Os Retirantes/II/I

Os Retirantes por José do Patrocínio
Segunda parte: a retirada, Capítulo I


Em outubro de 1877 a improbidade ostentava-se já na província com o desavergonhamento dos cães vadios e havia comissários do governo que podiam zombar da calamidade, que torturava a população, porque tinham-se locupletado bastante para atravessá-la.

Foi a certeza de tais abusos o que levou o presidente a escassear as remessas de gênero e provimentos de dinheiro para o interior, visto como a impossibilidade da fiscalização fazia com que eles quase nada aproveitassem aos desgraçados.

A conseqüência da medida foi incomensuravelmente desastrada. A fome deu alarma nas cidades, vilas e povoados, como nos mais humildes casais esparsos pelos tabuleiros e pelas charnecas do sertão, e o povo, rápido e ruidoso como a enxurrada, afluiu às estradas em demanda do litoral e da sede do governo.

Nessa corrente geral entraram os destroços da paróquia de B. V.

A retirada efetuou-se por um semicírculo em cuja curva tinha por extremidades as cidades de Fortaleza e de Aracati. Poucos, porém, foram aqueles que se dirigiram para a segunda cidade da província, porque as relações estreitas, mantidas entre ela e a paróquia, apontavam-na como um lugar onde os retirantes pouco melhoravam de sorte. Fortaleza foi o alvo geral.

Cerca de duas léguas de B. V. uma vendola espiava sobre a ondulação da estrada, que, conduzindo a vários pontos povoados comunicava a pequena paróquia com a cidade de Quixeramobim, a vila de Quixadá, a cidade de Baturité e, finalmente, com a capital.

A vendola, embora muito conhecida, havia uns dois meses chamava a atenção dos transeuntes, que se dirigiam ao velho vendeiro gabando-lhe o fornecimento.

— Você foi quem aproveitou com a seca, velho Inácio; lavou a cara do negócio.

— Qual? Atamanquei isto; como sempre há maior feira, deu-me na vontade.

De fato, a vendola parecia ter tomado para modelo as melhores da cidade, e o seu fornecimento bastava para satisfazer todas as necessidades mais urgentes dos viajantes. O movimento aí era também digno de nota; havia tardes em que mais de 20 cavaleiros desencilhavam os seus animais sob a meia água da frente e desciam as cargas para pousar.

Uma circunstância, que passou despercebida para todos, foi a coincidência dos assaltos freqüentes dos Viriatos, por extensão de oito léguas, com a prosperidade do velho Inácio.

Esses bandidos, que vestidos de pele e ferozes como os touros barbatões, levavam o espanto e a miséria onde quer que farejavam algum dinheiro ou provisão de gêneros; que atacavam os comboios e assassinavam os seus condutores, poupavam entretanto a vendola, apesar da temeridade do velho Inácio, que escolheu justamente uma fase anormal para dar mostras de abastança.

— Você tem algum patuá que o defenda, homem? Olhe que o tempo não está para fazer arreganhos de riqueza.

— Tenho a graça de Deus, que é quem defende os pobres.

— A desgraça não escolhe pobres nem ricos quando quer ferir: tome cuidado, velho Inácio.

O vendeiro encolhia os ombros desassombradamente e respondia quase sempre:

— Vocês sonharam aí com os Viriatos e andam a dar com a língua nos dentes sem saber o que dizem. Por aqui não os há, descansem, porque se os houvesse havia muita gente que não seria mais orgulhosa.

— E os roubos?

— Com as estradas sempre atulhadas de gente, como pôr-se a culpa neste ou naquele?

No domingo tão fatal ao povoado, como era costume encheu-se a vendola; mais de 30 cavaleiros, chegados em grupos, apearam-se e puseram-se a beber enquanto velho Inácio dava ordens para que se apressasse o almoço.

Três cavaleiros singulares chegaram por último quando já sob a meia água os pratos de louça branca estavam estendidos em frente aos fregueses de Inácio.

— Vivam o Onça e o Diabrete!

— Viva o Desempeno! - bradaram todos indo ao encontro dos recém-chegados.

— Boa súcia - respondeu o Onça -, hoje não se faz nada, o dia é para a folia.

— Veja respondeu um dos do grupo desembainhando a faca que trazia sob a véstia -, esta ainda não riu hoje, está tão séria como ontem.

— Nem estas - acrescentaram os outros puxando igualmente das suas facas; - olhe, elas não se riem.

— Cá a minha - ponderou um rapazola de olhar expressivo -, ainda nem lavou a cara; está com a ramela de ontem.

Mostrou então a faca ainda tinta de sangue, e, chegando-a às narinas, acrescentou:

— Isto cheira a bom dinheiro; só a prata velha; quem me dera apanhá-la!

— Bom, velho Inácio, nós também temos barriga; apronte-nos lá para um canto algum bocado.

O Onça e os outros dois recém-chegados apearam-se por sua vez e, atravessando a vendola, isolaram-se da massa dos gárrulos companheiros.

— Lá vão para o conchavo - começaram cá fora a murmurar.

— Eles são os que põem e dispõem das nossas vidas e sem nos dar satisfação.

— Ordem de cima.

— Ordem do diabo; nós não somos animais para não ser ouvidos, nem cheirados.

— Mas já nos veio mal por eles? Não tem tino?

— Ora qual; andam por aqui e nem ao menos a gente sabe com quem fala; é ir para ali e para acolá, mais nada.

— É sempre com aquelas máscaras.

— Isto é o que me aborrece.

Os três recém-chegados, uma vez fora das vistas do velho Inácio e dos seus hóspedes, desafivelaram as máscaras, que tanto incômodo causavam aos que os seguiam. Estas máscaras eram uns bonés de couro curtido, que escondiam-lhes as cabeças até os supercílios e dos quais caía uma asa que só deixavam-lhes a descoberto os olhos, o nariz e a boca.

Esses três homens, desconhecidos para todos os outros, eram Virgulino, o Feiticeiro e seu filho, o primeiro conhecido por Desempeno, os dois chamados o Onça e o Diabrete.

— Então quando chegará o dia da paróquia? - perguntou Virgolino. - Daqui lá é um pulo.

— Não se apresse; deixe aquela gente não contar mais com a missa; por ora não há que fiar, pode estar à espera. Você sabe que o padre é fino.

— Isto há de ficar ainda no rol dos esquecidos.

— Não se afervente; por vir tarde não perderá, cobraremos velhos e novos.

— Pode-se entrar com os almoço?

— Já lá vai, é um instantinho, velho Inácio.

Os três colocaram de novo os bonés e o pequeno abriu a porta.

— Então para onde se atiram hoje? - perguntou o velho Inácio.

— Hoje é só alguma coisinha aí pela estrada, não há nada de maior, é dia de descanso.

— Eu no seu caso hoje não fazia nada; os rapazes lá fora estão-se alegrando muito...

— Pois diga-lhes que bebam à vontade e que depois sumam-se até de noite. Você estenda redes para nós.

O velho Inácio não fez a menor reflexão à ordem recebida, e os cavaleiros só demoraram o tempo indispensável para terminar o almoço.

O Onça e o Desempeno reataram a conversação, por entre as garfadas de quem traz bom apetite.

— Você não tem ninguém no povoado e por isso não lhe bate o coração; aposto que não se daria o mesmo, se deixasse mulher e filhos, parentes e amigos?

— Tudo isto nada vale, quando o homem não tem nada para dar-lhes. Eu vivi do veneno das cobras e hoje vivo do sangue dos homens, que é mais venenoso do que o dente das cascavéis. Por que vivo assim? Porque sou malvado, toda a gente, diz; mas ninguém sabe que eu sou pai e que errei de casa em casa sofrendo quanto o diabo enjeita para um dia ver a mulher morrer à míngua, sem ter ninguém que a viesse cuidar na hora do parto.

— Está bom, não falemos em tristezas: você avexa-se com elas demais e eu quase desacoroçôo da vida.

— Fique certo, Virgulino, de que eu não fui convidá-los para virem comigo, só para fazê-los bandidos dos Viriatos. Bandidos são todos os homens em certa hora da vida. Eu fui chamá-los para dar-lhes com que alimentar as suas famílias; tomamos aos que têm e não querem dar aos que morrem à fome. Os juizes e os ricos podem nos condenar; os pobres chamarão ao que fazemos igualar as necessidades.

— Mas há quem enriqueça com o que nós todos ganhamos.

— Há, mas dá-nos com que segurar o dia de amanhã.

— E os perigos por que passamos?

— Perigos há-os em toda a parte. O homem que trabalha pode cortar-se com a enxada e morrer; ser atravessado ou esmagado pela árvore que derrubou; ser mordido pela cobra, enrodilhada na moita, e morrer. O homem, que tem o ofício de roubar, não corre maior perigo do que a morte. Em que é ele diferente dos outros?

— Mas antes morrer pelos primeiros trabalhos; não se morre amaldiçoado.

— E o que importa a bênção ou maldição a quem morre? A terra come igualmente a todos, não rejeita os maus, como nós rejeitamos a comida mal feita.

— Bem, bem, à nossa saúde; eu não quero zangá-lo.

Beberam todos e o Diabrete, que não dera uma única palavra durante o diálogo, levantou-se para sair.

— Vá colocar-se ali perto, veja quem vem e onde estão os outros. Ninguém passe por aqui, sem que saibamos quem é.

O rapazinho afastou-se e os dois chefes de quadrilha foram deitar-se nas redes, que lhes armara o vendeiro num quarto vizinho.

— Desarreie os cavalos, ouviu? E peie-os aí por perto.

A venda silenciou e os dois chefes puseram-se a dormir descansados. A ousadia do viver aventuroso e celerado dos Viriatos mostrava-se em toda a sua plenitude nos modos, palavras e finalmente no descuido temerário do Onça. Percebia-se em toda a sua latitude a paixão com que os bandidos dos Cariris praticavam os crimes monstruosos, que apavoravam a memória da província. Dir-se-ia que esses facínoras eram feitos de lascas da cordilheira, tão duros e bárbaros eram nas suas correias, cujo rastro era a cinza do incêndio, ou o sangue do morticínio, quando algum ousado pretendia opor-se ao bom êxito dos seus assaltos. É que os sequazes, recrutados no mais horroroso da miséria, não tinham os corações virgens para as grandes dores, e pelo contrário, familiarizados com elas, pouco se impressionavam de vê-las reproduzidas em outros.

Com as mãos molhadas de sangue, ainda sentindo a voz das vítimas ecoar as últimas súplicas, dormiam sossegadamente como quem acaba de praticar uma boa ação. Embalava-os a maternidade bruta e lerda da ignorância.

— Então vai isto a emendar pés com cabeça? - gritou à porta do quarto o vendeiro. - Olhem que o sol já está cochilando.

— Eh! - bocejou o Onça espreguiçando-se. - Deixa-o ir; a noite é mais nossa amiga.

— Mas é preciso que a rapaziada não venha achá-los dormindo. Põe-se para aí a grazinar.

— Tem razão; há muita linguazinha que deve ser cortada - ponderou o Onça, - olhando fito para o vendeiro. - Não concorda, Inácio?

— Eu sei lá - respondeu o velho perturbado. - O que você manda é o que se faz.

— Acabam-se os falatórios.

— Ora, eles rosnam só, mas obedecem; deixa-os ao menos desafogar.

— Desafogam demais... Uma coisa, velho Inácio: não passou ninguém por aí?

— Nem viva alma.

— Os diabos têm faro.

— Mas se passasse era o mesmo, aqui não se pode fazer nada.

— Isto é o que se há de ver.

— Se houver alguma coisa descobre-se logo que esta venda não é minha. Já se murmura por vê-la assim.

— Eu sei o que faço - respondeu secamente o Onça, e levantando-se seguiu até a porta da vendola, onde quedou a olhar para as árvores semimortas.

Pouco depois da sua chegada aí, o Diabrete surgiu no terreiro e veio apressado parar em frente e falar-lhe.

— Meu pai, aí vem uma mulher.

— Sozinha?

— Sim, senhor.

— É alguma retirante...

— Pode ser, mas vem muito asseada. A toalha é muito alva.

— Melhor para ela, deixa-a passar em paz. Espreite para ver se não vem mais gente e venha para casa.

— Eu já vi que ela vem sozinha.

— Veja melhor, e se a mulher pedir alguma coisa, mande-a aqui ter comigo.

Cerca de meia hora depois, uma mulher com um vestido de cor muito viva, uma toalha alvíssima pendente da cabeça, andando vagarosamente, parava na estrada defronte da vendola e hesitava sobre se devia ou não chegar.

O Onça deu um assobio entre dentes, que servia de sinal a Virgulino, e ambos foram disfarçadamente ao encontro da transeunte.

Desde que relancearam os olhos sobre ela, os dois facínoras olharam-se surpreendidos, como se tivessem conhecido a mulher, cujo rosto se escondia quase todo sob a toalha. Virgulino, que sofreu com maior intensidade a impressão produzida pela fisionomia tristonha da transeunte, dirigiu-lhe a medo uma pergunta:

— Boa tarde. É mesmo deste lugar?

— Boa tarde - respondeu ela com uma voz muito fraca - sou sim, senhor, dali de B. V.

— E para onde vai?

— Para este mundo de Deus, até que encontre uma casa para trabalhar.

— Hoje, moça - interveio o Onça -, é difícil.

A transeunte estremeceu, como se no tom da voz do Onça houvesse alguma ameaça contra si, e só respondeu tristemente.

— Paciência!

— E onde vai dormir hoje?

— Debaixo das árvores - murmurou a infeliz. - Aí há sempre lugar para os pobres.

— Inácio - gritou Virgulino -, lá entre a sua gente há lugar para uma pessoa?

— Até para cinco.

— Então, moça, vá dormir lá na casa daquele homem. Sempre é mais abrigado.

A recém-chegada olhou surpreendida para os dois bandidos, cujas feições era impossível descobrir, ocultas como estavam sob as máscara de couro, e murmurou:

— Queiram perdoar-me; porém eu não posso ficar aqui, devo ir pousar mais longe; B. V. está ainda muito perto.

— Dentro desta casa é o mesmo que estar muito longe; ninguém, a não ser seu pai ou sua mãe, virá tirá-la daqui. Fique; veja que não poderá andar muito, é quase noite, e as estradas agora não são seguras.

— Infelizmente já não tenho pai, nem mãe - disse a recém-chegada; - e nada tenho a perder, não quero ficar.

— Fique - suplicou Virgulino; - lembra-se de uma noite, na paróquia, quando uma família de retirantes era posta para lado da igreja pelo vigário, porque um dos homens tinha uma cruz na testa... Lembra-se?

— Sim. Então ainda meu pai era vivo.

— Lembra-se que foi o velho Rogério Monte quem agasalhou os desgraçados?

— Também já não mora no povoado...

— Ao sair da igreja, quando todos resmungavam porque o velho era bom para com os infelizes, lembra-se das pessoas que abraçaram o velho, achando que ele fazia bem?

— Sim, lembro-me, e até de que os homens depois fugiram e abandonaram a sua família, o que tanto dó nos causou.

— Mas esqueceu-se de que os desgraçados não rejeitaram a casa de Rogério Monte, nem as esmolas que davam à família deles aquelas duas moças, que eram chamadas os anjos de Deus, Eulália e Irena. Fique na casa de um amigo, de um parente daquela pobre gente, D. Eulália!

A entoação do pedido era tão humilde e acariciadora que Eulália sentiu invadir-lhe uma confiança extrema pelos mascarados, que até então inspiravam-lhe medo. Olhou-os, enxugando as pálpebras arroxeadas, e murmurou com uma inflexão tristíssima:

— Eu sou muito desgraçada...

— Nós o compreendemos, d. Eulália - respondeu Virgulino; - não tenha medo, está entre infelizes. Venha conosco.

Seguiram os três para a puxada coberta de palha, que ficava para os fundos da vendola, e onde a família de Inácio recatava-se quanto era possível dos hóspedes estranhos, que freqüentemente vinham bater, alta noite, à porta, e incomodavam o velho para lhes dar pouco.

A bondade e expansão do acolhimento mantiveram a confiança de Eulália, que durante toda a noite só teve uma ocasião de sobressaltar-se com algumas frases que ouvira à voz roufenha do Onça. É que o chefe do grupo dos Viriatos, ao qual cabia a exploração das circunvizinhanças de B. V., conhecia bem os seus subalternos, e queria evitar que o mais leve desacato fosse ofender a mísera hospedada. Tomou então a precaução de postar de sentinela à porta o Diabrete, a quem incumbiu de guardar a entrada e repelir a quem ousasse tentá-la, depois de avisado.

"Quem serão estes homens mascarados?" pensou Eulália; mas, apesar do cuidado que a perturbava, e do leve temor que começava a sentir, adormeceu prostrada pela fadiga da jornada e da violência que fizera ao coração, abandonando a paróquia.

Durante a noite, por diversas vezes, o Onça e o Desempeno vieram cautelosamente escutar à porta da puxada, e, finalmente, certos de que Eulália dormia, foram acomodar-se.

— Bem - disse Virgulino deitando-se -, eles estão bêbados como uma cabra; não se levantam.

— E que o façam e vão para lá que o Diabrete não é de graças.

— Mas que diabo levaria esta moça a dar este passo?

— Coisas da vida; alguma criançada. Em tempo de fome tudo é possível; meu pai contava histórias muito tristes das outras secas.

O sono fez ponto final à conversação dos dois chefes, e a vendola mergulhou-se em profundo silêncio, até que a madrugada veio, com os seus assopros furtivos e a sua claridade iriante, descerrar as pálpebras dos sequazes dos Viriatos.

Virgulino, impaciente por saber notícias do povoado, andava como uma pêndula de uma para outra extremidade da puxada, enquanto o Onça distribuía os seus soldados para diversos pontos.

Eulália apareceu, enfim, à porta, com a sua toalha à cabeça, e despedindo-se da família de Inácio:

— Muito obrigada - murmurou ela ao ver os dois mascarados; - Deus lhes há de pagar tanta bondade.

— Já então? - perguntou o Onça. - É muito cedo, não pode partir.

— Devo - respondeu Eulália -, é preciso que eu parta; se bem pareça que não sentiram a minha partida - acrescentou baixinho.

Onça, depois de dar-lhe algumas provisões, deixou-a partir e limitou-se a apontá-la à família, proferindo uma frase poucas vezes usada por ele.

— Faz-me pena; é muito desgraçada.

Virgulino, porém, acompanhou a forasteira, visivelmente perturbado, e, quando já não podiam ser ouvidos pela família de Inácio e pelo Onça, lançou delicadamente a mão ao braço de Eulália e disse-lhe com voz submissa.

— Saiba que eu não a deixo ir assim; a senhora e sua amiga salvaram a vida dos meus parentes, eu hei de salvar a sua.

— Mas eu não tenho nada - respondeu Eulália forcejando para sorrir; - estou boa.

— Não tente disfarçar - continuou Virgulino -, é a morte o que a senhora deseja, para ocultar o seu erro, mas a senhora não pode matar o seu filho.

— Nem quero! - exclamou a infeliz - Quero salvá-lo, porque tenho sofrido muito.

— E como quer ir por essas estradas por onde nunca andou, sem recursos, sem um guia, sem ter ao menos uma rede onde durma? Escute, d. Eulália, volte para o povoado, eu vou acompanhá-la para junto dos seus; a senhora não sabe o que é viver fora da família, eu dou hoje tudo para viver com os meus filhos.

— Não posso voltar - soluçou Eulália; - os meus seriam os primeiros a desprezar-me; deixe-me ir, eu conto com a misericórdia de Deus.

A resolução que acentuou estas palavras era tão firme que Virgulino não ousou resistir. Puxou precipitadamente o guarda-peito e arrancou do cinturão uma bolsinha de couro, que obrigou Eulália a segurar.

— Daqui ao primeiro pouso são oito léguas - disse ele -, e lá já não terá ninguém por si. O desgraçado da noite da igreja pede-lhe que aceite esta bolsa, por amor de seus filhos. Esconda-a consigo.

Eulália afastou-se soluçando, e Virgulino, que a acompanhara com o olhar, murmurou por fim:

— Não morrerá, porque nós a seguiremos.

O Onça, que tinha seguido com o olhar o jogo da rápida cena da despedida, meneou a cabeça desconsoladamente e disse para o vendeiro:

— Lá está o Desempeno na sua choradeira da família. Decididamente, para a nossa vida, não há como homens desapegados de tudo.

— Eu não sei o que me bacureja que esse cabra ainda faz alguma.

— Não tenho receio - sorriu o Onça pegando no cabo da faca; - antes que ele meta a cara eu o limpo.

Eulália tinha-se afastado e Virgulino de pé, como que atraído pela retirante, olhava para o lado da estrada por onde ela seguia.

— Vou acordá-lo - disse o Onça, e, caminhando para o seu companheiro de assalto, foi bater-lhe no ombro, a resmungar. - Não sei o que parece isto! Você está aí como uma rapariga que vê partir o noivo.

— É que a pobre moça causou-me dó; lembra-se dela no povoado? Era a companheira da filha de Rogério Monte e tinha muita piedade por meus filhos.

— Está bem, já pagamos em parte a dívida; agora cuidemos da vida.

— Hoje? E para onde iremos se tudo isto espremido não dá uma gota de sumo?

— Isto é aqui; mas, se ganharmos algumas léguas a coisa muda de figura. Além disso você precisa distrair-se.

Virgulino abaixou os olhos e só depois de uma longa pausa durante a qual o Onça passeava de um para outro lado, respondeu a sorrir.

— Olhe que às vezes tenho medo de mim mesmo; aborreço a vida e dá-me vontade de fugir.

— Nós conhecemos o Ceará palmo a palmo e os nossos cavalos correm bem...

— Já o sabia - respondeu contrariado; - felizmente nunca hão de correr contra mim. Estou pronto para o que você quiser e até posso indicar um lugar, onde podemos fazer muito.

— Qual?

— As vizinhanças de Quixeramobim.

— É um queijo daqui lá...

— Mas é bom; vemos por ali os que navegam por essas estradas, e na volta apuramos algum resto de gado.

— Vou pensar - respondeu o Onça -, em todo o caso, amanhã sem falta temos serviço.

Virgulino não teve coragem para objetar, ainda que o seu fim, indicando a cidade de Quixeramobim, fosse acender no Onça o desejo de partir imediatamente, o que daria ensanchas de socorrer Eulália. Sabia que as suas reflexões podiam produzir até a anulação da boa vontade do chefe, que, se descobrisse o verdadeiro objetivo do conselho, não o receberia, só para que, mesmo indiretamente, nenhuma mulher tivesse relação com a sorte da quadrilha.

— Pois então falaremos logo; eu vou dar um giro e, se você consente, levo comigo o Diabrete.

"É algum pedido", pensou o Onça, e chamou pelo filho. "Sempre é bom ver o que estão fazendo por aí esses pacholas."

O Diabrete não se fez esperar, e ao lado de Virgulino pôs-se a caminho pela estrada, que se dirigia para o norte da província.

Durante algum tempo caminharam silenciosos, sugando nos toscos e negros cachimbos imensas baforadas. A vegetação depauperada, imóvel no meio da claridade da manhã, lembrava uma linha de sentinelas sonolentas, que os estivesse espreitando.

A estrada alva de areia e de seixos, subindo uma colina, parecia uma baioneta enristada cravando-se no coração do arvoredo amarelento.

— Como este lugar é triste - observou o Diabrete -, parece um cemitério, tão descampado para aquela banda, tão sem água, tão sem gente! Eu, se pudesse, partia hoje mesmo daqui.

— Também eu, mas só amanhã é que o seu pai há de decidir.

— E que não passe de amanhã, senão faz-se aí um falatório e vai tudo em poeira.

Virgulino sorriu da bravata do rapazola e, batendo-lhe amigavelmente no chapéu, exclamou:

— Voute! poltrão; você não tem nem a coragem de repetir estas palavras ao Onça.

— Mas juro em como não dormimos mais amanhã aqui. Aposto o que quiser, se duvida. Eu quero sair daqui, porque este lugar é mais feio que um olhar de cascavel, e eu quando quero, quero.

— Aposto - disse Virgulino que buscava pelo interesse estimular o filho do chefe; - se você o fizer tomar para os lados de Quixeramobim, tem uma faca de prata.

— Está feito - respondeu Diabrete, estendendo a mão a Virgulino; - apronte o bolso.

— Salvei-a - murmurou Virgulino; assim pudesse salvar também os meus filhos, não seria mais infeliz.

— Arrependeu-se? - perguntou o rapazinho, reparando tão silêncio do companheiro. - Ainda é tempo de desfazer.

— Nem pensava nisto; é outra coisa que está a fazer arderem-me os miolos.

Continuaram a caminhar silenciosamente, com a ligeireza própria dos cearenses. Mais de uma hora decorreu-se depois que saíram da vendola, e no entanto o Diabrete não sabia para onde iam e nem ousava perguntar, porque os soldados dos Viriatos iam para onde os mandavam os chefes, ou acompanhavam-nos sem saber, nem inquirir em que sítio deviam jogar com a vida no perigo dos noturnos assaltos.

— Vamos numa boa marcha - ponderou o pequeno; - neste andar, em menos de quatro dias, estávamos em Quixeramobim.

— O que me admira é não encontrar ninguém. Os marrecos foram para longe; talvez lhes cheirasse a dinheiro algum adormecido por aqui, e eles não lhe perderão a pista.

Continuaram a caminhar apressadamente, porém cerca de meia hora depois Virgulino ponderava a si mesmo:

“Não pode ser; Eulália não pode ter caminhado tanto, deve ter ficado por ai. Talvez se escondesse de vergonhada, quando sentiu os nossos passos”.

— Sabe o que mais? - disse alto. - Vamos almoçar, visto que não encontramos nenhum deles. Virão mais tarde.

— Isto é presa por força.

— Ou malandrice. Talvez se metessem pela capoeira e se pusessem a dormir.

— É bem possível.

— Vá você lá por aquela beirada, que eu vou por esta. Veja se descobre algum rasto.

Puseram-se a marginar a estrada, olhando fixamente para as folhas secas que atapetavam o chão, rendilhado da sombra do arvoredo.

— Creio que perdemos o nosso tempo - ponderou Virgulino -, não entra gente aqui há mais de um mês.

— Sempre é bom ver e assobiar para avisar alguém que esteja perto.

Os assobios cabalísticos da quadrilha ecoaram em vão por muitas vezes, e de espaço a espaço.

— Não estão, eu logo o vi! E Eulália - resmungou Virgulino - também desapareceu.

— Bem dizia eu que era bom procurar - exclamou o Diabrete, depois de dar umas centenas de passadas e acenando com a mão, acrescentou quando Virgulino aproximou-se:

— Por aqui arrastaram alguém.