! estavão todas prostradas e sem vida; mas nem uma só dellas se esquecêra de morrer em posição grave e composta.

E diante d'ellas em pé, como em extasis, porém morto e bem morto, destacava-se a figura do meu amigo Dionysio, de batuta na mão e com o mais terno e suave dos olhares cravado no grupo encantador ! Ah Dionysio ! foste mais feliz do que eu ! morreste abrasado por dous fogos : fogo do cometa e fogo de amor ! sempre é uma consolação morrer assim.

Requiescat in pace.