O Pajem Negro/II

O Pajem Negro por José de Alencar
Capítulo II: Dois em cima de um


Era um domingo, o dia 3 de maio de 1626.

Já passavam de nove horas. A pequena vila de São Paulo de Piratininga tinha ares de festa, conforme o uso daquele tempo em que por devoção sincera, ou por necessidade de folga, se guardava rigorosamente o dia do Senhor.

Terminada a missa, a população recolhera-se um momento para o almoço; mas logo tornara a sair para as costumadas visitas e passeios domingueiros. Pelas ruas e praças moviam-se de novo e cruzavam-se os bandos de vileiros, nos mesmos trajos luzidos com que pouco antes tinham despejado as igrejas.

As damas de famílias nobres e ricas passavam em seus vistosos palanquins, entreabrindo ao de leve as cortinas de damasco para receberem as cortesias dos cavaleiros que faziam curvetear os ginetes, e que as reconheciam mais pelos escudos alçados nas cúpulas douradas, do que pelos rostos esquivos.

O povo miúdo que girava tranquilamente pelo Largo da Sé, pasmando-se as vezes a mirar o luxo dos fidalgos, e outras divertindo-se em trocar ditos galhofeiros, agitou-se afluindo para as bandas do Colégio, e ouviram-se os apupos e assobios que anunciavam as vaias populares.

— Fiáu!... Fiáu!...

— Zut!... Zut!...

Um garoto cantava às goelas soltas:


Dois em cima dum,
Três jumentos um por um!


E a miuçalha aplaudia com chufas e risos destemperados.

O alvo da surriada era um dúplice cavaleiro, que tinha embocado pela Travessa da Sé, e dirigia-se ao largo, montado em um burro coberto de lama. O aspecto grotesco dessa trípode era o mais próprio com efeito para desafiar a surriada da gentalha.

Em verdade além de já ser ridículo andar um homem de garupa com outro, acrescia a particularidade ainda mais extravagante de irem os dois costas com costas, olhando um para as orelhas e outro para a cauda do burro.

Tornemos ao ponto onde deixamos os nossos dois viajantes matutinos para explicar o motivo por que ali se achavam àquela hora e em tão singular equipagem.

Quando Pablo acabou de mudar os arreios do cavalo ferido para o burro, apresentou-o a D. João, e segurou o estribo.

— Em falta de cão caça-se com gato, observou fleumaticamente o lacaio.

— E tu, meu pobre Pablo? disse o fidalgo relanceando um olhar expressivo para as tíbias aflautadas do criado.

— Com Deus! Há de se chegar! As pernas finas são as mais andeiras.

— Não é de tuas pernas que eu tenho dó, Pablo; mas das tuas peúgas e sapatos, que se os estragas neste lameiro, não tenho outros para dar-te. E bem vês que é preciso não fazermos triste figura logo na chegada, senão lá se vai a noiva, e a mina de ouro! Que dizes?

— A isto não lhe vejo nenhum jeito, que eu não aprendi a voar.

— Mas vem cá, filho, se pusesses o pé no chão? Ficarias mais lampeiro, e salvavas as tuas peúgas e os meus planos da ruína que os ameaça.

— Sr. D. João Mateus Rendon, ou vossa mercê é um fidalgo, ou não; disse Pablo formalizado. Se não, leve o que lhe pertence que não me tem por criado. Se, porém, é o fidalgo que eu conheço, da linhagem dos Quevedos, Laras, Alarções e Cabeça de Vaca; o seu lacaio não pode desonrar-se pondo o pé no chão como um negro ou um caboclo desta terra de lama.

— Ainda há um meio de resguardar a tua honra de lacaio, sem risco das peúgas, replicou D. João. Monta na garupa.

Pablo hesitou.

— Anda daí! Não te faças de piegas! A infantaria, quando vai ao assalto, monta na garupa da cavalaria.

Este exemplo militar decidiu o lacaio; e lá se foram os dois para costas do burro que se já suportava de má vontade a carga, redobrou de obstinação por modo que só ao cabo de duas horas pisava ele os subúrbios da vila.

Para ficar mais a jeito de zurzir as ancas do burro, Pablo montava voltado para a cauda que lhe servia de freio.

Naquele tempo a entrada da cidade era pelo Brás, e como não havia ainda o aterro que depois ligou aquele arrabalde ao Largo do Carmo, o caminho seguia pela várzea e ia ter à falta da esplanada, onde os jesuítas haviam construído o seu colégio.

Aí atravessava-se o Tamandateí por uma sólida ponte de madeira e ganhava-se a vila pela subida, que séculos depois o povo chamou o Beco da Marquesa, por causa de um palacete que lhe ficava na esquina.

Ao chegar à ponte, D. João disse para o seu lacaio:

— Passado este lamaçal da ladeira, é preciso apearmos para fazer a nossa entrada na vila sem escândalo.

— E o burro?

— Vende-o ao primeiro salsicheiro que encontrarmos para picá-lo em linguiça que é só para o que pode servir este pícaro.

Nessa ocasião o burro, como se tivesse entendido a pilhéria do fidalgo, abriu a trote largo de ladeira a cima com grande pasmo dos dois cavaleiros. No alto da esplanada, D. João descobrindo a casaria da vila, cuidou de esbarrá-lo; mas o cabeçudo animalejo que naturalmente farejava alguma próxima estrebaria de sua predileção, não se deu por entendido aos repuxões do freio, e só parou quando o povo advertido pelos primeiros gritos dos garotos, encheu a travessa, tomando-lhe o passo.

Assim viu-se o fidalgo de repente dentro da vila, fazendo a sua entrada por uma forma que, se primava pela originalidade, não era muito consoante à arte da equitação, nem à sua vaidade de mancebo casquilho. Mas não era ele homem que se desconcertasse por tão pouco.

Como o Pablo julgasse prudente apear-se logo que o obstinado burro deu lugar; o amo ordenou-lhe que tornasse a montar na garupa, e em tom que não admitia réplica; pois o lacaio sabia que, se D. João estava sempre a rir, em compensação quando não ria era um corisco.

— Tinha que ver se nós que na baía do Salvador varremos com este penacho as balas dos flamengos, fôssemos agora recuar diante das chufas de meia dúzia de galopins. Anda lá, Pablo; na garupa e deixá-los rir.

Apenas o criado tomou seu lugar nas ancas do burro, o fidalgo tornando ao seu ar faceto e tocando com a mão a aba do chapéu de feltro, dirigiu-se à turbamulta que o cercava.

— Amigos e senhores meus, tenham a paciência de ouvir-me. Eu esperava fazer nesta vila uma entrada mais digna de um fidalgo de Leão e Castela; mas não contava com os seus caminhos que matam os cavalos, e sua terra que produz burros deste calibre. Portanto se culpa há nesta sem-cerimônia com que me apresento, é vossa e não minha. Dito isto penso que me deixarão passar com o meu lacaio e o meu burro, ou se lhes incomoda muito ver um fidalgo nesta triste figura, tragam-me um cavalo em paga do que perdi, e verão se é por meu gosto que eu monto este gafanhoto.

Os que estavam perto e ouviram os remoques do espanhol, riram-se; mas uma pinha de gente que chegava pela frente começou a soltar grosseiras chocarrices, com arremessos de mão.

— Olá, camaradas! Se o ver dois homens em cima de um asno os põe assim fora de si; que fariam se vissem um asno por cima de dois ou mais homens? Pois é o que vai acontecer, se não se arredam; porque eu quero passar.

A canalha respondeu com outra surriada; e viu-se erguido acima das cabeças e com gesto ameaçador um molho de punhos cerrados.

— Temos conversa, Pablo. Puxa pela catana, e incumbe-te da retaguarda, que eu vou ensinar esta corja de pícaros.

O amo e o criado desembainharam a espada, e Pablo reconheceu que essa posição pouco elegante e contrária às regras da nobre arte da picaria, era em compensação uma manobra excelente na guerra, pois inventava uma cavalaria com duas frentes, mais impenetrável do que a antiga falange macedônica.