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O Momento Literário por João do Rio
VI: Coelho Neto


Dez horas da manhã. O grande artista escreve. A sala forrada de cinza está atravancada de altas estantes de canela, de largos divãs indianos, de vastas rocking-chairs de couro lavrado. Na secretária, um frasco de neurosina, um volume de Dumas, um pote de faiança com fumo rio-novo. Ao fundo, uma coleção de retratos de amigos. Muitos estão mortos. Os amigos que morrem levam para a sepultura um pedaço da nossa própria vida... A atmosfera morna é de inteira quietação. Na rua, o mormaço do céu, afogado em nuvens, parece abater as árvores; na sala ouve-se apenas o imperceptível cicio da pena no papel de linho, enquanto um gato, muito gordo, muito branco, muito peludo, lambe devagar uma das patas. Coelho Neto levanta-se normalmente às cinco da manhã, senta-se a escrever às seis, trabalha até às doze, vai para o duche frio, almoça e às três da tarde recomeça para só terminar quando se acendem na cidade as primeiras luzes. Há quatro horas já, impalpável e divina, a fantasia impele a sua pena de aço.

— Pode-se falar?

O artista levanta a cabeça.

— Oh! tu? entra... Aproveito e descanso um pouco. Estou a escrever agora uma peça para a companhia Lucinda e Christiano. A princípio foi um prazer. Mas eu tenho um juiz, o meu primeiro público, minha mulher. Outro dia sentei-a naquela cadeira e fi-la ouvir um ato. Sabes a sua opinião? É uma peça perversa, que me vai criar uma porção de inimizades! Verdade é que não há nada de mais atual. Estudo aspectos da nossa sociedade ainda por estudar no teatro, e entre os quais o mundo dos decaídos e a célebre questão dos casamentos... Minha mulher obrigou-me a rasgar uma cena inteira, entre um velho, que é o elemento honesto, representativo do nosso antigo fundo moral, e o grupo moderno. Que tem Sr. Paiva? — Ora, o que tenho! Não sabe que o Sousa casou? —Bom, e o que há nisso para tristezas? — Mas a primeira mulher está viva... Começava assim. Pois, rasguei a cena! Não imaginas como custa inutilizar um trabalho quando o sentimos vivo e exato. O meu público porém é inexorável. Senta-te. Tomas café?

Coelho Neto está de pijama branco, meias de seda, escarpins de pelica. Senta-se um instante.

— Sabes que inda não pensei no questionário? Há lá um ponto muito grave, — a pergunta sobre a influência do jornalismo.

— É dizer qualquer coisa: muito bom, muito mau, regular...

— Sem explicações?

— Pois se é grave!

Neto sorri.

— Vamos a ver o questionário. Deve estar numa destas gavetas.

Procura-o. O papel branco em breve aparece dobrado em dois, e eu prevejo que daquelas simples perguntas a imaginação de Coelho Neto fará surgir a maravilha e o encanto. Se é de pasmar o brilho, a cintilação de estilo no escritor, a faculdade da imagem, o poder evocador, o comentário agudo e a torrencial fantasia do seu claro espírito como que se acentuam na conversa. Neto conversa irresistivelmente, caleidoscopicamente. A palavra vive no seu lábio com um poder formidável e consciente. Há momentos em que se tem, pela harmonia dos períodos, a rápida impressão dos malabaristas jogando bolas de metal de pesos diferentes, e cada fase sua em torno do assunto traz, numa palpitação de encantos, a constante visão dos cultos mortos e dos deuses. Coelho Neto é, de resto, de uma rude franqueza meridional.

— Para a minha formação literária, começa ele, não contribuíram autores, contribuíram pessoas. Até hoje sofro a influência do primeiro período da minha vida no sertão. Foram as histórias, as lendas, os contos ouvidos em criança, histórias de negros cheias de pavores, lendas de caboclos palpitando encantamentos, contos de homens brancos, a fantasia do sol, o perfume das florestas, o sonho dos civilizados... Nunca mais essa mistura de ideais e de raças deixou de predominar, e até hoje se faz sentir no meu ecletismo. A minha fantasia é o resultado da alma dos negros, dos caboclos e dos brancos. É do choque permanente entre esse fundo complexo e a cultura literária que decorre toda a minha obra, e daí Baladilhas, Rapsódias, livros de uma fatura absolutamente especial.

— Há, entretanto, uma parte da sua obra...

— Sim, a parte fescenina. É aí, no Fruto Proibido, que começo a ter a responsabilidade do meu trabalho. O amor pelas lendas, pelo fantástico ficou porém. O livro que mais me impressionou foi As Mil e Uma Noites. Depois toda a obra de Shakespeare, o Dom Quixote, os poetas gregos, Plutarco, que releio constantemente...

— E dos modernos?

— Flaubert, o admirável Maupassant, Taine, que é a base da minha visão crítica, e os ingleses contemporâneos, com especialidade os dramaturgos.

— Quanto a Portugal?

— Todos os clássicos, Eça de Queirós... Eu estudo com grande amor a língua portuguesa, mas sou pela liberdade, fujo aos estudos propriamente chamados clásssico-gramaticais. As línguas evoluem, e eu admito, como necessidade de representação de idéias, o estrangeirismo. Tenho a respeito da palavra uma teoria: a palavra falada é a palavra viva, livre, solta de todas as cadeias, capaz de por si só definir, pintar, colorir; a palavra escrita é a palavra agrilhoada, morta, sem a expressão imediata. A primeira tem a intenção que é tudo e a inflexão que é a realidade da intenção. Toma por exemplo a palavra Deus. Deus tem uma cor no juramento solene, outra no auge do pavor, outra na ironia, tem todas as cambiantes do sentimento, graças à inflexão e, às vezes, apesar de sagrada, falta-lhe moralidade, como quando uma rapariga, comida de beijos pelo amante, murmura trêmula: — Meu Deus!

A palavra escrita vive do adjetivo, que é a sua inflexão. Daí a grande necessidade de disciplinar o vocabulário.

Coelho Neto é no Brasil o que Rudyard Kipling é na Inglaterra, — o homem que joga com maior número de vocábulos. Alguém já lhe calculou o léxico em 20.000 palavras.

— A questão não é de vocabulário; é de disciplina. Os russos têm uma porção de dicionários de soldados e para nada lhes serve o possuí-los. Eu consegui disciplinar o vocabulário. Dada um certa impressão, concluída uma idéia, posso sentar-me e escrever. A idéia sai vestida e os termos exatos juntam-se no perfeito reflexo da impressão. Estou a tomar uns ares dogmáticos... Perdoa. É quase uma confissão. Vem desse esforço, que foi a pouco e pouco desbastando do meu estilo os guizos de muitos adjetivos para substituí-los por um só, exato, o emprego de certos termos populares como sarrilho e de palavras desejosas de dar a idéia mais onomatopaica do fato, como buchorno com a significação de mormaço — dois substantivos vítimas em tempo da crítica...

Acusam-me de preciosismo, meu caro amigo. Não sabem eles que o artista é o resultado de mil influências desencontradas...

— Qual dos seus volumes prefere?

— O Pelo Amor! Não se admire. Prefiro o Pelo Amor! por uma questão de momento. Ainda naquele tempo julgava-me capaz de alguma coisa no Brasil. Foi uma batalha perdida, mas de que me lembro com saudades, como certos generais velhos recordam nostálgicos as derrotas. Em todo o caso foi uma perda que acentuou a cisão e determinou uma corrente literária.

— Mas só o Pelo Amor?

— E no romance Inverno em Flor. A verdade é que, enquanto escrevo, sinto um grande prazer e depois fico assustado com os defeitos. Tenho um processo de trabalho constante. Só as novelas foram acabadas e retocadas antes de serem entregues aos editores. O resto da minha obra tem sido escrito dia a dia para os jornais. Assim fiz A Capital Federal, O Rei Fantasma, o Turbilhão.

— Mas é impossível!

— É a verdade. Devo muito à Gazeta e a O País, que receberam os meus primeiros ensaios. A crítica, quando foram dados à luz alguns volumes meus com intervalos apenas de dias, gritou contra o que ela chamava mercenarismo. Não sou infelizmente conhecido nem do público nem da crítica. O público não sabe a capacidade do meu trabalho, a crítica ignora por que trabalho tanto. A publicação de O Rajá de Pendjab levantou então uma celeuma. Não sabem eles que, subordinado o estilo à concepção, a pena trabalha quase mecanicamente, não querem recordar que muitas obras-primas foram escritas em dias como o Hamlet de Shakespeare e principalmente recusam compreender a necessidade de um escritor que resolve viver apenas da própria pena.

Não conheces a história do Rajá? Eu entrava na Gazeta precisando de dinheiro e encontrei o Araújo zangado. Por quê? Tinham perdido um novo e sensacional folhetim. Não se incomode, doutor, faço-o eu. Qual! Tens muitas psicologias... Faço sem psicologias! Fomos dali tomar um sorvete. Então fazes? O príncipe encantado serve? Também é um título velho. O rajá seja, o Rajá de Pendjab. Para depois de amanhã? Para depois.

E a reclame foi feita para um romancista francês, de que a Gazeta deu o retrato reproduzindo a cara do Humfreys...

Rimos os dois alguns instantes. Coelho Neto continua:

— A crítica não fala só da abundância de atavios, do mercenarismo com que confunde a realização imediata de uma idéia acabada, fala também do número dos meus volumes.

Neste país, onde se tem, não a preguiça mental, mas a preguiça física que inibe de escrever, o Sr. Coelho Neto tem cerca de trinta volumes. Pois, não senhor. Coelho Neto tem acabados 50 volumes.

— Cinqüenta?

— Sim, e a todos prezo, sim, cinqüenta! Bastava que em cada um houvesse uma página digna para que os publicasse.

Levanta-se maquinalmente para mostrar-me a lista dos volumes a aparecer. Nesse momento febril, com o olhar brilhante, o lábio grosso, cheio de juventude e de esforço, é impossível deixar de admirá-lo.

— Sou um trapista do trabalho, a bête de somme dos franceses — quero, e mourejo como um servo da gleba... Ah! meu amigo, o artista não é o zoilo das confeitarias à cata de jantar.

Preciso de um relativo conforto, preciso rodear os meus filhos de bem- estar. Trabalho! Creio que só a tenacidade e o querer têm obstado a minha morte. Hei de ir até o fim com o prazer de ter pago sempre as minhas dívidas...

Ficamos um tempo calados. Neto mostra-me as provas dos seus livros, agora editados em Portugal — A Treva, Água de Juventa, o Mistério do Natal, a Pastoral. Que extraordinária atividade! Que prodigioso cérebro!

— E quanto a escolas, a lutas?

— Não há nada. Vejo no Brasil uma coisa curiosa: dois grupos, um muito pequeno, dos que podem; outro, enorme, dos que não podem. Lembram-me a história da princesa Parizat nAs Mil e uma noites. No alto da montanha havia três talismãs: a árvore que canta, o pássaro que fala e a água amarela. Quem subisse até lá seria possuidor de todos três, mas o caminho era aspérrimo e as pedras faziam um estranho clamar. Quem atendesse ao chamado das pedras em pedras se transformava. Só a princesa chegou ao pico da montanha. O clamar das pedras é aqui o nefelibatismo, o ocultismo, o criticismo, o torcido, o escabujamento, o histerismo... Acho, entretanto, que chegaremos a ter uma Escola Brasileira, não o indianismo mas idéia brasileira, o costume brasileiro, numa língua que terá a clareza do Eça, e a maneira francesa na mais plástica de todas as línguas — a língua portuguesa. Para isso, é preciso antes de tudo o prestigio oficial. A transformação far-se-á violentamente, porque nós somos um povo de explosões. No dia em que a proteção oficial for uma realidade, o público admirará a arte no teatro e no romance, como se encaminhou para a Avenida, e o artista, tendo-se deitado num grabato, acordará num leito de púrpura.

— Falei-lhe da literatura dos Estados.

— O Euclides da Cunha já dividiu magistralmente o norte e o sul. É incontestável. Daqui para alguns anos teremos duas literaturas distintas: a dos trovadores ao norte, a dos troveiros ao sul. O norte não é belicoso. Um profundo lirismo vive na sua alma, e tanto as alegrias como as dores são sempre postas em canto. Daquele pedaço de terra o sol nunca de todo se arreda, porque, se a luz foge, fica o calor acalentando o solo, as árvores e os céus. Os homens vivem com os elementos, são dispersivos e crêem nas divindades. No sul, ao contrário, a terra fria faz a concentração, a luta, e os elementos estrangeiros vão se acentuando. O norte é virgem e bravio; ao sul, os homens de músculos brancos e cabelos de metal vão escorraçando a raça primitiva. O norte, para onde emigram os pretos, os caboclos e os descendentes deles, será o reservatório fatal da grande poesia natural do Brasil. Prevejo no futuro o Rio como um grande celeiro e a divisão da literatura em duas literaturas distintas — a do sertão e a da campina...

Eu interrompi sincero:

— Como é difícil ser céptico ao lado do corifeu da esperança!...

Havia na sala confortável o encanto das nobres emoções. Neto parou.

— Falemos então do jornalismo, já que é preciso. O jornalismo foi sempre, no Brasil, político. Cansado o público, a mania politiqueira foi atenuada pelos processos industriais. O jornal deixou de ser a urna para ser...

— Para ser?

— ... uma oficina. Tem sido para a nossa literatura um grande bem relativamente. Como nunca teve audácia para educar, aceita um trabalho, não pelo gênio do autor, mas sempre de acordo com o agrado do público. Às vezes é perverso. A decadência do teatro é devida exclusivamente ao jornal e aos próprios escritores dramáticos jornalistas. O público é um animal que se educa. A princípio ia aos teatros bons. Veio o anúncio, o balcão dominou, começaram os incentivos para o trololó. Hoje o público está acostumado e não quer outra coisa.

Quanto à literatura que publicamos nos jornais, lembra os livros impressos no tempo do Santo-Ofício. Não tem o visto da Inquisição, mas tem o visto do redator-chefe.

— Uma última pergunta: é religioso?

— Muito. Não sei se creio em Deus Cristo, se em Deus-natureza, mas creio no princípio imanente da divindade. E por isto, talvez seja neste país um dos raros homens que esperam...

Tornou a sentar-se, pôs-se a escrever. Pela janela aberta entrava o dia abafado e só o gato impassível, muito gordo, muito branco, muito peludo, olhava os céus com um perturbado olhar da sua verde pupila cor de topázio verde...