Os Retirantes/II/V

Os Retirantes por José do Patrocínio
Segunda parte: a retirada, Capítulo V


Os bandidos, estacionados na vendola, foram uma providência para as desoladas famílias que deles se aproximaram.

Graças a eles a família Queiroz não experimentou, durante o seu trajeto até o pouso, os rigores da fome. Também dos lábios de d. Ana e das sobrinhas elevavam-se continuamente aos céus bênçãos aos desconhecidos, sempre que as míseras mulheres viam à beira da estrada cadáveres apodrecendo ao sol e servindo de pasto aos bandos de corvos.

No pouso, porém, as circunstâncias da desditosa família agravaram-se e a miséria, com todo o seu cortejo de horrores, confundiu-a com o resto da onda de retirantes transbordada da paróquia de B. V.

A princípio, o povoado em que se havia agora aglomerado a imunda enxurrada da desgraça, pareceu um oásis abençoado no meio do deserto. A comissão de socorros públicos tinha pelos desvalidos solicitude fraternal, e estes bendiziam o destino por lhes haver feito deparar com esse refúgio aos seus sofrimentos tremendos. Mas, pelo começo de novembro, o deserto veio suprimir este único abrigo e expulsar daí os miseráveis retirantes, vibrando contra eles os mais pavorosos flagelos.

Primeiro atirou sobre o lugar uma enfermidade semelhante à cólera e que trazia fatalmente a morte dentro em três dias, em seguida estancando as poucas fontes de que se abastecia a localidade.

À tarde, em torno das cacimbas, travavam-se lutas ardentes de que freqüentemente resultavam ferimentos e mortes. É que aqueles que conseguiam encher uma pequena vasilha tinham por esta ração o cuidado de um avaro pelo seu ouro.

O egoísmo da conservação mantinha a mais estreita espionagem para que houvesse igualdade na divisão, e não obtivesse tamina senão uma pessoa de cada família.

Durante as horas da maior aglomeração, entre todas as mulheres uma sobressaía a todas nas reclamações que de contínuo fazia. Não se contentava com se prover da sua ração, aí ficava de pé a denunciar e a exigir que se verificasse se este ou aquele não pertencia à família de um outro, que já havia obtido a sua porção de água.

— Vá com Deus, Mundica - diziam os circunstantes cansados de questões provocadas pela moça; - você gosta muito de tirar rusgas.

Mas a filha do sacristão Marciano continuava imperturbável até que todos se retiravam, levando a questionar todo o tempo da tamina.

A indisposição contra a Mundica era geral, mas ninguém ousava acentuá-la, porque murmurava-se que um dos membros da comissão de socorros tinha zelo demasiado pela moça e por todos os seus.

D. Ana sempre que voltava da fonte repetia às suas sobrinhas:

— Eu, se pudesse tirar água em outra parte, não iria mais à fonte. Aquela Mundica anda sempre a buscar ocasião de tomar vingança contra nós. E um precipício.

A penúria aumentava dia a dia, e crescia com ela o temor da honrada senhora que, para não dar pretexto à inspeção importuna de Mundica, deixava-se por último no tomar da sua ração de água.

— Há gente que fica sempre para o fim e, em vez de uma, tira duas, três vasilhas - disse Mundica, vendo d. Ana à espera.

— Pois faça você o mesmo - disseram alguns dos circunstantes -, é fácil.

— Vamos esperar mais longe; hoje ela quer pegar conosco por força - segredou d. Ana à Chiquinha -, e eu não quero trocar palavras com tal mulher.

A tia e a sobrinha quiseram afastar-se, mas a caçula, que chorava com sede, pôs-se a soluçar pensando que não teriam ração naquela tarde. Em vão tentaram consolá-la e conduzi-la, a criança não atendeu.

— Tire um pouquinho da minha água, d. Ana - disse uma das conhecidas da paróquia: - depois Vossa Mercê pagar-me-á.

D. Ana aceitou o oferecimento e a caçula pôs-se a beber.

— Vejam aquele conluio - gritou Mundica; - vem a velha, a sobrinha, cada uma leva a sua ração e, ainda por cima, outros tiram água para dar-lhes. Desta maneira não é admiração que fique tanta gente sem ter nem um gole para uma criança de peito.

— Está enganada - respondeu a mulher que obsequiara d. Ana; eu emprestei um nadinha da minha ração.

A vingativa rapariga tirou, da resposta decisiva que recebeu, argumento para confirmar o que afirmara, e discorreu chamando em seu auxilio testemunhas de todos aqueles que ela sabia respeitarem-na, pela circunstância de ser a amante de um dos comissários.

— Não é verdade que eu já tenho falado. Romualdo? -perguntou a um dos guardas da fonte, e voltando-se para outro: - não tenho eu notado sempre, Silvestre?

Os guardas que viam na menor hesitação o ódio de Mundica a perseguição e, finalmente, a perda dos lugares, que lhes garantiam os víveres para as famílias, responderam prontamente:

— Ser verdade, é, mas a gente fechava os olhos, porque, fim de contas, uma panela de água de mais ou de menos era o que secava a fonte. Demais era sempre por último.

— Qual a mesma coisa! - exclamou a filha do sacristão.

— Isto é um furto aos outros, e aqui não deve haver proteção para ladras. Eu lá as conheço desde B. V.

— Olhe que o melhor é você calar-se, Mundica - ponderou a mulher; - se houve alguém conhecido em B. V. foi você.

— E o que tem você com isto? A história não é consigo, seu caminho para não arrepender-se.

— Eu vou mesmo, não tenho filha moça e se tivesse, não era para fazer o mesmo que você faz.

— Diabos me levem, se você amanhã não amargar o que está para aí a ladrar, e depois aquelas comborças que a salvem...

O silêncio da família Queiroz irritou a agressora, que obrigar as agredidas a falar, continuou:

— Eu sei que há de haver quem repare em me ouvir dizer isto daquelas santas, mas é que não as conhecem. Aquela velha, que ali vêem tão beata no rosto, entregou a sobrinha mais velha ao vigário e depois veio para praça gritar.

— Pode dizer o que lhe vier à boca - soluçou d. Ana, e chamou as sobrinhas para se retirarem.

— Vejam se ela tem coragem para negar, vai-se embora; ao menos neste ponto mostra vergonha.

— Em B. V. todos conheciam, como mulher do vigário, você e não a sobrinha de d. Ana; todos sabiam que foi o velho Marciano quem entregou a filha, e não a irmã do professor. Camborça é você - gritou a mulher que fora involuntariamente causa do falatório de Mundica.

Todos os excessos, a que pode chegar uma língua desenvolta, foram proferidos pela filha do sacristão, certa do seu poder e da sua influência sobre a massa que a ouvia. A penúria geral fortalecia-a com o temor comum, de que uma detenção pela favorita do comissário condenasse famílias inteiras à morte pela fome.

Só a mulher que cedera a água às suas antigas amigas da paróquia ousou fazer frente à poderosa Mundica.

— Fale para ai, mulher à-toa - exclamou por fim; - você tem passado de dono em dono como um pangaré micuento; fale até que vá cair nalgum monturo.

Mundica, atirando fora a toalha e a vasilha que tinha sobre a cabeça, arremessou-se de encontro à mulher, não que recuou diante da agressão, mas antes respondeu-a desfechando-lhe um murro no ombro.

— Perdida por um, perdida por mil - bradou ela, e, contrastando com a cobardia da multidão perplexa em face de tanto atrevimento, atracou-se com a insolente provocadora.

Dentro em pouco a Mundica, que cravara os dentes no braço da destemida mulher, jazia por terra e era vigorosamente esbofeteada.

— Deixem, deixem que ela me faça sinais, eu mostrarei o que há de acontecer - gritou a agressora agora acovardada.

Como se só neste momento houvessem reparado na cena, os dois guardas que riam, como quase todos, das atitudes e gestos das duas lutadoras, puxando pelos seus rebenques - arma com que faziam a policia dos retirantes - arrancaram à força de golpes a mulher heróica de sobre a amante do comissário.

— Não é ela, eu não tenho nada com ela - bradou a vingativa filha do sacristão: - as criminosas estão ali.

Assinalou então as míseras d. Ana e suas sobrinhas, que se haviam detido em vão, para acomodar sua defensora.

— Fora com aquelas comborças! - gritou Mundica. - Fora com aquelas víboras!

— Fora, comborças! - repetiu a multidão, que via no partido das desgraçadas a fome e o desamparo. - Fora, com D. Ana e Chiquinha, aturdidas pela injúria que lhes era vibrada pelo clamor uníssono de mais de duzentas pessoas, não tiveram forças para retirarem-se, e limitaram-se a abraçar-se e a confundir as suas lágrimas e soluços.

— Olhem aquelas descaradas; ainda querem ficar! Não vêem? Querem ficar! Fora, comborças!

Os dois guardas caminharam até junto das duas infelizes, e, cegos pela subserviência, impelidos pelo temor da perda do emprego, repassados do egoísmo da conservação, levantaram os chicotes e, desfechando os golpes sobre as costas das duas indefesas, exclamaram:

— Vamos! Arreda para fora, cambada; aqui não há vigário como o de lá; todos são tão bons como tão bons.

Magoadas pelos golpes brutais, d, Ana e Chiquinha separaram-se e correram, deixando entregue aos vaivêns da multidão a mísera caçula, que soluçava e tentava acompanhá-las na carreira precipitada.

A grita, perseguindo insistentemente as fugitivas, as impeliu até a porta da sua mesquinha morada, onde um afago as esperou espontâneo e expansivo. Partiu ele do Amigo, o cão leal que preferiu à comezaina de alimárias mortas e ao tripúdio na podridão acompanhar os seus donos e comungar com eles a penúria e a vergonha.

Era ele o braço forte da casa. Ainda que as fomes repetidas o houvessem emagrecido, conservava-se corajoso e incansável, retribuindo com requintes de generosidade as pequenas ingratidões da família. Às vezes, quando a ração era menor, d. Ana e suas sobrinhas não se apiedavam do olhar ávido do Amigo, que assentado sobre as patas traseiras, agitando as orelhas, lambendo com a língua muita vermelha o focinho negro, suplicava-lhes um bocado. O Amigo, porém, não as esquecia nunca. Sempre que ia à feira e que podia afrontar as cóleras dos vendedores de carne, que desancavam os cães a cacetadas e pedradas, abocanhava algum pedaço e, em vez de devorá-lo, trazia-o para casa com a inteireza de um criado fiel.

Ao verem o único amparo que lhes restava, as duas fugitivas pararam de súbito e olharam-se arquejando, como se a dignidade de ambas aconselhasse-lhes uma vingança. Mas o cão fitou-as, rodeou-as, e depois de farejá-las, correu para o lado da fonte.

A multidão ria a bom rir, assobiando e chasqueando das pobres mulheres, que representavam a honestidade fugindo acossada pelo impudor.

— É como se lhes tira o fogo.

— Não há nada melhor para acalmá-las.

— Está bom, com esta lição elas nunca mais se hão de encrespar; perdem a proa.

— Não vê - exclamou Mundica -, isto é o começo; eu as conheço desde pequenas e sei das suas maretas.

O Amigo internou-se na mó latindo furiosamente, como se ele só quisesse dar combate a todos que o cercavam. Os olhos vermelhos, o ar de resolução, a ousadia do corajoso companheiro da família Queiroz assombraram, e um grito repetido por todos estrugiu propiciamente.

— Está danado! Ê um cão danado!

Dentro em pouco a aglomeração dissolveu-se pelo pânico e o Amigo corria ao encontro do grito fraco da mísera caçula.

D. Ana e Chiquinha, que muito mais que a afronta das vergalhadas sentiam a perda da infeliz companheirinha, ao verem-na de volta à casa, proferiram ambas a deliberação única a tomar:

— Vamos deste maldito lugar!

E d. Ana acrescentou:

— Antes que a vingança daquela fera se estenda até esta coitadinha.

Na manhã seguinte as desgraçadas filhas e irmã do honrado Queiroz deixavam o pouso insultadas e indefesas.