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O Uraguay por Basílio da Gama
Canto Terceiro


CANTO QUARTO

Salvas as tropas do noturno incêndio,

Aos povos ſe avizinha o grande Andrade,
Depois de afugentar os índios fortes
Que a ſubida dos montes defendiam,
E rotos muitas vezes e eſpalhados
Os tapes cavaleiros, que arremeſſam
Duas cauſas de morte em uma lança

E em largo giro todo o campo eſcrevem.
Que negue agora a pérfida calúnia

Que ſe enſinava aos bárbaros gentios
A diſciplina militar, e negue
Que mãos traidoras a diſtantes povos
Por áſperos deſertos conduziam
O pó ſulfúreo, e as ſibilantes balas
E o bronze, que rugia nos ſeus muros.
Tu que viſte e piſaſte, ó Blaſco inſigne,
Todo aquele país, tu ſó pudeſte,

Co’a mão que dirigia o ataque horrendo
E aplanava os caminhos à vitória,

Deſcrever ao teu rei o ſítio e as armas,
E os ódios, e o furor, e a incrível guerra.
Piſarão finalmente os altos riſcos
De eſcalvada montanha, que os infernos
Co’o peſo oprime e a teſta altiva eſconde
Na região que não perturba o vento.
Qual vê quem foge à terra pouco a pouco
Ir creſcendo o horizonte, que ſe encurva,
Até que com os céus o mar confina,
Nem tem à viſta mais que o ar e as ondas:
Aſſim quem olha do eſcarpado cume
Não vê mais do que o céu, que o mais lhe encobre
A tarda e fria névoa, eſcura e denſa.
Mas quando o Sol de lá do eterno e fixo
Purpúreo encoſto de dourado aſſento,

Co’a criadora mão deſfaz e corre
O véu cinzento de ondeadas nuvens,

Que alegre cena para os olhos! Podem
Daquela altura, por eſpaço imenſo,
Ver as longas campinas retalhadas
De trêmulos ribeiros, claras fontes
E lagos criſtalinos, onde molha
As leves aſas o laſcivo vento.
Engraçados outeiros, fundos vales
E arvoredos copados e confuſos,
Verde teatro, onde ſe admira quanto
Produziu a ſupérflua Natureza.
A terra ſofredora de cultura
Moſtra o raſgado ſeio; e as várias plantas,
Dando as mãos entre ſi, tecem compridas
Ruas, por onde a viſta ſaudoſa
Se eſtende e perde. O vagaroſo gado
Mal ſe move no campo, e ſe diviſam

Por entre as ſombras da verdura, ao longe,
As caſas branquejando e os altos templos.

Ajuntavam-ſe os índios entretanto
No lugar mais vizinho, onde o bom padre
O bom padre. Balda.
Queria dar Lindóia por eſpoſa
Ao ſeu Baldetta, e ſegurar-lhe o poſto
E a régia autoridade de Cacambo.
Eſtão patentes as douradas portas
Do grande templo, e na vizinha praça
Se vão diſpondo de uma e de outra banda
As viſtoſas eſquadras diferentes.
Co’a chata frente de urucu tingida,
Vinha o índio Cobé diſforme e feio,
Que ſuſtenta nas mãos peſada maça,
Com que abate no campo os inimigos
Como abate a ſeara o rijo vento.

Traz conſigo os ſalvages da montanha,
Que comem os ſeus mortos; nem conſentem

Que jamais lhes eſconda a dura terra
No ſeu avaro ſeio o frio corpo
Do doce pai, ou ſuſpirado amigo.
Foi o ſegundo, que de ſi fez moſtra,
O mancebo Pindó, que ſucedera
A Sepé no lugar: inda em memória
Do não vingado irmão, que tanto amava,
Leva negros penachos na cabeça.
São vermelhas as outras penas todas,
Cor que Sepé uſara ſempre em guerra.
Vão com eles os ſeus tapes, que ſe afrontam
É que têm por injúria morrer velhos.
Segue-ſe Caitutu, de régio ſangue
E de Lindóia irmão. Não muito fortes
São os que ele conduz; mas ſão tão deſtros
No exercício da frecha que arrebatam

Ao verde papagaio o curvo bico,
Voando pelo ar. Nem dos ſeus tiros

O peixe prateado eſtá ſeguro
No fundo do ribeiro. Vinhão logo
Alegres guaranis de amável geſto.
Eſta foi de Cacambo a eſquadra antiga.
Penas da cor do céu trazem veſtidas,
Com cintas amarelas: e Baldetta
Deſvanecido a bela eſquadra ordena
No ſeu Jardim: até o meio a lança
Pintada de vermelho, e a teſta e o corpo
Todo coberto de amarelas plumas.
Pendente a rica eſpada de Cacambo,
E pelos peitos ao través lançada
Por cima do ombro eſquerdo a verde faixa
De donde ao lado opoſto a aljava deſce.
Num cavalo da cor da noite eſcura
Entrou na grande praça derradeiro

Tatu-Guaçu feroz, e vem guiando
Tropel confuſo de cavaleria,

Que combate deſordenadamente.
Trazem lanças nas mãos, e lhes defendem
Peles de monſtros os ſeguros peitos.
Revia-ſe em Baldetta o ſanto padre;
E fazendo profunda reverência,
Fora da grande porta, recebia
O eſperado Tedeu ativo e pronto,
A quem acompanhava vagaroſo
Com as chaves no cinto o Irmão Patuſca,
De peſada, enormíſſima barriga.
Jamais a eſte o ſom da dura guerra
Tinha tirado as horas do deſcanſo.
De indulgente moral e brando peito,
Que penetrado da fraqueza humana

Sofre em paz as delícias deſta vida,
Tais e quais no-las dão. Goſta das couſas

Porque goſta, e contenta-ſe do efeito
E nem ſabe nem quer ſaber as cauſas.
Ainda que talvez, em falta de outro,
Com groſſeiras ações o povo exorte,
Gritando ſempre, e ſempre repetindo,
Que do bom Pai Adão a triſte raça
Por degraus degenera, e que eſte mundo
Piorando envelhece. Não faltava,
Para ſe dar princípio à eſtranha feſta,
Mais que Lindóia. Há muito lhe preparão
Todas de brancas penas reveſtidas
Feſtões de flores as gentis donzelas.
Canſados de eſperar, ao ſeu retiro
Vão muitos impacientes a buſcá-la.
Eſtes de creſpa Tanajura aprendem
Que entrara no jardim triſte e choroſa,

Sem conſentir que alguém a acompanhaſſe.
Um frio ſuſto corre pelas veias

De Caitutu, que deixa os ſeus no campo;
E a irmã por entre as ſombras do arvoredo
Buſca co’a viſta, e teme de encontrá-la.
Entrão enfim na mais remota e interna
Parte de antigo boſque, eſcuro e negro,
Onde ao pé de uma lapa cavernoſa
Cobre uma rouca fonte, que murmura,
Curva latada de jaſmins e roſas.
Eſte lugar delicioſo e triſte,
Canſada de viver, tinha eſcolhido
Para morrer a míſera Lindóia.
Lá reclinada, como que dormia,
Na branda relva e nas mimoſas flores,

Tinha a face na mão, e a mão no tronco
De um fúnebre cipreſte, que eſpalhava

Melancólica ſombra. Mais de perto
Deſcobrem que ſe enrola no ſeu corpo
Verde ſerpente, e lhe paſſeia, e cinge
Peſcoço e braços, e lhe lambe o ſeio.
Fogem de a ver aſſim, ſobreſſaltados,
E parão cheios de temor ao longe;
E nem ſe atrevem a chamá-la, e temem
Que deſperte aſſuſtada, e irrite o monſtro,
E fuja, e apreſſe no fugir a morte.
Porém o deſtro Caitutu, que treme
Do perigo da irmã, ſem mais demora
Dobrou as pontas do arco, e quis três vezes
Soltar o tiro, e vacilou três vezes
Entre a ira e o temor. Enfim ſacode
O arco e faz voar a aguda ſeta,
Que toca o peito de Lindóia, e fere

A ſerpente na teſta, e a boca e os dentes
Deixou cravados no vizinho tronco.

Açouta o campo co’a ligeira cauda
O irado monſtro, e em tortuoſos giros
Se enroſca no cipreſte, e verte envolto
Em negro ſangue o lívido veneno.
Leva nos braços a infeliz Lindóia
O deſgraçado irmão, que ao deſpertá-la
Conhece, com que dor! no frio roſto
Os ſinais do veneno, e vê ferido
Pelo dente ſutil o brando peito.
Os olhos, em que Amor reinava, um dia,
Cheios de morte; e muda aquela língua
Que ao ſurdo vento e aos ecos tantas vezes
Contou a larga hiſtória de ſeus males.
Nos olhos Caitutu não ſofre o pranto,
E rompe em profundíſſimos ſuſpiros,
Lendo na teſta da fronteira gruta

De ſua mão já trêmula gravado
O alheio crime e a voluntária morte.

E por todas as partes repetido
O ſuſpirado nome de Cacambo.
Inda conſerva o pálido ſemblante
Um não ſei quê de magoado e triſte,
Que os corações mais duros enternece
Tanto era bela no ſeu roſto a morte!
Indiferente admira o caſo acerbo
Da eſtranha novidade ali trazido
O duro Balda; e os índios, que ſe achavam,
Corre co’a viſta e os ânimos obſerva.
Quando pode o temor! Secou-ſe a um tempo
Em mais de um roſto o pranto; e em mais de um peito
Morrerão ſufocados os ſuſpiros.
Ficou deſamparada na eſpeſſura,
E expoſta às feras e às famintas aves,

Sem que alguém ſe atreveſſe a honrar ſeu corpo
De poucas flores e piedoſa terra.

Faſtoſa egípcia, que o maior triunfo
Temeſte honrar do vencedor Latino,
Se deſceſte inda livre ao eſcuro reino
Foi vaidoſa talvez da imaginada
Bárbara pompa do real ſepulcro.
Amável indiana, eu te prometo
Que em breve a iníqua pátria envolta em chamas
Te ſirva de urna, e que miſture e leve
A tua e a ſua cinza o irado vento.
Confuſamente murmurava entanto
Do caſo atroz a laſtimada gente.
Dizem que Tanajura lhes pintara
Suave aquele gênero de morte,
E talvez lhe moſtraſſe o ſítio e os meios.

Balda, que há muito eſpera o tempo e o modo
De alta vingança, e encobre a dor no peito,

Excita os povos a exemplar caſtigo
Na deſgraçada velha. Alegre em roda
Se ajunta a petulante mocidade
Co’as armas que o acaſo lhe oferece.
Mas neſte tempo um índio pelas ruas
Com geſto eſpavorido vem gritando,
Soltos e arrepiados os cabelos:
Fugi, fugi da mal ſegura terra,
Que eſtão já ſobre nós os inimigos.
Eu meſmo os vi, que deſcem do alto monte,
E vêm cobrindo os campos; e ſe ainda
Vivo chego a trazer-vos a notícia,
Aos meus ligeiros pés a vida eu devo.
Debalde nos expomos neſte ſítio,
Diz o ativo Tedeu: melhor conſelho
É ajuntar as tropas no outro povo:

Perca-ſe o mais, ſalvemos a cabeça.
Embora ſeja aſſim: faça-ſe em tudo

A vontade do céu; mas entretanto
Vejão os contumazes inimigos
Que não têm que eſperar de nós deſpojos,
Falte-lhe a melhor parte ao ſeu triunfo.
Aſſim diſcorre Balda; e entanto ordena
Que todas as eſquadras ſe retirem,
Dando as caſas primeiro ao fogo, e o templo.
Parte, deixando atada a triſte velha
Dentro de uma choupana, e vingativo
Quis que por ela começaſſe o incêndio.
Ouviam-ſe de longe os altos gritos
Da miſerável Tanajura. Aos ares
Vão globos eſpeſſíſſimos de fumo,
Que deixa enſangüentada a luz do dia.
Com as groſſas camáldulas à porta,
Devoto e penitente os eſperava

O Irmão Patuſca, que ao rumor primeiro
Tinha ſido o mais pronto a pôr-ſe em ſalvo

E a deſertar da perigoſa terra.
Por mais que o noſſo General ſe apreſſe,
Não acha mais que as cinzas inda quentes
E um deſerto onde há pouco era a cidade.
Tinhão ardido as míſeras choupanas
Dos pobres índios, e no chão caídos
Fumegavão os nobres edifícios,
Delicioſa habitação dos padres.
Entrão no grande templo e vêem por terra
As imagens ſagradas. O áureo trono,
O trono em que ſe adora um Deus imenſo
Que o ſofre, e não caſtiga os temerários,

Em pedaços no chão. Voltava os olhos
Turbado o General: aquela viſta

Lhe encheu o peito de ira, e os olhos de água.
Em roda os ſeus fortíſſimos guerreiros
Admirão , eſpalhados, a grandeza
Do rico templo e os deſmedidos arcos,
As baſes das firmíſſimas colunas
E os vultos animados, que reſpirão
Na abóbeda o artífice famoſo
Pintara... mas que intento! as roucas vozes
Seguir não podem do pincel os raſgos.
Gênio da inculta América, que inſpiras
A meu peito o furor que me tranſporta,

Tu me levanta nas ſeguras aſas.

Serás em paga ouvido no meu canto.
E te prometto que pendente hum dia
Adorne a minha lyra os teus altares.


Fim do Canto Quarto

NotasEditar