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O Momento Literário por João do Rio
VII: Medeiros e Albuquerque


O ilustre Sr. Medeiros e Albuquerque escreveu-me dois dias antes de partir para a Europa esta longa e admirável carta:

"Recebi o seu inquérito e vou procurar responder com toda a sinceridade. Acho-o muito interessante — não, porém, para o grande público, que decerto se importa muito pouco com tudo o que a meu respeito se lembrou de me perguntar. A mim o caso interessou, por me obrigar a fazer um verdadeiro exame de consciência, em que eu nunca pensara.

Aqui, ao alcance de minha mão, tenho dois livros em que se fizeram a grandes homens da Inglaterra e da Itália perguntas em parte análogas a primeira do seu inquisitorial interrogatório. O primeiro livro chama-se Books which have influenced me e o segundo I cento migliori libri italiani. Assim, se eu quisesse épater le bourgeois, ou tomar um certo parentesco intelectual com pensadores notáveis, poderia copiar alguma dessas listas. Mas quase todas começam por nomes ilustres da antigüidade clássica.

Ora, eu declaro humildemente que conheço poucos clássicos e que esses não tiveram sobre mim nenhuma influência. Tenho verificado em palestras literárias, comparando confidências íntimas com declamações públicas, que o meu caso é o de muita gente; mas todos acham feio confessar claramente esse fato... Como, porém, o autor deste inquérito, pela cara rapada e pela vastidão do abdômen, tem um certo ar fradesco, não tenho dúvida em derramar-lhe no seio esta envergonhada confissão...

Evidentemente, eu não quero negar valor aos clássicos. Provaria apenas minha ininteligência. Pensando na época em que eles viveram, recordando o estado dos espíritos e da instrução daqueles tempos, qualquer pessoa é forçada a admirá-los. Mas o que eu não creio é que eles dêem hoje emoções fortes a ninguém . E é só isto o que eu digo.

Em todo caso, esse venerável pessoal antiqüíssimo nada influiu sobre mim. Só um me pareceu assombroso: foi Lucrécio. Aliás, eu o li modernizado na tradução em verso de André Lefèvre.

Há algum livro de literatura — romance, poesia ou contos — que tenha influído decisivamente sobre mim? Creio que não. Li muito, li gulosamente centenas de romances e de livros de poesias, mas não tenho idéia de que nenhum marcasse uma data na evolução do meu espírito. Admirei extraordinariamente Germinal, que ainda hoje acho um livro soberbo; Trois coeurs, de Edouard Rod; L'Adorée, de René Maiseroy; Pierre et Jean, de Maupassant; Daniel Valgraive, de Rosny, e Mensonges, de Paul Bourget. O Paul Bourget, que escreveu este último, não era ainda o pedante abominável, que um casamento rico e o desejo de entrar na aristocracia fizeram depois desse autor, a partir do Disciple. Pierre et Jean, pelo seu estilo de uma limpidez sem igual, claro e simples, me parece a obra-prima de Maupassant. Foi talvez lendo-o que eu tive mais pronunciadamente a sensação de que o ideal do estilo é a clareza e a simplicidade. Aliás, embora não se fale desse livro, é de crer que o autor o apreciasse muito, porque foi justamente para ele que escreveu uma proclamação literária.

Na poesia ninguém me causou maior admiração do que Vítor Hugo e Lecomte de Lisle, sobretudo nos Poemas Bárbaros. Depois, conheci Haraucourt, em Âme nue e Seul, e o fiz um dos meus companheiros habituais de trabalho. Digo "companheiros habituais", porque sobre minha mesa há sempre alguns volumes de versos, e entre dois artigos de jornal, que tantas vezes tenho de escrever a seguir, eu intercalo a leitura de algumas poesias, lidas em voz alta.

Dos poetas da língua portuguesa, de nenhum gosto tanto como de Antero de Quental.

Mas, ainda uma vez: é evidente que a quantidade enorme de obras literárias em prosa e verso, que eu tenho lido, há de ter influído sobre mim. Não vejo, porém, nenhuma que possa destacar para dizer que foi meu guia, meu ideal. Nenhum poeta ou romancista me deu as grandes emoções de certas obras de ciência. Apenas Richepin pode, talvez, pela circunstância que referirei, ter uma tal ou qual primazia.

Foi assim. Eu vim, sozinho, aos 18 anos, de Lisboa para o Brasil. Vim num vapor alemão. Era tímido e acanhadíssimo. Pouco antes de embarcar, por simples acaso, comprei dois livros: Força e Matéria, de Buchner, e Blasfêmias, de Richepin. Os volumes, que eu trazia, foram para o porão do navio, em um caixote. Assim, a bordo, isolado como se estivesse num deserto, tive amplo tempo para ler e reler várias vezes esses dois volumes, que se completavam maravilhosamente. Já então eu conhecia A Origem das espécies de Darwin e admirara a bela introdução que para esse volume escreveu Clémence Royer e de que ainda hoje, mais de 20 anos depois, sei de cor alguns trechos. Mas o livro de Buchner foi para mim um assombro, uma revelação, um deslumbramento! Na segregação em que eu estava só saía dele para ler as Blasfêmias; e as impressões que me vinham do filósofo e do poeta se completavam. Percorri várias vezes esses dois volumes, meditei-os longamente e não posso dizer todo o abalo que produziram sobre o meu espírito, no qual fizeram realmente uma revolução; mas o poeta era subsidiário do filósofo, porque a beleza que eu achava em Richepin vinha, sobretudo, da sua filosofia.

Depois, outros livros que contribuíram decisivamente para formar meu espírito foram a Historia da Criação Natural de Haeckel, o Exame da Filosofia de Hamilton, por Stuart Mill, e os Primeiros Principios de Spencer. Não me lembro de que nenhuma obra de literatura me tenha dado a sensação de intensa alegria, quase direi: de embriaguez intelectual, que eu tive ao ler a parte do Incognoscível daquele livro de Spencer.

É evidente que eu não pretendo enumerar as obras que apreciei, mas unicamente as que fizeram sobre mim uma impressão violenta, as que mudaram o rumo do meu pensamento, fixando-o no que ele hoje é.

Talvez fosse lícito mostrar que tanto os literatos como os cientistas que eu citei se caracterizam por uma qualidade: a clareza do estilo. As filosofias e as literatices obscuras sempre me repugnaram.

Depois, uma ordem de leituras me atraiu: o hipnotismo e o ocultismo sob todas as suas formas. Foi Bernheim quem me levou para aí com o seu livro sobre a Sugestão. Creio, porém, que o meu espírito já estava a bom caminho, porque, embora tivesse praticado muito o hipnotismo e devorado quanto escritor arrevesado escrevia a respeito de ciências ocultas, tive sempre a ambição de entender nitidamente essas coisas complicadas e o resultado foi que saí de todas essas leituras tão agnosticista e materialista como para elas entrara. Aliás, o livro excelente de Bernheim é, por isso mesmo, o melhor dos guias. Chega a ser um pouco estreito. Mas vale, porém, isto que a divagação aventurosa dos tipos como o Coronel De Rochas e outros charlatães.

Mas esta resposta está degenerando em uma autobiografia.

Passo, portanto, muito mais resumidamente à sua segunda pergunta.

Em regra, os autores preferem, não as suas melhores obras, mas aquelas que lhes deram mais trabalho. É o caso dos pais de vários filhos que têm maior predileção pelo mais doentinho e grandes rigores para os sadios e fortes. Flaubert tinha acabado por detestar Madame Bovary e proclamava o melhor dos seus trabalhos a Tentation de Saint-Antoine. Sully Prudhomme criou um verdadeiro horror ao Vase-brisé, que, entretanto, não há quem desconheça. Não é de crer que Olavo Bilac prefira o seu soneto "Ouvir Estrelas...", nem Raimundo Correia "As Pombas".

Quanto a mim, de tudo quanto tenho escrito nada me desagrada menos que o prefácio do livro de Coste — Fenômenos psíquicos ocultos, livro editado pela casa Garnier. Esse prefácio, que tem cerca de 80 páginas, mereceu críticas do Dr. Manuel Bomfim, do Dr, Araripe Júnior, e suscitou diversos outros reparos. Espero um dia responder a eles. Nessas páginas eu penso ter formulado uma lei digna de estudo. É certo que a palavra lei se presta a várias acepções. Mas Ribot chama leis empíricas as que "consistem na redução de um grande número de fatos a uma fórmula única, embora sem dar sua razão explicativa. " E isso pelo menos eu suponho ter conseguido. Mas seja ou não um engano da minha presunção de autor, o certo é que nada escrevi com alegria maior.

Dos meus contos, os que eu acho menos ruins são: "Flor Seca", "As calças do Raposo", "O presente de Vovô" e "Noivados Trágicos". Das minhas poesias? "Resposta a uma propaganda", "Noiva Perdida" e o soneto "Pudica".

E agora a terceira pergunta.

Francamente, eu não distingo neste momento em nenhuma das literaturas que conheço "escolas literárias", na acepção estreita que dantes tinham estas designações. No Brasil, menos do que em outra qualquer parte.

É natural que seja assim. Nós somos uma nacionalidade em formação. Não, porém, em uma formação regular, orientada para um certo ideal, para um estádio futuro que seja possível pressentir desde já. Se fosse assim, teríamos uma literatura original e forte. Mas somos uma nação que se vai formando anarquicamente, sem rumo. Na indecisão geral das idéias universais, que há neste momento em todo o mundo, nós, no caso especial do nosso Brasil, ainda temos a nossa indecisão, própria de uma evolução, que ninguém sabe para onde se orientará.

Em regra, quando uma nação está na iminência de uma grande transformação histórica esse estado é fecundo. Acontece com os povos o mesmo que com os indivíduos.

A adolescência é uma época de fortes entusiasmos. O homem não está ainda formado de todo, mas sente o que vai ser dentro em pouco, e é o confuso desabrochar de todos os sentimentos que devem aparecer mais tarde que faz a beleza dessa idade. Mas se — figurem a hipótese — chegando à adolescência, um ser, que até aí tivesse tido a evolução de um homem, não soubesse se ia passar a homem, ou a peixe, ou a ave — é natural que esse monstro, em vésperas de uma brusca e incerta transformação, não tivesse nenhuma grande aspiração, porque precisamente, não saberia a que aspirar.

Creio bem que esse é o nosso estado.

Continuaremos unidos? Continuaremos independentes? Da fusão de todos os elementos étnicos que se vão misturando em proporções irregulares no nosso território, que povo sairá? Não sabemos nada disso...

Dir-se-á que um poeta ou outro qualquer artista, sentado à sua mesa de trabalho, não precisa indagar nada disso para rimar uma poesia? É verdade. Mas para haver uma corrente literária, em qualquer nação, é necessário que haja um grande número de sentimentos comuns entre todos os que nela habitam. E é o que nós não temos. Tanto não temos que um pedaço do Brasil pôde ainda há pouco, pelo laudo iníquo do rei de Itália, ser desmembrado dele sem causar no nosso povo a mínima emoção.

Dir-se-á que o nosso caso nada tem de novo e todas as nações dependeram da fusão de vários contingentes étnicos? É também verdade. Mas essa fusão se fez lentamente, aos poucos, durante séculos. Sempre, porém, que, de um modo brusco, houve, em uma nacionalidade qualquer, irrupção de elementos estrangeiros, toda a vida literária ou desapareceu ou se amesquinhou. E a nossa nacionalidade se está fazendo por essa invasão tumultuária de elementos diversos, estranhos, variegados, mal distribuídos pelo território.

Parecemos um cadinho, ao fogo, em que todos os químicos do mundo fossem atirando ingredientes vários. Que combinação sairá de tudo isso?

Por ora, somos uma "mistura", sem propriedades definidas... Para dizer mais claramente: é impossível pensar em literatura nacional — caracteristicamente "nacional" — quando ainda não somos uma nacionalidade, nem temos um ideal definido do que poderia ser a futura nacionalidade brasileira.

E chego à quarta pergunta: — há probabilidade de se criarem literaturas a parte, com o desenvolvimento dos centros literários dos Estados?

— Não! Nunca! Mesmo as grandes nações européias, tendo tradições seculares, cada vez oferecem menos características especiais que as diferenciem umas das outras. Quanto mais os nossos pobres Estados!

O que há entre nós é falta de meios de comunicação e falta de instrução primária. Quase ninguém lê, quase ninguém se vê. Daí a existência efêmera desses grupinhos estaduais, que são forçados ao elogio mútuo e exagerado pela estreiteza do meio e pela dificuldade de serem conhecidos no resto do país. Mas desde que um livro publicado no Amazonas for tão facilmente lido lá como aqui ou no Rio Grande do Sul, ninguém pensará mais na fantasia das literaturas estaduais.

O ideal de cada artista será sempre o de fazer vibrar o maior número possível de criaturas humanas. Como querer, à vista disso, tendo uma língua já tão pouco falada, fazer obras de um sabor meramente local? É tolice...

Na Bélgica, há, por exemplo, quem tente desenvolver, em contraposição às produções em francês, as produções em flamengo. Que resultado tem tido essa propaganda? Nenhum. E no entretanto, o flamengo é uma língua que tem tradições.

Fato idêntico na Itália. Em vão, diversos autores procuram reviver os dialetos locais dos velhos reinos de cuja fusão resultou a Itália moderna. Mas embora esses dialetos tenham também antigas literaturas já hoje nada podem. A língua italiana a todos suplanta.

Os sentimentos modernos tendem a ser os mesmos em todo o mundo. Os paquetes a vapor, as estradas de ferro, os automóveis, a imprensa e o telégrafo, os mil e um processos que aumentam a sociabilidade humana, tendem a reproduzir em todos os cérebros do mundo o que a física ensina que sucede com o nível dos líquidos nos vasos comunicantes. Há bem pouco tempo, uma circunstância me fez pensar nisso. Um fato, o assassinato do ministro Plehwe, em S. Petersburgo, me deu a mim um prazer tão intenso, como me daria o assistir à melhor cena dramática: vibrei de alegria. E ao mesmo tempo que isto me sucedia — a mim, que estava aqui longe, aqui desinteressado, lendo em banco de bonde essa notícia, — em Berlim, em Cracóvia e em Londres (disseram-no os telegramas no dia imediato) milhares de pessoas organizavam passeatas e meetings, comemorando esse assassinato redentor. Há assim, a todo momento, dispersos pelo mundo inteiro milhões de pessoas animadas simultaneamente pelos mesmos sentimentos.

Ora, literaturas locais corresponderiam a sentimentos locais, e estes só ainda existem por falta de meios de comunicação, de uma perfeita inteligência entre os povos ou entre as várias frações do mesmo povo.

Quanto a mim, eu creio que caminhamos não só para a universalização de todas as idéias, como para o emprego de uma só língua. O Esperanto, que é ainda imperfeito, já, entretanto, provou a possibilidade de uma língua literária universal.

Mas nisto, nem muitos crêem, nem o inquérito falou. Fica, portanto, a resposta à sua pergunta: não há a menor possibilidade de que se venham a criar literaturas locais nos nossos Estados, seja qual for a evolução posterior do Brasil. O fato só se poderia dar se uma zona dele fosse conquistada e povoada por uma nação estrangeira. Mas, nesse caso, mudada a língua, não haveria aí uma literatura local. Far-se-íam nessa zona obras na língua e na literatura do povo conquistador.

Realmente, pelo que ficou dito em resposta às duas questões últimas, que me parece completarem-se, creio que se pode afirmar que atualmente não temos propriamente o que se possa chamar literatura nacional, embora haja livros escritos em excelente português por bons poetas e bons prosadores brasileiros. Não há também literaturas regionais, nos Estados.

Nenhum deles é um foco de civilização à parte, bastante forte e autônomo, para sustentar uma escola.

Quando, pela difusão geral da cultura, nós passarmos a ter uma literatura brasileira e, orientada de qualquer modo, a nacionalidade brasileira se tiver constituído, também os meios de comunicação com o resto do mundo já serão tão ativos e constantes que a literatura brasileira será apenas o reflexo no Brasil de idéias universais, sem nada de muito característico.

As condições para a formação de literaturas nacionais estão cessando: elas só eram possíveis em centros de civilização com uma forte unidade de sentimentos e um grande isolamento das nacionalidades vizinhas. Foi assim para as literaturas francesa, inglesa, alemã, etc., de séculos passados.

Dentro em pouco, entretanto, não sucederá mais isso para ninguém. Ainda que subsistam as diferenças da língua, não subsistirão as de sentimentos. Por isso se pode dizer que não temos nem teremos literatura nacional: não temos, porque nos falta cultura, embora ainda permaneçamos bastante isolados para conservarmos algumas coisa de característico; não teremos, porque quando chegarmos a ser uma nacionalidade e atingirmos ao grau de cultura precisa, o mundo, em torno de nós, terá também caminhado e nós, embora o façamos em português, exprimiremos apenas sentimentos análogos aos de todos os intelectuais civilizados daqui, da França, do Japão... de toda a terra.

Resta a sua última pergunta: a influência do jornalismo.

Há, é certo, muita gente que lhe queira mal e dele diga horrores. Há um pequeno número de prevenções razoáveis. E há, sobretudo, os ratés e os fruits secs, que, produzindo com largos intervalos, pequenas coisinhas chochas, fazem de si mesmos uma alta idéia, atribuindo a raridade da produção à sua preciosidade. E como o jornalismo não se compadece com esse regime de reclusão intelectual, eles o atacam.

Quanto a mim, nunca me lembrarei de elogiar os intestinos de um cidadão, sujeito à constipação crônica. Guardo o mesmo critério para recusar elogios aos cérebros, também "constipados", que só excretam alguma cousa com raros intervalos e violentos tenesmos...

De um modo geral, a prevenção dos literatos contra o jornalismo é a mesma dos pintores de quadros pelos de tabuletas, dos escultores pelos marmoristas... Sempre que uma profissão usa dos recursos de qualquer arte para fins industriais, os cultores da arte se indignam e depreciam sistematicamente os profissionais, que assim se põem na sua vizinhança. Quanto mais o emprego dos meios é o mesmo e há, portanto, perigo de serem às vezes confundidos, mas também os artistas ostentam o seu desprezo e procuram cavar um fosso profundo entre os dois domínios. Mas em uma tabuleta se podem pintar figuras tão bonitas e tão artísticas como em uma tela destinada à moldura no mais rico dos museus. Hoje há cartazes melhores que muitas telas célebres. O marmorista faz às vezes estátuas que muitos escultores lhe invejariam.

Com o jornalismo sucede o mesmo. Como os jornalistas têm de ser prosadores, os artistas da palavra escrita, achando que eles a empregam para fins de imediata utilidade, procuram desdenhá-los. Demais, no afã da vida moderna, que nem a todos dá tempo para as lentas meditações, o jornal se fez um concorrente temível do livro. Daí o ciúme, a inveja.

Mas os livros bons sobrenadam apesar de tudo. Os que acham que não produzem obras-primas, porque estão jungidos aos trabalhos de imprensa, se dispusessem de todo o tempo preciso e não tivessem necessidade de trabalhar, talvez não produzissem nada nem na imprensa nem na literatura...

É certo, entretanto, que a necessidade de ganhar a vida em misteres subalternos de imprensa (sobretudo o que se chama "a cozinha" dos jornais: fabricação rápida de notícias vulgares), misteres que tomam muito tempo, pode impedir que homens de certo valor deixem obras de mérito. Mas isso lhes sucederia se adotassem qualquer outro emprego na administração, no comércio, na indústria. O mal não é do jornalismo: é do tempo que lhes toma um ofício qualquer, que não os deixa livres para a meditação e a produção.

A imprensa comporta para os que nela trabalham com certo amor uma grande dose de arte.

Que é o essencial em uma obra artística? Dar emoções. Pois bem: é um prazer superior pregar uma doutrina, sustentar uma opinião e vê-la seguir, difundir-se, infiltrar-se no espírito público, através de mil obstáculos, comovendo as multidões, abalando-as, dando-lhes um ideal e forçando-as a agirem de acordo com ele.

Para isso não se pede talvez a perfeição da forma. Pede-se, porém, a clareza dos conceitos, o aproveitamento das oportunidades, a repetição. Um poeta se dá por suficientemente pago do seu trabalho se esgotaram uma edição de mil exemplares dos seus versos e acharam magnífico um dos seus sonetos. É justo. Mas porque, um jornalista que defendeu um indivíduo acusado por todos, que sustentou uma doutrina rejeitada, não há de ter uma grande e legítima emoção quando vê que a sua defesa mudou as acusações, ou em perdão ou em aplauso, ou quando sente que a doutrina, outrora rejeitada, vai criando entusiasmo, abrindo caminho? É de tão boa arte como o soneto do nosso poeta. Não da mesma, porém tão digna de respeito como a dele.

— Mas o jornalismo muitas vezes não se faz por convicção e sim por negócio.

— É verdade. Mas há poemas friamente rimados por indivíduos que não vibraram absolutamente nada ao fazê-los e, entretanto, comovem, emocionam. Assim como se pode fazer poesia boa, por acaso, sem sentimento, também se pode fazer jornalismo nas mesmas circunstâncias. Ou jornalismo ou qualquer outra coisa. Talma, que foi aclamado como um ator perfeito, não sentia nas cenas mais trágicas o mínimo abalo. Enquanto a platéia delirava de entusiasmo, ele gracejava com os outros atores.

— Mas os recursos do jornalismo são grosseiros.

— Não vejo bem por quê. São diferentes dos do romance ou do conto, mas visam o mesmo fim: usar de palavras escritas para impressionar cérebros humanos, fazer vibrar inteligências e corações. Quanto a mim, eu compreendo que se possa fazer com todo amor certas propagandas de idéias elevadas, insinuando hoje um argumento no meio de uma simples notícia, amanhã no comentário de um telegrama, depois num folhetim, depois num artigo solene... E é com uma verdadeira emoção que, mais tarde, se encontra aquele argumento, que apareceu anônimo, perdido em duas linhas de noticiário, repetido aqui e acolá, fazendo o seu caminho... Por que razão há nisso menos arte do que em amassar meia dúzia de substâncias coloridas, borrar uma tela, e dar assim a impressão de uma paisagem, uma cena qualquer? Com aquelas linhas semeadas aqui e além o jornalista criou em muitos milhares de cérebros a impressão de uma sociedade futura, constituída de outro modo, com uma vida diversa da atual. Pois essa obra de criação e emoção não é artística? — Ninguém o devia negar!

Não é verdade que o jornalismo prejudique em nada a nossa literatura. O que a prejudica é a falta de instrução. Sem público que leia, a vida literária é impossível. O jornal faz até a preparação desse público. Habitua alguns milhares de pessoas a uma leitura quotidiana de alguns minutos, dando-lhes amostras de todos os gêneros. Os que têm gosto e tempo começam por aí e passam para os livros. Mas o jornal é o indicador. Em nenhum país de grande literatura deixa de haver grande jornalismo. Sem este, aquela é impossível. Os que atacam a imprensa o que deviam fazer era atacar a falta de instrução.

E parece que já respondi mais que muito, de sobra..."