O Pajem Negro/Advertência

O Pajem Negro por José de Alencar
Advertência


Dos intrépidos sertanistas que primeiro rotearam as nossas florestas virgens, um dos mais célebres foi Bartolomeu Bueno, denominado o Anhanguera.

Entretanto sobre a sua origem, como sobre a sua vida, reina grande obscuridade.

Muitos o confundem com o filho, que herdando-lhe o nome e até o apelido selvagem, logrou, além das honras, a glória mesma das empresas que pertenciam ao pai.

Na obra de Pedro Taques, a Nobiliarquia Paulistana, onde podíamos colher as melhores e mais puras informações acerca deste ponto histórico, o que se encontra são lacunas ou contradições que ainda mais concorrem para a confusão e incerteza.

No título de “Buenos de Ribeira”, cap. 2º, acha-se a menção de um Bartolomeu Bueno por alcunha Anhanguera, filho de Francisco Bueno e D. Filipa Vaz (Revista do Instituto – T. 32 – Part. 1ª, p. 235).

Mas este não é o verdadeiro Anhanguera, o descobridor de Goiás, o qual, como consta de documentos autênticos, se chamava Bartolomeu Bueno da Silva.

Acresce que esse Bartolomeu Bueno da Ribeira, casado com Isabel Cardoso não teve descendência; pois não a refere a dita Nobiliarquia nem no título de “Buenos de Ribeira”, cap. 2º, nem no título de “Lemes”, cap. 1º, §5º.

Ora o Anhanguera deixou filhos; a história faz menção de dois, um o Coronel Bartolomeu Bueno da Silva, segundo do nome, e primeiro capitão-mor de Goiás; outro chamado Simão Bueno da Silva, que auxiliou o irmão na busca das minas de ouro, descobertas pelo pai. (Revista do Instituto – T. 27 – Part. 2ª, p. 33).

Não é verossímil que Pedro Taques tão minucioso e investigador acerca de outros ramos genealógicos menos importantes, omitisse por ignorância ou esquecimento a ilustre sucessão do afamado Anhanguera, cujo apelido se foi transmitindo como um brasão, ou título heráldico. Assim é que o bisneto do descobridor em 1782 assinava-se Bartolomeu Bueno de Campos Leme Gusmão, Anhanguera 4º (Id. p. 87).

Por outro lado o sobrenome de Silva só aparece na família dos Buenos de Ribeira em virtude do casamento de D. Isabel da Ribeira, filha do Capitão-Mor Amador Bueno, com Domingos da Silva dos Guimarães, em 1642, como se vê na citada Nobiliarquia.

Daí proveio talvez a tradição que dá o Anhanguera como descendente daquele Amador Bueno, quando em toda a sucessão dos nove filhos do célebre paulista não aparece nenhum Bartolomeu, o que se pode verificar no cap. 1º do respectivo título de “Buenos de Ribeira”.

Ainda mais D. Filipa Vaz, mulher de Francisco Bueno, e portanto a suposta mãe do Anhanguera, era filha de Francisco João Branco, casado com Ana Cerqueira. Assim como a filha mais velha tomou o nome da avó materna, talvez também o segundo filho, Bartolomeu Bueno, usasse do mesmo apelido de Cerqueira.

Não seria então esse o mesmo Bartolomeu Bueno de Siqueira que Pedro Taques, em título de “Toledos Pisas” – cap. 2º, §2º, nomeia como companheiro de Carlos Pedroso da Silveira em 1695 e com ele o primeiro descobridor das minas de ouro?

Haveria neste caso confusão entre esse descobridor das minas de Sabará com o descobridor das minas de Goiás; e dessa confusão resultaria o aplicar-se a ele o apelido de Anhanguera.

O que porém mostra a toda a luz a incerteza em que laborava o espírito do escritor paulista é a referência que ele faz no título de “Lemes”, tratando D. Maria Teresa Isabel Pais. (Revista do Instituto – T. 35 – Part. 1ª - p. 247).

Examinando os cartórios, achou ele que esta senhora, sendo viúva de Fernão Dias Leme, convolou a segunda núpcias com o Coronel Bartolomeu Bueno da Silva, “filho de outro do mesmo nome por alcunha o Anhanguera, descobridor das minas de Goiás, das quais foi capitão-regente”.

Estando na obrigação, como genealogista, de entroncar esse coronel em algum ramo da família Bueno, sem escrúpulo nem exame remontou-se ao filho de Francisco Bueno com D. Filipa Vaz de quem afirma ter referido a descendência, o que não é exato, pois tanto no nome de Bartolomeu Bueno, como no de D. Isabel Cardoso nada se encontra.

E como poderia Pedro Taques descrever a sucessão do verdadeiro Anhanguera que nunca foi coronel, nem outra cousa senão sertanista, quando ele o confunde com o filho, capitão-regente e depois capitão-mor da Vila Boa de Goiás?

A verdade é que um mistério parece ter envolvido o nascimento e existência aventureira do famoso sertanista, cujo nome legendário a tradição popular nos transmitiu como um mito semibárbaro daquela primeiro era da nossa história.

O livro que publicamos revela esse arcano que o orgulho da família selou por muito tempo. Ele foi tirado de um antigo manuscrito latino, descoberto há anos em um velho contador de jacarandá, que se supõe ter pertencido ao Mosteiro de São Bento.


Janeiro de 1875.