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O Momento Literário por João do Rio
XXXVII: Raimundo Correia


O grande poeta, ao receber o meu pedido, passeia nervosamente afinando o nariz com o índice e o polegar num gesto breve, rápido, curto.

— A minha opinião? É grave. Eu estou muito afastado agora.

Torna a passear, fica ainda mais nervoso diante da nossa insistência.

— Mas eu não tenho nada de interessante para dizer!

— E' o que parece...

Há gênios de que a gente não se aproxima sem aborrecê-los logo; há homens de talento que quanto mais nos mostram a sua intimidade, mais se fazem amar e respeitar. Raimundo Correia é dos últimos. Todo ele é bondade. Os seus nervos vibram como as cordas de uma lira, e essa espírito superior interessa-se por tudo quanto é novo, auxilia, elogia, ajuda. Era impossível que Raimundo Correia se negasse a responder.

— Pois está bem; eu mando...

Passou-se um mês, passaram-se, dois, três, quatro meses...

— A resposta?

— Já comecei...

Mas afinal, um dia, entre outras cartas, encontrei uma carta simples e sem espalhafatos denunciadores de que trazia a resposta à enquête. Abri-a. Era de Raimundo Correia:

Não respondo ao seu 1º quesito, sem remexer em cinzas frias, esquecidas a um canto da minha memória. É talvez uma indiscrição que certas dificuldades de sentimento me tornam muito penosa agora. Na velha Livraria Clássica Portuguesa dos irmãos Antônio e José Castilhos achará v. os dois escritores de minha predileção na meninez: o prosador Manuel Bernardes e o poeta Bocage. Mas a verdade é que naquele apanhei um tremendo pavor do inferno, que me fez sonhar muitas noites com o diabo, e que, no segundo, só me deleitaram os ligeiros epigramas aos médicos e as redondilhas satíricas à estanqueira do Loreto. Ainda me lembra esta fácil quadrinha:

Domingo, dois do corrente,

Faz-se pela vez primeira

O brinco dos cavalinhos

Na testa da estanqueira.

Também, para mim, o fazer versos não passava então de uma brincadeira, de um meio cômodo e inofensivo de gracejar com os camaradas da mesma idade. Só depois é que os outros me levaram a tomar isto mais a sério.

Em Cabo Frio, onde passei, além de uns restos da infância, todo a minha adolescência, foi que li pela primeira vez, à beira-mar, a epopéia marítima de Camões. Da direção que o autor dOs Lusíadas e outros clássicos portugueses teriam dado talvez ao meu espírito, foi este desviado mais tarde pela leitura dos autores nacionais contemporâneos e, sobretudo, de alguns poetas franceses de grande voga, — Hugo e Gautier, por exemplo. Por muito tempo oscilei entre estes dois. Se um parecia desobrigar-me de ter maior fôlego, o outro parecia desculpar-me de não ser menos imperfeito. Não me pude gabar nunca de lhes conhecer a obra inteira; mas do pouco que fiz, muito lhes devo. E não vou além, neste assunto, porque os escritores, por mais pequenos que sejam, incorrem sempre na pecha de grandes mentirosos, quando falam de si.

— Qual a que prefiro dentre as minhas obras? Haveria motivos intelectuais, senão puras razões de sentimento, para eu preferir alguma, dentre as mais modernas. Mas, dispense-me de descer a especificações. Nestas coisas, o mais seguro para a gente é se deixar levar pela cabeça dos outros.

— Se me parece que atravessamos um período estacionário? De modo algum, pois nada há, entre nós, desse definitivo que caracteriza os períodos estacionários. O período atual é, ao contrário, de transição. Transição em tudo; na política, nos costumes, na língua, na raça e, portanto, na literatura também, que é onde melhor se refletem o espírito e o sentimento das nações. Quem se puser um pouco ao lado desse movimento, dessa ebulição geral, assistirá ao espetáculo miraculoso de uma sociedade, de um povo inteiro em vias de formação. Tudo se mescla, se mistura, se confunde de tal modo que só de hoje a 90 anos é que lhe poderei dizer ao certo o resultado disto.

— O jornalismo, para a arte literária, não é um fator, é um subtraendo.

Dentre todos os males necessários e inevitáveis da nossa época, nenhum há mais infenso, do que ele, à cultura sã e tranqüila da verdadeira arte.

Aí tem v., meu caro, as respostas que aos seus quesitos eu posso dar. Se não prestam, acabou-se.

Estou salvo ao menos pela boa intenção que tive de lhe ser agradável. Vivo muito ocupado agora e as minhas ocupações não me dão lugar para mais e melhor.