Os Retirantes/I/XII

Os Retirantes por José do Patrocínio
Primeira parte: a paróquia abandonada, Capítulo XII


O serviço dos socorros tornou-se a preocupação de Paula. Passava os dias assistindo ao corte das rações, distribuindo-as, e visitando as casas das pessoas mais abastadas para pedir-lhes consentissem que as filhas se ocupassem do socorro aos enfermos e às crianças. Tinha perdido em parte os modos rudes para com os retirantes, que já subiam a mais de quinhentos, e era com afabilidade que tratava os desvalidos do povoado.

Somente alguns malévolos resmungavam de uma providência que foi tomada por Sua Reverendíssima, e era que os socorros distribuídos às mulheres deviam ser recebidos em sua casa.

Mas essa murmuração dissolveu-se no seu próprio eco; a pureza das intenções do vigário ressaltava para o juízo geral do povoado, da corporação de virgens que ele havia formado.

— Que tal está o serviço? - perguntava Paula, ancho e satisfeito. - Pode haver tão bom, hein? Porém melhor há de ser difícil.

— Nem tão bom - respondiam-lhe sinceramente os paroquianos.

Era merecido o elogio: todas as semanas um dos comissários estava à porta da despensa, para ouvir as queixas das socorridas e assistir à distribuição das rações, proporcionais ao número das pessoas de família. À tarde o comissário corria o interior do Engenho. Então já os habitantes tinham transbordado pelos arredores. Uma porção de palhoças alinhadas junto às suas faces, constituíam o centro de um núcleo de povoação a que o vigário chamou cidade da miséria. O comissário visitava também as ruas, no seu trabalho vespertino, e parava de porta em porta para atender os queixosos.

A corporação das virgens encarregava-se de ir à casa do vigário receber os socorros para as crianças e os enfermos, as roupas para as mulheres, e à tarde, ia também à “cidade” examinar se tinham cumprido as suas prescrições.

Paula não se furtava aos mais árduos trabalhos do seu ministério; dizia missa todas as manhãs e à tarde levava o Sacramento aos moribundos. Todos os dias dobrava de dedicação e com este exemplo mantinha o pessoal no entusiasmo dos primeiros dias. Logo a excelência do serviço fez o povoado inteiro julgar que tinha sido injusto com o seu pároco, e dar razão ao professor Queiroz, que o apregoava como homem superior. Toda a severidade dos bons tempos mudou-a ele em cordura para os desgraçados, em dedicação temerária mesmo, porque passava horas nos cubículos fétidos dos disentéricos e à cabeceira dos doentes de febre, enfim, nos próprios focos da epidemia, que prosseguia, grassando com intensidade.

A satisfação era, pois, geral, a excetuar-se o velho Marciano, que entendia não estar pago do acréscimo do serviço com os gêneros que recebia da comissão, para alimentar a família. Passou dias azedando silenciosamente, até que estourou em queixas ao próprio sr. vigário.

O vigário desrevestia-se depois da missa e, ao desapertar a alva, notou que estava ficando magro.

— E isto é Vossa Mercê, que pode passar bem - resmungou a sacristão; - imagine os pobres cristãos que nada tem...

— E quais são eles?

— Eu há muitos dias que ando para dizer ao sr. vigário: a minha vida não pode continuar assim.

— Você fala de barriga cheia, meu caro - disse Paula, batendo-lhe no ombro.

Estava já em batina e recostou-se pachorrentamente na alta cadeira de espaldar, com um joelho apoiado na beirada da mesa. Mandou fechar a porta da sacristia e pôs-se a enrolar um cigarro.

O Cristo parecia ter voltada a cabeça para não vê-los.

— Então o que é que lhe falta? Peça por boca e não se zangue.

Ó velho sacristão desenrolou a meada das suas queixas. Faltava-lhe principalmente o sossego. A Mundica passava os dias a maldizer-se e a arrepelar a irmã, a Amelinha, porque, dizia ela, falava agora muito no sr. vigário: era um inferno. Mundica estava sempre a queixar-se, e ultimamente agravara-se o seu mau humor, porque o sr. vigário havia já seis dias não se tinha dignado ir àquela choupana. O sr. vigário bem devia saber o que são raparigas quando estimam deveras. Levava a falar em desprezo, em ingratidão, em mil coisas, e nem a própria autoridade paterna era por ela respeitada.

— Ora, já Vossa Mercê avalia - concluiu ele -, que não é possível continuar a viver assim; não tenho sossego, e nem ao menos tiro algum interesse.

— Mas você tem gênero para a sua gente, homem, e pode guardar o que ganha.

— Vossa Mercê diz bem; mas não é uma cuia de farinha um taquinho de carne o que dá para o futuro dos filhos.

— Ah! você quer então contos de réis? Não os tenho infelizmente.

— Mas Vossa Mercê podia ao menos aumentar-me o ordenado.

— Não se adiante tanto, Marciano - respondeu o vigário.

E levantando-se acrescentou:

— Quando for tempo terá, mas por agora diga a sua filha que não estou para a aturar.

Bateram neste momento à porta, e o vigário, que se ia retirar, abriu-a com precipitação..

— Sou eu que vim saber a causa da demora de meu pai; nós tínhamos ficado no corpo da igreja, à espera - murmurou Mundica enleada.

A humildade daquela voz, comparada com os arrebatamentos descritos pelo sacristão, dava a medida da afeição que a rapariga votava a Paula; a utilidade do pretexto realçava-lhe a veemência da paixão que a fazia imponente de dedicação, a melancolia que lhe envernizava de tons de santidade a figura escultural, duplicava-lhe a grandeza do sacrifício.

Paula estremeceu, como se tivesse diante de si um juiz inexorável; mas tomando-lhe a mão carinhosamente, aproximou-a de si, e fitou-a compassivo.

— Vá, pode ir - disse Marciano sorrindo maliciosamente; - diga às outras que lá vou ter em casa.

Mundica tentou retirar-se, porém, o vigário deteve-a com uma branda pressão, e dirigindo-se a Marciano: — Vá você apagar as velas do altar - disse -, enquanto eu ouço Mundica repetir as queixas de que você me falou.

O velho saiu com a impassibilidade da desfaçatez, e o vigário, fechando de novo a porta, perguntou a Mundica:

— Tem tido muita raiva de mim?

A moça não respondeu; limitou-se a olhá-lo com os seus negros olhos úmidos e a sorrir; mas como Paula tentasse colhê-la nos braços:

— Olhe - murmurou.

E estendeu o indicador apontando.

O Cristo, muito lívido, parecia, de envergonhado, ter pendido mais a cabeça sobre o peito ensangüentado. Paula recuou, como que impelido por uma força invisível, e Mundica, correndo à porta e destrancando-a murmurou, acenando-lhe com os dedos:

— Até logo, sim? Eu espero!

Mas o vigário parecia não ver a onda lúbrica emprocelada nos olhos negros de Mundica. Continuou a fitar atentamente o Cristo, com a prevenção de quem espera ser agredido. Dir-se-ia que ele o via descer da cruz e, ameaçador como as visões dos pesadelos, caminhar direito a si para fazê-lo estalar entre os braços, à semelhança dos demônios exorcismados.

Mundica por sua vez embevecia-se na contemplação do seu ídolo. Paula não foi o seu primeiro amor, nem foi ele quem, pela primeira vez, fê-la curtir longas ansiedades suspiradas ao pôr-do-sol, ou ao luar sob as árvores da entrada de casa. Mas com certeza couberam-lhe todas as veemências daquele temperamento selvagem, toda a pletora daquela voluptuosidade silena, e era com elas que Mundica o encarava.

— Vamos, menina, são horas, - resmungou no corredor o velho Marciano, fazendo retinir a cambada de chaves; - as outras lá estão à espera.

Mundica afastou-se com os olhos baixos; o sacristão entrou arrastando os chinelos e, olhando de soslaio para o pároco, foi colocar a um canto o caniço de que se servia para apagar as velas. Voltou para junto do vigário, colocou as mãos nas ilhargas, e sorrindo tranqüilamente:

— Há muito tempo - disse - ando com vontade de falar com Vossa Mercê, para mandar fazer um nicho com uma cortina para aquela imagem. O que acha?

— Não vale a pena - respondeu Paula distraidamente.

— Sempre era mais bonito e fazia melhor vista; eu mesmo o faria.

— É uma imagem velha e sem valor. Temos outras necessidades.

— Pois eu, no caso do sr. vigário, já havia tomado esta providência; podia ficar mais à vontade, sem temor do olhar de Deus.

— Aquele - exclamou Paula escarninho - não faz medo; é um olhar de verniz. Vou almoçar.

E saiu deixando após si, embasbacado e imóvel, o velho Marciano.

Mundica retirava-se já com as irmãs e a mãe decrépita, que tossia muito a sua asma, quando Paula assomou na capela-mor. A família, ao vê-lo, parou e foi em companhia dele que deixou a igreja.

Iam já em meio da praça, quando à janela da casa de Queiroz apareceu o busto sedutor de Eulália, vestida de branco, toucada a cabeleira negra em uma chuva de tranças, que lembravam uma pieuvre enorme agarrada no alto da cabeça a apertar-lhe o colo e as espáduas com os seus poderosos tentáculos.

— Lá está a Eulália - disse Mundica.

E pôs-se a acenar com o lenço.

Acompanharam-na todos, mas nem por isso Eulália correspondeu ao cumprimento.

— Está distraída - observou Paula.

— Ou arreliada - objetou Mundica; o sr. vigário vem nos acompanhando...

— Qual arreliada! Está olhando para outro lado.

— Quando não se quer ver alguém, há sempre desculpa.

E foram conversando até a porta de casa, Paula defendendo e Mundica acerando insinuações contra Eulália.

— Então até logo, sr. vigário.

— Não sei ao certo, filha, tenho tanto que fazer!

— É - respondeu Mundica a morder os lábios -, os pobres retirantes... O melhor é não vir mais ver-nos, para não desgostar...

— Seja feita a sua vontade; eu danço conforme tocam.

E afastou-se em face da perplexidade de Mundica.

— Tu hás de pagar-me, sirigaita - resmungou ela; - andas a passar por santa? Eu te mostro.