O Pajem Negro/III

O Pajem Negro por José de Alencar
Capítulo III: As espadas e o leque


Quando a multidão, apinhando-se na entrada da rua, tomou o passo aos dois viajantes, um lindo palanquim em forma de liteira que vinha para o Largo da Sé foi obrigado a parar, defronte do alvo de todo este burburinho.

Era a liteira naquela época uma espécie de veículo muito usado; e em São Paulo, como nas mais colônias brasileiras, não havia outra de mais luxo, pois nem as ruas nem os caminhos ainda menos permitiam o trânsito às pesadas carruagens dos afonsinhos.

Para as jornadas fabricavam-se liteiras mais sólidas e mais vastas, algumas de fundo raso, verdadeiro leito portátil onde as famílias podiam viajar com toda comodidade. As de passeio porém copiavam a forma graciosa do palanquim, e tinham dois assentos fronteiros.

Havia-se mui ricas e elegantes como essa que ali estava na Travessa da Sé, com uma caixa escarlate pintadas de finos arabescos, sua cúpula de esculturas douradas que serviam de moldura a um escudo de armas; e suas cortinas de damasco azul guarnecidas de franjas também douradas. Vinham aos varais duas fogosas mulas alvas como leite, e conduzidas por dois criados de libré poucó.

Encerradas nesses ninhos de sedas, as damas percorriam as ruas da cidade tão recatadas como se estivessem em seu camarim, e com o sainete de um incógnito que achavam encantador, pois dava-lhes a liberdade que não tinham em um passeio a pé.

Logo que parou o palanquim, a cortina de damasco da portinhola foi afastada de uma e outra banda. Na cobertura do lado da traseira apareceu um nariz adunco flanqueado de dois olhos espantadiços, e coroado de uma touca piramidal. A outra borda, arregaçada por uns dedos de alfenim, mostrou o mais gracioso camafeu que já se viu, formado por dois formosos perfis em relevo sobre azul do estofo.

Pareciam gêmeos esses dois angélicos semblantes, senão que o primeiro era mais altivo, e o segundo, mais suave; naquele havia um garbo senhoril, como o da garça que se aira; neste a expressão meiga da rola. Ambos porém eram formosíssimos; e em São Paulo onde o sangue andaluz iluminava-se aos raios do sol americano, não havia outros olhos como esses nem lábios que possuíssem a magia daqueles sorrisos.

— O que é? O que é, meninas? dizia uma voz fanhosa que saía com certeza do nariz adunco.

— Não se assuste, avozinha, respondeu o primeiro perfil. Não é nada.

— Parece um alvoroço, Mécia! Observou o segundo perfil com um sobressalto.

— Que alvoroto, Mariquita?... Pois não vês, dona medrosa, que estão divertindo-se com aqueles dois arlequins trepados em um burro?

Acompanhava a liteira um mancebo trajado como os pajens da Corte de Filipe 2º ou D. João 3º, com um perpoém de cetim púrpura golpeado de preto, borzeguins e touca da mesma fazenda; a última ornada com uma pena de garça engastada em broche de pedraria. As meias eram cor de pérola debuxando uma perna bem feita e elegante.

Passava ele de vinte anos; e se o trajo em corpo desenhava-lhe um talhe estatuário; o rosto já aveludado por um buço nascente, era de suprema gentileza. Apenas se lhe poderia notar um certo ar de tímida candidez, que seria encantador aos quinze anos; mas naquela idade era uma névoa que desluzia o brilho de seus olhos grandes e rasgados; tolhia a graça de seu gesto e como que amenizava-lhe a robusta juventude.

O pajem, que ia sempre à portinhola do palanquim, atrasara-se alguns passos, não só por causa da gente que impedia o caminho, como pela curiosidade de conhecer a causa do alvoroto. Logo porém que os animais pararam, ele acudiu ao seu posto, e chegou-se ao tempo que D. Mécia tranquilizava suas companheiras.

Foi nessa ocasião que D. João dirigindo a palavra aos circunstantes pretendeu levar o caso em ar de galhofa. D. Mécia ouvindo os remoques do fidalgo, volveu os olhos para o pajem, e só então sorriram ambos, como se o pensamento nascesse da comunicação dessas duas almas, que isoladas não saberiam querer.

— Conheces, Rinaldo?

— É um forasteiro, respondeu o pajem.

— Fidalgo de Leão e Castela, diz ele.

Entretanto a posição de D. João tornava-se bem difícil. Justamente por aquele tempo surgiu na Capitania de São Vicente essa raça cruzada, de indomável energia, que pelo seu gênio impetuoso e sua constante revolta, tirou o nome dos mamelucos, desses escravos, tiranos dos déspotas a quem serviam.

Na vila de São Paulo de Piratininga não faltavam tunantes prontos a sacar da adaga ou do refle, ao menor pretexto, e para quem uma briga era o melhor dos regalos de sua existência fragueira.

Assim apenas D. João e Pablo tiraram as espadas, feixes de catanas riscaram no ar e arremeteram aos dois viajantes, que receberam o choque intrepidamente, com a firmeza de um baluarte investido pelo inimigo.

A velha do palanquim atirou-se para dentro, e começou a zumbir uma ave-maria; Mariquita soltou um gritozinho de codorna assustada; Mécia, porém, alçou a fronte com um gentil ardimento, e as cores das faces que ao primeiro alvoroço tinham desmaiado, acenderam-se de novo e mais brilhantes.

— É valente o castelhano! disse ela para o pajem.

— E o escudeiro não lhe fica atrás. Que botes que ele dá! acrescentou o mancebo.

— E a graça com que o fidalgo se defende, sempre zombeteiro! tornou a menina.

D. Mécia observava o combate com um enlevo que era para admirar em uma dama e tão moça ainda. A mais luzida festa não lhe causaria tamanho prazer, como sentia vendo um fidalgo defender-se bravamente contra uma multidão.

Estendendo a mão alva e afilada, cerrou com as pontas dos dedos a espádua do pajem que estava diante dela; talvez para assim transmitir-lhe pelo toque um pensamento que não se animava a exprimir, e que talvez ainda não estivesse de todo formado em seu próprio espírito.

— Tantos contra dois, Rinaldo! Poderão resistir?

O pajem voltou-se para ler nos belos olhos da sua dama a intenção daquela pergunta feita com uma voz comovida.

— São capazes de matá-los! disse Mécia embebendo o olhar no mancebo.

Rinaldo que até esse momento assistira tranquilo ao combate, teve um ímpeto de arrojar-se; mas sentiu a leve pressão dos dedos que o detiveram como um imã. Todavia, antes que se retraísse, tinha passado a hesitação da moça que retirou a mão, dizendo baixinho:

— Vai, meu Rinaldo!

Arremessou-se o pajem galhardamente no meio da peleja, brandindo o seu delgado florete, que parecia um vime entre as grossas catanas dos assaltantes. Quando reparou nesse contraste, Mécia arrependeu-se de ter lançado o seu pajem querido em tão arriscada aventura.

Maior porém foi a sua comoção quando viu a fina lâmina voar pelos ares partida pelo bote do chanfalho de um alentado carafuz, e submergir-se o pajem na onda revolta do motim.

— Lá mataram o Rinaldo, avozinha! exclamou Mariquita cobrindo o rosto com as mãos.

A velha encolhida no canto do palanquim redobrou o zumbido, agora acompanhado do bater dos queixos. Mas Mécia, esta não fez outro movimento senão levar a mão ao seio para comprimir o coração que estalava, e assim ficou imóvel e pálida como uma estátua.

Quando recobrando-se ia debruçar para chamar os lacaios, sua nívea fronte vibrou com assomos de orgulho, e um sorriso de júbilo iluminou outra vez o seu rosto formoso.

Rinaldo acabava de surdir no meio da briga armado com uma longa e pesada durindana, que arrancara da mão de um dos espadachins; e encostando-se no fleumático burro que ficara impassível no meio de toda esta lufa, começou a acutilar os assaltantes de alto a baixo com uma gana que lhe valeu o elogio de D. João dado por entre as estocadas que ia tirando.

— Com outra espada como esta à nossa esquerda, Pablo, ficamos um reduto de quatro bastiões... e varremos esta canalha. Firme, amigo paulista!... Que combate pela honra de sua terra... Que estes mariolas estão insultando!... Esta maneira de receber os hóspedes... pode ser de bugres; de cristãos, isso não é!

Mécia, apesar do contentamento que lhe causavam as proezas de seu pajem e o gosto de o ver pelejando com tanta galhardia, compreendeu que todo o esforço dos três denodados campeões não seria bastante para vencer o bando crescente dos assaltantes. Já se ouviam gritos ferozes, e a resistência, irritando os valentões da vila, assanhou seus instintos sanguinários.

A moça pois ordenou aos lacaios que rompessem com a liteira por entre o motim, a fim de interpor-se aos combatentes; e apesar dos reclamos da velha ajudada pela outra moça, os criados não ousaram desobedecer à ordem terminante da dama.

A dificuldade estava em abrir passagem através da multidão apinhada. Mas Mécia reclinando o busto para fora do palanquim, e erguendo o braço, com o seu leque da Índia aberto, acenou ao povo.

Ouviram-se no ajuntamento umas vozes destacadas que diziam:

— D. Mécia!

— A filha do Juiz de Fora!

— Do Bartolomeu Bueno?

— A irmã do Ouvidor!

— É, é ela mesmo. A irmã do Capitão-Mor Amador Bueno.

— A mais moça!

À medida que estas exclamações prorrompiam de um e outro ponto, a turba voltava-se curiosa, e recuava com mostras de acatamento para deixar passar a liteira, que chegou incólume ao lugar da briga.

Aí o leque mimoso de D. Mécia separou as espadas, como tinha separados as pinhas de gente. Os assaltantes, advertidos de quem era o palanquim, embora resmungando e trejurando, abaixaram a grimpa.

— Não te feriram, Rinaldo? perguntou a donzela com solicitude.

— Não o podiam, senhora, que pelejava por vós.

— Mas correste grande perigo. Partiram-te o florete!

— Foi pior para eles, retorquiu o pajem.

A gentil dama sorriu; e com o seu leque refrescou o rosto afogueado do formoso pajem.

Nesse momento D. João já a pé acercou-se do palanquim, enquanto Pablo firme na garupa do burro, esperava a ordem do amo para desmontar. O fidalgo saudando a dama que à sua chegada cerrara a cortina, dirigiu-se ao pajem.

— Já que nos ajudou a desvencilhar desta ralé, amigo, espero que completará o favor, dizendo-nos para que banda ficam as casas de morada do Sr. Bartolomeu Bueno de Ribeira.

A resposta do pajem foi-lhe dada a meia voz por detrás da cortina:

— Para lá vamos nós.

— Ainda bem, pois agora chego de longe, e a ninguém conheço nesta terra senão a ele, pela recomendação de um seu amigo da cidade do Salvador.

— Podeis seguir-nos então.

Mariquita escutando este diálogo teve um gesto interrogativo:

— Ouviste, Mécia? Vem da Bahia o castelhano. Não será o noivo que meu avô espera para ti?

— O meu noivo, mentina, não carece vir de tão longe; talvez esteja ele bem perto.

— Ah! Já sei. O primo Alberto! segredou a travessa ao ouvido da companheira.

— Deus é quem sabe, respondeu Mécia com intenção.