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Os Lvsiadas por Camões
Canto Sexto
Versão com ortografia atualizada disponível em Os Lusíadas/VI.



Canto Seiſto.


Nam ſabia em que modo festejaſſe
O Rey Pagão os fortes nauegantes,
Pera que as amizades alcançaſſe
Do Rey Chriſtão, das gentes tão poſſantes:
Peſalhe que tão longe o apouſentaſſe
Das Europeas terras abundantes,
A ventura, que namno fez vizinho
Donde Hercules ao mar abrio o caminho.

Com jogos, danças, & outras alegrias
A ſegundo a policia Melindana,
Com vſadas & ledas peſcarias
Com que a Lageia Antonio alegra & engana:
Eſte famoſo Rey todos os dias
Feſteja a companhia Luſitana,
Com banquetes, manjares deſuſados
Com frutas, aues, carnes, & peſcados.


Mas vendo o Capitão que ſe detinha
Ia mais do que deuia, & o freſco vento
O conuida que parta & tome aſinha,
Os Pilotos da terra & mantimento,
Não ſe quer mais deter, que ainda tinha
Muito pera cortar do ſalſo argento,
Ia do Pagão benigno ſe deſpede
Que a todos amizade longa pede.

Pedelhe mais, que aquelle porto ſeja
Sempre com ſuas Frotas viſitado,
Que nenhum outro bem mayor deſeja
Que dar a tais baroẽs ſeu reino & estado:
E que em quanto ſeu corpo o ſprito reja
Eſtarâ de contino aparelhado,
A pôr a vida & reino totalmente
Por tão bom Rey, por tão ſublime gente.

Outras palauras tais lhe reſpondia
O Capitão, & logo as vellas dando,
Pera as terras da Aurora ſe partia,
Que tanto tempo ha ja que vay buſcando:
No Piloto que leua não auia
Falſidade, mas antes vay moſtrando
A nauegação certa, & aſsi caminha
Ia mais ſeguro do que dantes vinha.


As ondas nauegauão do Oriente
Ia nos mares da India, & enxergauão
Os talamos do Sol, que nace ardente,
Ia quaſi ſeus deſejos ſe acabauão:
Mas o mao de Tioneo, que na alma ſente
As venturas, que então ſe aparelhauão
Aa gente Luſitana dellas dina,
Arde, morre, blasfema & deſatina.

Via eſtar todo o Ceo determinado
De fazer de Lisboa noua Roma,
Não no pode eſtoruar, que deſtinado
Eſtâ doutro poder que tudo doma,
Do Olimpo dece em fim deſeſperado,
Nouo remedio em terra buſca, & toma,
Entra no humido reino, & vaiſe aa corte
Daquelle, a quem o mar cayo em ſorte.

No mais interno fundo das profundas
Cauernas altas, onde o mar ſe eſconde,
La donde as ondas ſaem furibundas,
Quando aas iras do vento o mar reſponde,
Neptuno mora, & morão as jocundas
Nereidas, & outros Deoſes do mar, onde
As agoas campa deixão aas cidades,
Que habitão eſtas humidas deidades.


Deſcobre o fundo nunca deſcuberto
As areas ali de prata fina,
Torres altas ſe vem no campo aberto
Da tranſparente maſſa criſtalina,
Quanto ſe chegão mais os olhos perto,
Tanto menos a vista determina
Se he criſtal o que vê, ſe diamante,
Que aſsi ſe moſtra claro & radiante.

As portas douro fino, & marchetadas
Do rico aljofar que nas conchas nace,
De eſculptura fermoſa estão lauradas,
Na qual do irado Baco a viſta pace:
E vê primeiro em cores variadas
Do velho Chaos a tão confuſa face,
Vemſe os quatro elementos traſladados
Em diuerſos officios occupados.

Ali ſublime o Fogo eſtaua encima,
Que em nenhũa materia ſe ſuſtinha,
Daqui as couſas viuas ſempre anima,
Deſpois que Prometeo furtado o tinha:
Logo a pos elle leue ſe ſublima
O inuiſibil Ar, que mais aſinha
Tomou lugar, & nem por quente, ou frio,
Algum deixa no mundo eſtar vazio


Eſtaua a terra em montes reuestida
De verdes eruas & aruores floridas,
Dando pasto diuerſo & dando vida
Aas alimarias nella produzidas:
A clara forma ali estaua eſculpida
Das agoas entre a terra deſparzidas,
De peſcados criando varios modos,
Com ſeu humor mantendo os corpos todos.

Noutra parte eſculpida eſtaua a guerra
Que tiuerão os Deoſes cos Gigantes,
Esta Tiſeo debaixo da alta ſerra
De Etna, que as flamas lança crepitantes:
Eſculpido ſe vê ferindo a terra
Neptuno, quando as gentes ignorantes.
Delle o cauallo ouuerão, & a primeira
De Minerua pacifica Ouliueira.

Pouca tardança faz Lyeo irado
Ne viſta deſtas couſas, mas entrando
Nos paços de Neptuno, que auiſado
Da vinda ſua, o eſtaua ja aguardando:
Aas portas o recebe, acompanhado
Das Nimphas, que ſe eſtão marauilhando,
De ver que cometendo tal caminho,
Entre no reino dagoa o Rey do vinho.


O Neptuno, lhe diſſe, não te eſpantes.
De Baco nos teus reinos receberes,
Porque tambem cos grandes & poſſantes
Mostra a Fortuna injuſta ſeus poderes:
Manda chamar os Deoſes do mar, antes
Que fale mais, ſe ouuirme o mais quiſeres,
Verão da deſuentura grandes modos,
Oução todos o mal que toca a todos.

Iulgando ja Neptuno que ſeria
Eſtranho caſo aquelle, logo manda
Tritão, que chame os Deoſes da agoa fria,
Que o mar habitão dhũa & doutro banda,
Tritão, que de ſer filho ſe gloria
Do Rey, & de Salacia veneranda,
Era mancebo grande, negro & feyo
Trombeta de ſeu pay, & ſeu Correyo.

Os cabellos da barba, & os que decem
Da cabeça nos ombros, todos erão,
Hũs limos prenhes dagoa, & bem parecem
Que nunca brando pentem conhecerão:
Nas pontas pendurados não falecem
Os negros Miſilhoẽs, que ali ſe gerão,
Na cabeça por gorra tinha poſta
Hũa muy grande caſca de Lagoſta.


O corpa nú, & os membros genitais
Por não ter ao nadar impedimento,
Mas porem de pequenos animais
Do mar, todos cubertos cento & cento:
Camaroẽs, & Cangrejos, & outros mais
Que recebem de Phebe crecimento,
Oſtras, & Camaroẽs do muſco çujos,
As coſtas coa caſca os Caramujos.

Na mão a grande Concha retorcida
Que trazia, com força ja tocaua,
A voz grande canora foy ouuida
Por todo o mar, que longe retumbaua:
Ia toda a companhia apercebida
Dos Deoſes, para os paços caminhaua
Do Deos, que fez os muros de Dardania,
Deſtroidos deſpois da Grega inſania.

Venha o padre Oceano acompanhado
Dos filhos & das filhas que gerara,
Vem Nereo, que com Doris foy caſado,
Que todo o mar de Nimphas pouoara:
O Propheta Proteo, deixando o gado
Maritimo pacer pella agoa amara,
Ali veyo tambem, mas ja ſabia
O que o padre Lyeo no mar queria.


Vinha por outra parte a linda eſpoſa
De Neptuno, de Celo & Veſta filha,
Graue & leda no gesto, & tão fermoſa
Que ſe amanſaua o mar de marauilha:
Veſtida hũa camiſa precioſa
Trazia de delgada beatilha,
Que o corpo cristalino dexa verſe,
Que tanto bem não he para eſconderſe.

Anfitrite fermoſa como as ſlores,
Neſte caſo não quis que faleceſſe,
O Delfim traz conſigo, que aos amores
Do Rey lhe aconſelhou que obedeceſſe:
Cos olhos que de tudo ſam ſenhores
Qualquer parecera que o Sol venceſſe,
Ambas vem pella mão, ygoal partido
Pois ambas ſam eſpoſas dhum marido.

Aquella que das furias de Atamante
Fugindo, veyo a ter diuino eſtado,
Conſigo traz o filho, belli Infante,
No numero dos Deoſes relatado.
Pella praya brincando vem diante
Com as lindas conchinhas, que o ſalgado
Mar ſempre cria, & aas vezes pella area
No colo o toma a bella Panopea.


E o Deos que foy num tempo corpo humano,
E por virtude da erua poderoſa
Foy conuertido em pexe, & deſte dano
Lhe reſultou deidade glorioſa,
Inda vinha chorando o feio engano,
Que Circes tinha vſado coa fermoſa
Scylla, que elle ama, desta ſendo amado
Que a mais obriga amor mal empregado.

Ia finalmente todos aſſentados
Na grande ſala nobre & diuinal,
As Deoſas em riquiſsimos eſtrados,
Os Deoſes em cadeiras de cristal:
Forão todos do Padre agaſalhados,
Que co Thebano tinha aſſento ygoal:
De fumos enche a caſa a rica maſſa
Que no mar nace, & Arabia em cheiro paſſa.

Eſtando ſoſſegado ja o tumulto
Dos Deoſes, & de ſeus recebimentos,
Começa a deſcubrir do peito occulto,
A cauſa o Tyoneo de ſeus tormentos:
Hum pouco carregando ſe no vulto,
Dando moſtra de grandes ſentimentos,
So por dar aos de Luſo triſte morte
Co ferro alheyo, fala deſta ſorte.


Princepe que de juro ſenhoreas
Dhum Polo, ao outro Polo o mar irado,
Tu que as gentes da terra toda enfreas,
Que não paſſem o termo limitado:
E tu padre Oceano, que rodeas
O mundo vniuerſal, & o tens cercado:
E com juſto decreto aſsi parmites,
Que dentro viuão ſo de ſeus limites.

E vos Deoſes do mar, que não ſoffreis
Injuria algũa em voſſo reino grande,
Que com castigo ygoal vos não vingueis,
De quemquer que por elle corra, & ande:
Que deſcuido foy este em que viueis?
Quem pode ſer que tanto vos abrande,
Os peitos, con razão endurecidos
Contra os humanos fracos & atreuidos?

Vistes que com grandiſsima ouſadia
Forão ja cometer o Ceo ſupremo,
Vistes aquella inſana fantaſia
De tentarem o mar com vella & remo:
Vistes, & ainda vemos cada dia,
Soberbas & inſolencias tais, que temo
Que do mar & do Ceo em poucos anos,
Venhão Deoſes a ſer, & nos humanos.


Vedes agora a fraca geracão
Que dhum vaſſallo meu o nome toma,
Com ſoberbo, & altiuo coração,
A vos, & a mi, & o mundo todo doma:
Vedes o voſſo mar cortando vão,
Mais do que fez a gente alta de Roma,
Vedes o voſſo reino deuaſſando
Os voſſos eſtatutos vão quebrando.

Eu vi que contra os Mynias, que primeiro
No voſſo reino este caminho abrirão,
Boreas injuriado, & o companheiro
Aquilo, & os outros todos reſiſtirão:
Pois ſe do ajuntamento auentureiro
Os ventos eſta injuria aſsi ſentirão,
Vos a quem mais compete eſta vingança,
Que eſperais, porque a pondes em tardança?

E não conſinto Deoſes que cuideis
Que por amor de vos do ceo deci,
Nem da magoa da injuria que ſofreis,
Mas da que ſeme faz tombem a mi:
Que aquellas grandes honras, queſabeis
Que no mundo ganhey, quando venci
As terras Indianas do Oriente,
Todas vejo abatidas desta gente.


Que o gran Senhor & fados que destinão,
Como lhe bem parece, o baxo mundo,
Famas mores que nunca determinão
De dar a eſtes baroẽs no mar profundo:
Aqui vereis o Deoſes como inſinão
O mal tambem a Deoſes. que a ſegundo
Se ve, ninguem ja tem menos valia
Que quem com mais razão valer deuia.

E por iſſo do Olimpo ja fugi,
Buſcando algum remedio a meus peſares,
Por ver o preço, que no Ceo perdi,
Se por dita acharey nos voſſos mares:
Mais quis dizer, & não paſſou daqui,
Porque as lagrimas ja correndo a pares
Lhe ſaltarão dos olhos, com que logo
Se acendem as Deidades dagoa em fogo.

A Ira com que ſubito alterado
O coração dos Deoſes foy num ponto,
Não ſoffreo mais conſelho bem cuidado,
Nem dilação, nem outro algum deſconto:
Ao grande Eolo mandão ja recado
Da parte de Neptuno, que ſem conto
Solte as furias dos ventos repugnantes,
Que não aja no mar mais nauegantes.


Bem quiſera primeiro ali Protheo
Dizer neste negocio o que ſentia,
E ſegundo o que a todos pareceo,
Era algũa profunda prophecia:
Porem tanto o tumulto ſe moueo
Subito na diuina companhia,
Que Thetis indinada lhe bradou,
Neptuno ſabe bem o que mandou.

Ia la o ſoberbo Hypotades ſoltaua
Do carcere fechado os furioſos
Ventos, que com palauras animaua,
Contra os varoẽs audaces & animoſos:
Subito o ceo ſereno ſe obumbraua,
Que os ventos mais que nunca impetuoſos
Começão nouas forças a yr tomando,
Torres, montes & caſas derribando.

Em quanto este conſelho ſe fazia
No fundo aquoſo, a leda laſſa Frota
Com vento ſoſſegado proſeguia
Pello tranquilo mar, a longa rota:
Era no tempo quando a luz do dia.
Do Eoo Emiſperio estâ remota,
Os do quarto da prima ſe deitauão
Pera o ſegundo os outros deſpertauão.


Vencidos vem do ſono, & mal deſpertos
Bocijando a miudo ſe encoſtauão,
Pellas antenas, todos mal cubertos,
Contra os agudos ares que aſſoprauão:
Os olhos contra ſeu querer abertos
Mas estregando os membros estirauão,
Remedios contra o ſonno buſcar querem,
Hiſtorias contão, caſos mil referem.

Com que milhor podemos, hum dizia,
Eſte tempo paſſar, que he tão peſado,
Se não com algum conto de alegria
Com que nos deixe o ſono carregado?
Reſponde Lionardo, que trazia
Penſamentos de firme namorado,
Que contos paderemos ter milhores
Pera paſſar o tempo, que de amores?

Não he, diſſe Veloſo, couſa juſta
Tratar branduras em tanta aſpereza,
Que o trabalho do mar, que tanto cuſta,
Não ſoffre amores, nem delicadeza:
Antes de guerra ſeruida & robuſta
A noſſa hiſtoria ſeja, pois dureza
Noſſa vida ha de ſer, ſegundo entendo
Que o trabalho por vir mo eſta dizendo.


Conſentem niſto todos, & encomendão
A Veloſo que conte iſto que aproua,
Contarei diſſe, ſem que me reprendão
De contar couſa fabuloſa, ou noua:
E porque os que me ouuirem daqui aprendão
A fazer feitos grandes de alta proua,
Dos nacidos direy na noſſa terra,
E eſtes ſejão os doze de Inglaterra.

No tempo que do reino a redea leue
Ioão filho de Pedro moderaua,
Deſpois que ſoſſegado & liure o teue
Do vizinho poder que o moleſtaua:
La na grande Inglaterra, que da neue
Boreal ſempre abunda, ſemeaua
A fera Erinis dura & mâ cizania
Que luſtre foſſea noſſa Luſitania.

Entre as damas gentis da corte Ingleſa,
E nobres corteſaõs, a caſo hum dia
Se leuantou diſcordia em ira aceſa,
Ou foy opinião, ou foy porfia:
Os Corteſaõs a quem tam pouco peſa
Soltar palauras graues de ouſadia
Dizem que prouarão, que honras & famas
Em tais damas não ha, pera ſer damas.


E que ſe ouuer alguem com lança & eſpada
Que queira ſustentar a parte ſua,
Que elles em campo raſo, ou estacada,
Lhe darão fea infamia, ou morte crua:
A femenil fraqueza pouco vſada
Ou nunca a oprobrios tais, vendo ſe nua
De forças naturais conuenientes,
Socorro pede a amigos & parentes.

Mas como foſſem grandes & poſſantes
No reino os inimigos, não ſe atreuem
Nem parentes, nem feruidos amantes
A ſuſtentar as damas, como deuem:
Com lagrimas fermoſas & bastantes
A fazer que em ſocorro os Deoſos leuem
De todo o Ceo, por roſtos de alabaſtro
Se vão todas ao duque de Alencastro.

Era eſte Ingres potente, & militara
Cos Portugueſes ja contra Castella,
Onde as forças magnanimas prouara
Dos companheiros, & benigna eſtrella?
Não menos neſta terra eſprimentara
Namorados affeitos, quando nella
A filha vio, que tanto o peito doma
Do forte Rey, que por molher a toma.


Eſte que ſocorrer lhe não queria,
Por não cauſar diſcordias inteſtinas
Lhe diz, quando o direito pretendia
Do reino la das terras Iberinas,
Nos Luſitanos vi tanta ouſadia,
Tanto primor, & partes tão diuinas,
Que elles ſos poderião, ſe não erro
Suſtentar voſſa parte a fogo & ferro.

E ſe agrauadas damas ſois ſeruidas,
Por vos lhe mandarei embaixadores,
Que por cartas diſcretas & polidas,
De voſſo agrauo os fação ſabedores:
Tambem por voſſa parte encarecidas
Com palauras dafagos & damores,
Lhe ſejão voſſas lagrimas, que eu creyo
Que ali terees ſocorro & forte eſteyo.

Destarte as aconſelha o Duque experto,
E logo lhe nomea doze fortes,
E porque cada dama hum tenha certo,
Lhe manda que ſobrelles lancem ſortes,
Que ellas ſo doze ſam: & deſcuberto
Qual a qual tem caida das conſortes,
Cadhũa eſcreue ao ſeu por varios modos,
E todas a ſeu Rey, & o Duque a todos.


Ia chega a Portugal o menſageiro,
Toda a corte aluoroça a nouidade,
Quiſera o Rey ſublime ſer primeiro,
Mas não lho ſoffre a Regia Mageſtade:
Qualquer dos corteſaõs auentureiro
Deſeja ſer, com feruida vontade,
E ſo fica por bemauenturado,
Quem ja vem pello Duque nomeado.

La na leal cidade, donde teue
Origem (como he fama) o nome eterno
De Portugal, armar madeiro leue
Manda o que tem o leme do gouerno:
Apercebem ſe os doze em tempo breue
Darmas, & roupas de vſo mais moderno,
De elmos, cimeras, letras, & primores
Caualos, & Concertos de mil cores.

Ia do ſeu Rey tomado tem licença
Pera partir do Douro celebrado,
Aqueles, que eſcolhidos por ſentença
Forão do Duque Ingles eſprimentado:
Não ha na companhia differença
De caualeiro, destro, ou esforçado:
Mas hum ſo, que Magriço ſe dizia
Deſtarte fala aa forte companhia,


Fortiſsimos conſocios, eu deſejo
A muito ja de andar terras estranhas,
Por ver mais agoas, que as do Douro & Tejo,
Varias gentes, & leis, & varias manhas:
Agora que aparelho certo vejo,
(Pois que do mundo as couſas ſam tamanhas)
Quero ſe me deixais, ir ſò por terra,
Porque eu ſerey conuoſco em Inglaterra.

E quando caſo for, que eu impedido
Por quem das couſas he vltima linha,
Não for com voſco ao prazo instituido,
Pouca falta vos faz a falta minha:
Todos por mi fareis o que he diuido:
Mas ſe a verdade o ſprito me adiuinha,
Rios, montes, fortuna, ou ſua enueja,
Não farão que eu com voſco la não ſeja.

Aſsi diz & abraçados os amigos,
E tomada licença, em fim ſe parte,
Paſſa Lião, Caſtella vendo antigos
Lugares, que ganhara o patrio Marte:
Neuarra, cos altiſsimos perigos
Do Perineo, que Eſpanha & Galia parte:
Vistas em fim de França as couſas grandes,
No grande emperio foy parar de Frandes.


Ali chegado, ou foſſe caſo, ou manha,
Sem paſſar ſe deteue muitos dias,
Mas dos onze a illuſtriſsima companha
Cortão do mar do Norte as ondas frias:
Chegados de Inglaterra aa coſta eſtranha,
Pera Londres ja fazem todos vias,
Do Duque ſam com feſta agaſalhados,
E das damas ſeruidos, & amimados.

Chegaſſe o prazo, & dia aſinalado,
De entrar em campo ja cos doze Ingleſes,
Que pello Rey ja tinhão ſegurado,
Armanſe delmos, greuas, & de arneſes:
Ia as damas tem por ſi fulgente & armado
O Mauorte feroz dos Portugueſes,
Vestem ſe ellas de cores & de ſedas
De ouro, & de joyas mil, ricas, & ledas.

Mas aquella, a quem fora em ſorte dado
Magriço, que não vinha, com triſteza
Se veſte, por não ter quem nomeado
Seja ſeu caualeiro, nesta empreſa:
Bem que os onze apregoão, que acabado
Sera o negocio aſsi na corte Ingleſa,
Que as damas vencedoras ſe conheção
Poſto que dous & tres dos ſeus falleção.


Ia num ſublime & pubrico theatro
Se aſſenta o Rey Ingles com toda a corte,
Eſtauão tres & tres, & quatro & quatro,
Bem como a cada qual coubera em ſorte:
Não ſam vistos do Sol do Tejo ao Batro,
De força, esforço, & danimo mais forte,
Outros doze ſayr como os Ingleſes
No campo, contra os onze Portugueſes.

Maſtigão os caualos escumando
Os aureos freos, com feroz ſembrante,
Estaua o Sol nas armas rutilando,
Como em criſtal, ou rigido diamante:
Mas enxergaſe num & noutro bando
Partido deſigoal & diſſonante
Dos onze contra os doze: quando a gente
Começa a aluoroçar ſe geralmente.

Verão todos o rosto aonde auia
A cauſa principal do rebuliço,
Eis entra hum caualeiro, que trazia
Armas, caualo, ao bellico ſeruiço.
Ao Rey & aas damas fala, & logo ſe hia
Pera os onze, que eſte era o gram Magriço,
Abraça os companheiros como amigos,
A quem não fata certo nos perigos.


A dama como ouuio, que este era aquelle,
Que vinha a defender ſeu nome, & fama,
Se alegra, & veſte ali do animal de Hele,
Que a gente bruta mais que vertude ama:
Ia dão ſinal, & o ſom da tuba impelle
Os belicoſos animos, que inflama,
Picão deſporas, largão redeas logo
Abaxão lanças, fere a terra fogo.

Dos caualos o estrepito parece
Que faz, que o chão debaixo todo treme,
O coração no peito, que estremece
De quem os olha, ſe aluoroça, & teme:
Qual do caualo voa, que não dece,
Qual co caualo em terra dando, geme,
Qual vermelhas as armas faz de brancas,
Qual cos penachos do elmo açouta as ancas.

Algum dali tomou perpetuo ſono,
E fez da vida ao fim breue interualo,
Correndo algum cauallo vay ſem dono,
E noutra parte o dono ſem caualo:
Cae a ſoberba Ingleſa de ſeu trono,
Que dous ou tres ja fora vão do valo,
Os que de eſpada vem fazer batalha,
Mais achão ja que arnes, eſcudo, & malha.


Gastar palauras em contar eſtremos
De golpes feros, cruas eſtocadas,
He deſſes gaſtadores, que ſabemos
Maos do tempo, com fabulas ſonhadas:
Baſta por fim do caſo, que entendemos
Que com finezas altas & affamadas,
Cos noſſos fica a palma da victoria,
E as damas vencedoras, & com gloria.

Recolhe o Duque os doze vencedores
Nos ſeus paços, com feſtas & alegria,
Cozinheiros occupa, & caçadores
Das damas a fermoſa companhia,
Que querem dar aos ſeus libertadores
Banquetes mil, cada hora, & cada dia,
Em quanto ſe detem em Inglaterra,
Ate tornar aa doce & chara terra.

Mas dizem que com tudo o gram Magriço
Deſejoſo de ver as couſas grandes,
La ſe deixou ficar, onde hum ſeruiço
Notauel aa condeſſa fez de Frandes:
E como quem não era ja nouiço
Em todo trance, onde tu Marte mandes,
Hum Frances mata em campo, que o deſtino
La teue de Torcato & de Coruino.


Outro tambem dos doze em Alemanha
Se lança, & teue hum fero deſafio
Cum Germano enganoſo, que com manha
Não diuida o quis pòr no eſtremo fio:
Contando aſsi Veloſo, ja a companha
Lhe pede, que não faça tal deſuio
Do caſo de Magriço, & vencimento
Nem deixe o de Alemanha em eſquecimento.

Mas neste paſſo aſsi promptos eſtando,
Eis o meſtre, que olhando os ares anda,
O apito toca, acordão deſpertando
Os marinheiros dhũa & doutra banda:
E porque o vento vinha refreſcando,
Os traquetes das gaueas tomar manda,
Alerta, diſſe, estay, que o vento crece
Daquella nuuem negra que aparece.

Não erão os traquetes bem tomados,
Quando dà a grande & ſubita procella,
Amaina, diſſe o meſtre a grandes brados
Amaina, diſſe, amaina a grande vella,
Não eſperão os ventos indinados
Que amainaſſem, mas juntos dando nella,
Em pedaços a fazem, cum ruido
Que o mundo pareceo ſer deſtruydo.


O ceo fere com gritos niſto a gente,
Cum ſubito temor, & deſacordo,
Que no romper da vela a Nao pendente
Toma gram ſuma dagoa pello bordo,
Alija, diſſe o meſtre, rijamente,
Alija tudo ao mar, não falte acordo,
Vão outros dar a bomba não ceſſando,
Aa bomba que nos imos alagando.

Correm logo os ſoldados animoſos
A dar aa bomba, & tanto que chegarão,
Os balanços, que os mares temeroſos
Derão aa Nao, num bordo os derribarão:
Tres marinheiros duros, & forçoſos,
A menear o leme não baſtarão,
Talhas lhe punhão dhũa & doutra parte
Se aproueitar dos homens força & arte.

Os ventos erão tais, que não poderão
Moſtrar mais força dimpeto cruel,
Se pera derribar então vierão
A fortiſsima torre de Babel:
Nos altiſsimos mares, que crecerão,
A pequena grandura dhum batel,
Moſtra a poſſante nao, que moue eſpanto
Vendo que ſe ſoſtem nas ondas tanto.


A nao grande, em que vay Paulo da Gama,
Quebrada leua o maſto pello meyo,
Quaſi toda alagada: a gente chama
Aquelle que a ſaluar o mundo veyo:
Não menos gritos vãos ao ar derrama
Toda a Nao de Coelho, com receyo,
Com quanto teue o meſtre tanto tento
Que primeiro amainou que deſſe o vento:

Agora ſobre as nuuens os ſubião
As ondas de Neptuno furibundo,
Agora a ver parece que decião
As intimas entranhas do profundo.
Noto, Auſtro, Boreas, Aquilo querião
Arruinar a machina do mundo,
A noite negra & feya ſe alumia,
Cos rayos, em que o Polo todo ardia.

As Alcioneas aues triste canto
Iunto da costa braua leuantarão,
Lembrando ſe de ſeu paſſado pranto,
Que as furioſas agoas lhe cauſarão:
Os Delfins namorados entre tanto
La nas couas maritimas entrarão,
Fugindo aa tempeſtade, & ventos duros
Que nem no fundo os deixa eſtar ſeguros


Nunca tam viuos rayos fabricou
Contra a fera ſoberba dos Gigantes,
O gram ferreiro ſordido, que obrou
Do enteado as armas radiantes:
Nem tanto o gram Tonante arremeſſou
Relampados ao mundo fulminantes,
No gram diluuio, donde ſos viuerão
Os dous que em gente as pedras conuerterão.

Quantos montes então, que derribarão
As ondas que batião denodadas,
Quantas aruores velhas arrancarão
Do vento brauo as furias indinadas:
As forçoſas raizes não cuidarão
Que nunca pera o ceo foſſem viradas,
Nem as fundas arêas que podeſſem
Tanto os mares que encima as reuolueſſem.

Vendo Vaſco da Gama que tam perto
Do fim de ſeu deſejo ſe perdia,
Vendo ora o mar ate o inferno aberto,
Ora com noua furia ao ceo ſubia,
Confuſo de temor, da vida incerto,
Onde nenhum remedio lhe valia,
Chama aquelle remedio ſancto & forte
Que o impoſsibil pode, desta ſorte.


Diuina guarda, angelica, celeſte,
Que os ceos, o mar & terra ſenhoreds,
Tu que a todo iſrael refugio deſte
Por metade das agoas Eritreas:
Tu que liuraſte Paulo & defendeſte
Das Syrtes arenoſas & ondas feas,
E guardaste cos filhos o ſegundo
Pouoador do alagado & vacuo mundo.

Se tenho nouos medos perigoſos
Doutra Scylla & Caribdis ja paſſados,
Outras Syrtes, & baxos arenoſos,
Outros Acroceraunios infamados,
No fim de tantos caſos trabalhoſos,
Por que ſomos de ti deſemparados,
Se eſte noſſo trabalho não te offende,
Mas antes teu ſeruiço ſo pretende?

O ditoſos aquelles que puderão
Entre as agudas lanças Affricanas
Morrer, em quanto fortes ſostiuerão
A ſancta Fe, nas terras Mauritanas:
De quem feitos illuſtres ſe ſouberão,
De quem ſicão memorias ſoberanas,
De quem ſe ganha a vida com perdella,
Doce fazendo a morte as honras della.


Aſsi dizendo os ventos que lutauão,
Como touros indomitos bramando,
Mais & mais a tormenta acrecentauão,
Pella miuda enxarcia aſſuuiando.
Relampados medonhos não ceſſauão,
Feros trouoẽs que vem repreſentando
Cair o ceo dos exos ſobre a terra,
Cenſigo os elementos terem guerra.

Mas ja a amoroſa ſtrela ſcintilaua
Diante do Sol claro, no Orizonte
Menſageira do dia, & viſitaua
A terra, & o largo mar, com leda fronte:
A deoſa que nos ceos a gouernaua,
De quem foge o enſiſero Orionte,
Tanto que o mar, & a chara armada vira,
Tocada junto foy de medo, & de ira.

Estas obras de Baco ſam por certo,
Diſſe, mas não ſerâ, que auante leue
Tão danada tenção, que deſcuberto
Me ſera ſempre o mal a que ſe atreue,
Iſto dizendo, dece ao mar aberto,
No caminho gaſtando eſpaço breue,
Em quanto manda as nimphas amoroſas
Grinaldas nas cabeças por de roſas.


Grinaldas manda por de varias cores
Sobre cabellos louros a porfia,
Quem não dirâ, que nacem roxas flores
Sobre ouro natural, que amor infia:
Abrandar determina por amores
Dos ventos a nojoſa companhia,
Moſtrandolhe as amadas Nimphas bellas,
Que mais fermoſas vinhão que as eſtrellas.

Aſsi foy, porque tanto que chegarão
A viſta dellas, logo lhe falecem
As forças com que dantes pellejarão,
E ja como rendidos lhe obedecem.
Os pês & mãos, parece, que lhe atarão
Os cabellos que os rayos eſcurecem,
A Boreas, que do peito mais queria,
Aſsi diſſe a belliſsima Oritia.

Não creas, fero Boreas, que te creyo
Que me tiueſte nunca amor constante,
Que brandura he de amor mais certo arreyo,
E não conuem furor a firme amante:
Se ja não poẽs a tanta inſania freyo,
Não eſperes de mi daqui em diante,
Que poſſa mais amarte, mas temerte,
Que amor contigo, em medo ſe conuerte.


Aſsi meſmo a fermoſa Galatea
Dizia ao fero Noto, que bem ſabe
Que dias ha que em vella ſe recrea,
E bem crê que com elle tudo acabe,
Não ſabe o brauo tanto bem ſe o crea,
Que o coração no peito lhe não cabe,
De contente de ver que a dama o manda,
Pouco cuida que faz ſe logo abranda.

Deſta maneira as outras amanſauão
Subitamente os outros amadores,
E logo aa linda Venus ſe entregauão,
Amanſadas as iras & os furores,
Ella lhe prometeo vendo que amauão.
Sempiterno fauor em ſeus amores,
Nas bellas mãos tomandelhe omenagem
De lhe ſerem leais eſta viagem.

Ia a menham clara daua nos outeiros,
Por onde o Ganges murmurando ſoa,
Quando da celſa gauea os marinheiros
Enxergarão terra alta pella proa,
Ia fora de tormenta, & dos primeiros
Mares, o temor vão do peito voa,
Diſſe alegre o Piloto Melindano,
Teria he de Calccu, ſe não me engano.


Eſta he por certo a terra que buſcais
Da verdadeira India, que aparece
E ſe do mundo mais não deſejais,
Voſſo trabalho longo aqui fenece:
Soſſrer aqui não pode o Gama mais,
De ledo em ver que a terra ſe conhece,
Os geolhos no chão, as mãos ao ceo
A merce grande a Deos agardeceo.

As graças a Deos daua, & razão tinha
Que não ſomente a terra lhe moſtraua,
Que com tanto temor buſcando vinha
Por quem tanto trabalho eſprimentaua,
Mas via ſe liurado tão aſinha
Da morte, que no mar lhe aparelhaua
O vento duro, feruido, & medonho,
Como quem deſpertou de horrendo ſonho.

Por meyo deſtes horridos parigos
Deſtes trabalhos graues & temores,
Alcanção os que ſam de fama amigos
As honras immortais, & graos mayores:
Não encoſtados ſempre nos antigos
Troncos nobres de ſeus anteceſſores,
Não nos leitos dourados, entre os finos
Animais de Moſcouia Zebellinos.


Não cos manjares nouos & exquiſitos,
Não cos paſſeos molles & oucioſos,
Não cos varios deleites & infinitos
Que afeminão os peitos generoſos:
Não cos nunca vencidos apetitos
Que a Fortuna tem ſempre tão mimoſos,
Que não ſoffre a nenhum que o paſſo mude
Pera algũa obra heroica de virtude.

Mas com buſcar co ſeu forçoſo braço
As honras, que elle chame proprias ſuas,
Vigiando, & veſtindo o forjado aço
Soffrendo tempeſtades & ondas cruas:
Vencendo os torpes frios no regaço
Do Sul, & regioẽs de abrigo nuas,
Engulindo o corrupto mantimento
Temperado com hum arduo ſofrimento.

E com forçar o rosto que ſe enfia,
A parecer ſeguro, ledo, inteiro,
Pera o pilouro ardente, que aſſouia
E leua a perna, ou braço ao companheiro:
Destarte o peito hum calo honroſo cria
Deſprezador das honras, & dinheiro,
Das honras, & dinheiro, que a venntura
Forjou, & não vertude juſta, & dura.

Deſtarte ſe eſclarece o entendimento,
Que experiencias fazem repouſado,
E fica vendo, como de alto aſſento,
O baxo tracto humano embaraçado,
Eſte onde tiuer força o regimento
Direito, & nam de affeitos occupado,
Subirà (como deue) a illuſtre mando,
Contra vontade ſua, & não rogando.


FIM.