Os Retirantes/II/VI

Os Retirantes por José do Patrocínio
Segunda parte: a retirada, Capítulo VI


A cena da fonte foi a conversação de todo o dia, e a fama do poder de Mundica circulou não só pelo abarracamento dos retirantes, mas até pelos interiores mais recatados das casas do lugar, despertando viva curiosidade.

O próprio vigário, que era um qüinquagenário, sentiu desejo de conhecer essa formosura que assim se impusera ao ânimo do seu amigo comissário, um homem viúvo e que merecia a geral consideração.

“Deve ser uma flor” - ponderou o pachorrento vigário Belmiro d'A... -, hei de ir vê-la para ver se a trago ao seio da igreja.

À tarde conseguiu encontrar-se com o comissário e foi com ele até o abarracamento, a conversar indiferentemente sobre a seca. Chegados, porém, o vigário, cuja reserva a respeito da conversação obrigada do dia lisonjeava muito o comissário, acometeu-o de frente.

— Onde é que está a favorita?

O tom de que se serviu, porém, era tão doce, tão atencioso e sacerdotal, que o surpreso comissário apenas pode desculpar-se com uma negativa banal.

— Ora, todos têm a sua fraqueza - disse o vigário; - afinal de contas você comete a penas um pecado venial.

O comissário, cedendo à amabilidade do pároco, conduziu-o até o cubículo em que residiam Mundica e a sua família.

— Cá está o sr. vigário, Mundica - disse o amante enfatuado pelos gabos que ouvira à beleza da preferida; - vem repreendê-la, como eu já o fiz hoje, pela sua briga de ontem.

Entraram os dois, e Mundica, com a afetada docilidade a que se afizera para domar os ímpetos do vigário Paula, veio cumprimentá-los.

— Contam sempre demais, sr. vigário; deve-se sempre partir ao meio o que se ouve.

— Mas ainda assim...

— É porque Vossa Mercê não sabe; são queixas velhas.

Toda a família da amante do comissário veio fazer sala a tão ilustre visita, e a velha mãe, vaidosa por gozar um momento da sua vida de outrora, ouvindo em casa a voz de um padre, mostrou um por um todos os filhos.

— Esta já está mocinha, já mulher também.

— E bem mostra que é irmã da Mundica - acrescentou o comissário, sorrindo-se para o vigário.

— É uma família de formosuras - ponderou judiciosamente o qüinquagenário, que passou a sua boceta à velha mãe.

A visita foi pouco demorada e os dois hóspedes retiraram-se sem que a repreensão, que dera-lhe pretexto, fosse formalmente feita. De volta para o povoado o pároco, buscando rodeios evangélicos, desfiando frases sentimentais, chegou finalmente ao que parecia ser o alvo das repetidas considerações que fazia sobre a família.

— E, diga-me cá, a pequena, a Amelinha também já terá a desgraça de ser como a irmã?

O comissário, fingindo não compreender a razão da pergunta, respondeu distraidamente:

— Homem, para lhe dizer a verdade, não sei; o que me parece é que ela não o é, porque não pôde; porém, mais dia menos dia...

— É; em tempos de calamidade é muito difícil que a pobreza possa conservar-se pura. Lá diz o rifão: "Quando a necessidade bate pela porta da frente a virtude sai pela dos fundos”.

— Se efetuar-se o que se diz do novo presidente, eu não lhe dou uma semana. Aquela gente não conta muito com estas coisas. De brio eram a d. Ana e a tal Chiquinha, e essas morrerão à fome antes que cedam a honra.

— Para estas épocas não servem...

— Está claro, por melhor que seja o coração, não gosta de ver orgulhosos na miséria. Eu não sei o que vai ser delas. É verdade que, de uma hora para outra, muda-se tudo, e a Chiquinha não deixa de ser bonita. Boa noite.

— Boa noite, eu já sei que tem ainda muito que fazer no abarracamento.

Riram-se ambos e separaram-se.

O vigário, que estava próximo à casa, dirigiu-se para ela pachorrentamente pensando consigo que era bem bom ser como o comissário, um viúvo rico e respeitado. Quanto a si era pároco, devia manter-se pelo menos cauto, sem sequer lançar um olhar indiscreto, e quando muito saboreando no silêncio algum pomo caído da árvore da vida.

Abeirava a entrada da sua habitação, absorto neste cogitar, quando um homem todo vestido de couro com um lenço de Alcobaça atado ao rosto, tomou-lhe o passo e cumprimentou-o pelo nome.

— Boa noite - respondeu o vigário com a secura do mau humor de quem já está cansado de dar pousada a desconhecidos.

— Vossa Reverendíssima pode dar pousada a um colega?

— Esta casa recebe sempre como irmão os membros do meu santo ministério..

Contrastando com a cordialidade das palavras, o olhar do pároco fitou penetrantemente o desconhecido, a quem fez entrar guardando alguma distância. Dentro, via-se nas feições de Belmiro d’A... um ar de incredulidade e o passar célere de um pensamento assustador.

"É talvez um ladrão, ou algum impostor que invoca o nome da minha classe para desfrutar-me.”

O desconhecido, porém, ainda que percebesse o embaraço do seu hospedeiro, conservou a imperturbabilidade de quem fala a verdade.

— Vossa Reverendíssima não pode acreditar que eu seja seu colega, e é de feito incrível que um sacerdote da nossa santa religião veja-se reduzido à miséria de andar descalço. Leia, porém, estes papéis e convença-se.

Passou um maço de papéis ao vigário, que, negando-se polidamente o suficiente para prolongar uma insistência, pôs-se a ler.

— É então o vigário Paula, de quem tenho ouvido falar? Ali de B. V., não? Disseram-me, com efeito, que havia abandonado a paróquia.

— Que remédio; a calúnia pode tudo neste mundo e eu fui uma das suas vítimas.

Desfiou longamente, adulterando-os, os fatos que agitaram tão desastradamente a paróquia de B. V., e tanta foi a perícia com que o fez que Belmiro d'A... comoveu-se até as lágrimas.

— É um povo endemoninhado - comentou o qüinquagenário; - merece bem a calamidade que o tortura.

— Em dobro - murmurou Paula - e eu, onde quer que os veja, hei de fazer-lhes a guerra que a nossa santa igreja aconselha. Árvore que não dá bons frutos corta-se pela raiz.

— E eu que me condoía tanto da sorte dos que estão por aqui pousados.

— Ah! Eles estacionaram aqui? - perguntou Paula perturbado. - Pois bem - acrescentou , espere pelas conseqüências, não lhe dou muito tempo que não haja barulho.

— Eles já deram o pano de amostra; ontem duas das mulheres já obrigaram os guardas do abarracamento a acabar com uma briga e por meio dos rebenques.

— E os chefes das famílias consentiram?

— São de famílias sem chefes, uma d. Ana e uma... Mundica, gente à-toa.

Os nomes das duas mulheres, tão conhecidos de Paula, fizeram-no estremecer e o pároco, reparando na comoção do colega, perguntou-lhe:

— Conhece-as?

— Ah! Bem sabe que nós os vigários conhecemos todos os fregueses.

— Pois foi com elas o fato.

Paula abaixou a cabeça e pôs-se a olhar consternadamente para o solo, enquanto Belmiro d’A... narrava outros acontecimentos da sua paróquia. Quando houve uma pausa, perguntou o hóspede:

— E a d. Ana foi também castigada com rebenque?

— Ela e a filha foram as escovadas, porque foram as que provocaram o conflito.

— É impossível - exclamou Paula; - se as conhecessem não lhes fariam esta injustiça, são incapazes.

— Pode ser - respondeu Belmiro d'A... - mas o caso é que elas chucharam e bem caladinhas.

— Pois eu hei de vingá-las.;

— Seria em vão tentar; a Mundica é a amante do comissário e já vê que é ela quem tem sempre razão.

— Deve ser assim - murmurou Paula, mordido pelo despeito -, as mulheres como estas são as que encontram defensores. D. Ana e sua sobrinha são honestas. Sabe o colega dizer-me onde elas estão?

— Partiram, segundo ouvi do comissário; sabiam que nada mais teriam no abarracamento.

— Víbora, eu te castigarei - resmungou Paula pensando em Mundica.

Certo de que tratava com um colega, o pároco Belmiro esmerou-se na hospitalidade e em breve anunciou a Paula que não tardaria a ceia.

— Quem sabe se não queria tomar primeiro um banho? -. perguntou.

— Sem incômodo.

Temos tido uma falta de água enorme; a fonte não dá para que cada retirante possa ter uma panela de água por dia. Mas isto não quer dizer que eu não tenha até para dar de beber e lavar o meu cavalo.

— Em compensação cuida das almas desses desgraçados - ponderou Paula no seu tom irônico; - falta-lhes água, mas lhes falta a palavra de Deus.

— Já está posta a água, e lá no quarto encontrará roupa branca e chinelos. Sempre hão de agradar-lhe mais do que esta véstia de couro e trazer os pés descalços.

Isto é um acolhimento de Marta a Jesus.

— Se quiser barbear-se, tem lá estojo.

— Quanto a isto agradeço-lhe, fiz voto de conservar-me assim até que fale ao bispo.

— Sempre faz mais efeito.

Riram-se e Paula entrou para o quarto de onde voltou pouco depois vestido com a roupa do colega, rindo-se com a satisfação de quem se sente bem.

— A mortalha é menor que o defunto - disse Belmiro - mas ainda assim não deixa de servir.

— Muito a gosto.

— Vamos à ceia.

A mesa do pároco estava resplandente confrontada com a penúria geral, e Paula acentuou bem a impressão de que recebera com tanta magnificência.

— É uma hospedagem real.

— É unicamente a boa vontade de um pobre colega. Sirva-se dessa galinha ensopada, não deve estar gorda, mas também só temos por aqui o milho do governo.

— Pois é o suficiente para engordar bem a criação.

— Qual, os retirantes são uns miseráveis esfaimados que comem quanto milho vem. Aos meus cavalos só posso dar ração duas vezes ao dia.

— Desta maneira o pobre animal talvez não resista à seca...

— Não pode ser mais; temos de dar a essa gente todas duas rações por semana, e é preciso que vá um pouco de milho para o mugunzá. Há de ver como esses demônios estão nutridos, ao passo que os meus pobres animais emagrecem.

"Este é que faz bem", pensou Paula; "eu não tratei de arranjar-me, trabalhei para o bispo."

— Aquele assado, padre, não deve estar mau, porém beba deste vinhozinho que é assim, assim.

— Porto, hein? Tem disto por cá?

— É do que vem para a dieta dos doentes, e eu fiquei com as sobras. Também eles nunca tiveram tais dietas, não lhes faz nenhuma falta. Prove.

— Não o bebia, há mais de ano; lá por B. V. já não aparecia nada semelhante. Boa pinga - disse Paula, escorropichando o cálice.

— Se não houvesse estes achegos, colega, não havia quem aturasse a canalha que tem descido do sertão. É para fazer cabelos brancos. Sujos na vida, hediondos na morte; vivem na imundícia como as varejas, e morrem como gado pesteado. Eu não tenho outra vida senão ungi-los e encomendá-los. São uma praga.

— E não há esperança de que se ponha uma barreira a este dilúvio de gente?

— Nós temos alguma esperança; com a falta de água é quase certo que eles emigrem.

— O melhor é apontar-lhes a capital, que vão para lá.

— Aqui eles não ficam nem mais uma semana; a fonte não dá água para tanto tempo e o povoado não há de morrer à sede por amor de uma canalha.

— Quanto aos de B. V., juro sobre os santos Evangelhos, não valem uma pitada de farinha.

— Nem a Mundica? - sorriu o qüinquagenário. - Por esta eu era capaz de dar um saco.

— Eu também não me negaria, para matar algum tempo.

— Você está mais que autorizado a dizer, eu já sei que foi o feliz...

— Infelizmente não; já era país descoberto.

— Mas você tratou-a então como país conquistado.

— Lá isto não contesto, mas era o meu direito.

— E a irmãzinha? O que me diz? Tem um arzinho, um não sei quê...

— Pode-se aproveitar para espairecer depois de uma confissão.

Continuaram a mastigar, a beber e a alegrar-se conversando sobre as moças do abarracamento, mas o vigário Paula conservava-se impressionado, apesar da licença das palavras do colega. Com a sua habilidade natural foi conduzindo de novo a conversação à briga de Mundica e d. Ana, e afinal ao ponto em que desejava tocar.

O colega confessou alguma vez a família de d. Ana?

— Não; ela mostrava-se muito esquiva para a igreja, e eu só vim a saber o nome da velha ontem depois da briga.

— Então não conhece ninguém da família?

— Não; sei apenas que ela compõe-se da velha, de uma mocinha dos seus 15 anos, duas meninas já crescidas e uma pequena.

— E quem lhe disse é pessoa que as conhecesse bem?

— Foi o comissário, que sabe o número das pessoas de todas as famílias, porque tem de distribuir as rações.

— Afiança-me então que não havia mais ninguém?

— Afianço pela informação do comissário, mas você que é da paróquia e que conhece a pequenota mais velha...

— Infeliz - murmurou Paula - Talvez esteja morta.

— O que é que me diz da mocinha?

— Que é uma virtuosa menina, e que hei de fazer-lhes o bem que puder.

— Então é deitar-se a correr pela estrada fora; porque no andar que levam, com as costas a arder, devem estar longe.

Paula reconcentrou-se. A frieza do colega irritava-o, porque vinha contrastar-lhe a espontaneidade da compaixão, para com aquelas a quem havia condenado a tão profundos sofrimentos. Em vão o Rev. Belmiro prodigalizava ditos com pretensões à graça, Paula apenas sorria e respondia ao que era obrigado. — Ite, missa est - exclamou por fim Belmito, levantando-se.

Deo gratias, - respondeu Paula e acompanhou o colega, que o conduziu à porta do quarto.

— Durma em paz, amanhã mostrar-lhe-ei a gente da terra. Há de gostar de ver, depois da ausência, a formosa Mundica.

— Agradeço-lhe o favor, mas não posso aparecer a todos, antes de haver falado com o sr. bispo. Não quero dar azo a que a calúnia de novo se levante.

— Faz muito bem, mas eu cá não lhes dava a menor importância. O que pode valer uma queixa de retirantes?

As últimas palavras do vigário Belmiro ficaram ressoando como um suave consolo nos ouvidos de Paula.

A crueldade de Mundica, porém, a barbaridade da sua vingança, que se estendia de Eulália a toda a família Queiroz, o valimento de que ela gozava junto do comissário, que era rico e respeitado, assomaram na memória do foragido como tremenda ameaça. Demais a consciência não cessava de acusá-lo pelo desbarato da paróquia, e noites inteiras passava-as ele a debater-se contra larvas que vinham afear-lhe a insônia. ,O espectro de Antão Ramos, principalmente, não o deixava descansar, perseguia-o de contínuo, pedindo-lhe conta do destino da sua família, para quem o malsinado vendeiro acumulava em ouro os remoques e humilhações, que lhe custavam a usura. Horas e horas, com a impassibilidade de uma pêndula, a sua consciência levava a perguntar-lhe pela mulher de Antão Ramos e pelos filhos, e a imaginação, tremendo juiz que não dorme, que não se suborna, desdobrava-lhe quadros medonhos como resposta.

A visita que por ele tinha sido feita à vendola, quando Antão Ramos desanimara no meio da empresa do incêndio do engenho; aquele quadro de felicidade doméstica - a mãe e o filho são e robusto, o pai a convalescer entre carícias - transfigurava-se numa cena horrorosa. A mulher deixava-se cair encostada a um arbusto desfolhado, à beira da estrada afogada em sol, deitava nos lábios da criança o seio nu, mas este estava árido como um rochedo, e o quadro era agora triste, porque era a esterilidade amamentando um esqueleto. Para maior horror, Paula via ainda por detrás de si o espectro inexorável de Antão Ramos, que o segurava com o aperto do remorso e o violentava a contemplar a consciência da sua obra.

— Hei de vingar-me! - exclamava o desgraçado acordos medonhos pesadelos. - Nela e nos seus.

A vingança, porém, espaçava-se. É certo que Marciano já não existia; que entre os destroços da carnificina Paula o vira, mas não era só ele o autor da sua perdição. Dias e dias tinha-os passado espreitando as estradas para encontrar Mundica, e vira perdidas as suas emboscadas, em que por vezes correu o perigo de ser reconhecido... Hoje a encontrava, forte e poderosa, e perguntava-se assombrado o que devia fazer para saciar a sua vingança, cujo desejo era tamanho como o de Mundica para com Eulália.

Uma chegada inesperada deu-se na mesma noite a oito léguas de distância da localidade em que Paula cogitava nos meios de prejudicar a sua ex-amante.

O velho Inácio, ouvindo um assobio, correu à porta com a precipitação do subalterno que vai receber o chefe.

— Homem, esta chegada de sopetão causa-me susto e alegria: novidade no povo ou caça gorda?

— Uma trapalhada - respondeu Virgulino, apeando precipitadamente; - antes de tudo notícias da d. Eulália.

— Sempre triste, quase à morte, a arrastar-se pela casa, a chorar sem consolar-se.

— Já soube então da desgraça?

— Logo que melhorou, não foi possível enganá-la e, como parece que só vivia para o filho, sofreu um golpe, que por pouco não a levou para a cova.

Virgulino tratou de espairecer a impressão que lhe causaram as palavras do velho, e, mudando bruscamente de tom, pediu com uma prazenteria afetada que lhe dessem de jantar.

— Venha isto depressa: comi de manhã e só agora paro; venha comida para meia dúzia.

— Bravos - exclamou o velho - já vejo que não nos traz más novas; o apetite é o companheiro da alegria.

— Olhe, não precisa dizer quem está, por hoje, amanhã tenho tempo para falar com a dona. Sempre é ocasião - resmungou - para dar más notícias.

Inácio não demorou em vir ter com o seu chefe, na saleta, que era destinada aos superiores da quadrilha, e, para merecer-lhe uma palavra amiga, deu-se logo pressa em comunicar-lhe que a família de Eulália tinha sido acolhida por ele da melhor maneira.

— Conheceu lá em B. V. a família da dona, não é verdade?

— A d. Ana e quatro sobrinhas.

— Estão de luto.

— Não estavam, quando lá estive.

— Pois estão agora; conheci pelos rostos; têm todos os mesmos traços, e conhecendo-as não tive mãos a medir; dei-lhes o que pude. Fiz bem ou mal?

— Muito bem, velho Inácio; eu dou por elas até a vida.

— Eu logo percebi.

Virgulino pôs-se a jantar sem responder á tagarelice do velho, que se estendeu em gabos ao próprio procedimento.

— Elas não me disseram nada - acrescentou ele -, nem cá a dona confessa que tem parentes, mas eu disse comigo:

são negócios de família e todos têm lá as suas razões. Eu é que não posso fechar os olhos e fingir que não vejo o que é claro como água, e por isso fiz o que me deu na cachola. A senhora velha veio oferecer-me uns ouros e deixava-os comigo por um dez réis de mel de furo. Percebi que grande necessidade havia para que uma mulher sabida não desse apreço a ouro e não tive mais auto de pergunta, dei o que pude: comida, pousada, matalotagem.

— Pena é que não possamos, dentro em pouco, continuar a fazer o mesmo - murmurou Virgulino, que empurrara os pratos para o lado; - isto está para findar.

— Como para findar? - perguntou Inácio, que veio acocorar-se em face do chefe.

— É uma história muito comprida; mande vir primeiro café.

O vendeiro saiu ansiando de curiosidade e voltou depois de uma breve demora.

As palavras de Virgulino feriam-no fundo.

Estava velho, e havia longos anos vegetava tranqüilamente na sua vendola. As velhas prateleiras, os caixões vazios, as garrafas e botijas vazias, que apenas serviam para o cenário do pequeno teatro em que estreitamente ganhava para subsistir, tudo que ali estava, a velha balança de conchas de folhas-de-flandres, os copos esverdeados, o balcão tosco e encardido, queimado pelos tições de fogo, os bancos desconjuntados em que os ociosos vinham deitar-se para passar a sesta; tudo fazia parte de si, do ambiente indispensável para que respirasse bem a sua velhice.

Um dia o Onça entrou-lhe pela casa com o atrevimento dos bandidos, e riu-se desaforadamente da sua pobreza.

— Tem família, velho? – perguntou-lhe o Onça.

Como lhe respondesse afirmativamente, o celerado sacudiu os ombros e apontou-o a um dos companheiros com uma exclamação compassiva.

— Era ver que tinha família. Morre para aí, mais dia menos dia, e afinal os filhos ficam a dormir sob os pés de pau e a comer raízes.

— Sua alma, sua palma - respondeu o outro.

Mais tarde, Inácio, que se assustara com os modos do Onça, e que se pusera à espreita, ouviu dizer:

— Este lugar é magnífico; se o velho quisesse fazer negócio, eu dava-lhe até dois ou três contos de réis.

A ambição fê-lo esquecer todo o seu passado de tranqüilidade e de honradez, e desde aquele momento resolveu aceitar a proposta que lhe fizesse o Onça, fosse embora a perpetração de um assassinato.

O chefe de um dos grupos dos Viriatos não era homem de recuar diante de nenhuma empresa; o dente das cascavéis tinha-o ensinado a arrostar a morte e aquela alma obcecada não conhecia nem mesmo o temor do túmulo. Dirigiu-se sobranceiramente ao velho Inácio, por uma frase concisa como o golpe de um estilete, a qual o velho nunca mais esqueceu.

— Vou lhe propor um negócio, é segredo entre nós; se você der à língua, morre.

Propôs-lhe que lhe cedesse a vendola, mas continuasse a figurar como dono. Os Viriatos vinham fazer excursões por ali e precisavam de um lugar e de uma pessoa contra a qual não recaísse suspeita. Não podiam achar outro em melhores condições, nem ponto mais seguro. Inácio, conhecido por todos como um velho trabalhador, econômico e sério, garantiria com a sua continuação na vendola a paz e a vida da quadrilha.

— Quer aceitar? Tem dois contos de réis! - e como o velho hesitasse - Mais um, e não paga o que comer. Serve?

No mesmo dia o velho irrefletido recebia das mãos do Onça o preço de toda a sua vida de probidade, e assentava praça nas fileiras da reserva do exército dos Viriatos.

A nova de que ia dissolver-se a quadrilha causava-lhe portanto dupla dor. De um lado, o despertar da vida criminosa que desde então começou a levar, sem outra contrariedade que não fossem alguns assomos de mau humor do Onça, que eram rápidos e afinal rendiam gorjetas. De outro lado a possibilidade de que o segredo, guardado por ele tão discretamente viesse a divulgar-se, e assim os seus cabelos brancos aparecessem publicamente manchados pela poeira de correrias de ladrões, de quem ele era o couto.

— Cá está o café, Desempeno, cá está, tome-o e fale-me pelas 11 mil virgens.

— Está quente, meu velho - sorriu Virgulino chupando um gole; - isto não é por ora sangria desatada.

— Se quer preparar-me para o golpe - resmungou o velho - eu estou pronto para o que der e vier.

— Qual! Não é nada para desanimar. Nós somos muito felizes, não caímos assim. Escute.

O velho Inácio colocou-se em frente do bandido, e posse a ouvir sem pestanejar.

— Lembra-se de que nos mandaram chamar a toda pressa? - perguntou Virgulino. - Era para dar um assalto em regra nas beiradas do Crato. Foi bonito! Velho Inácio, coisa limpa! Era chegar, amordaçar e apanhar o que havia, e tudo ligeiro como a correnteza de um rio cheio. Começou a brincadeira ali pelas oito horas da noite e, ao romper do dia, tínhamo-nos aviado por mais de uma légua em redor. Estávamos todos alegres e era caso para a maior alegria...

— Dia de muito, véspera de pouco.

— O Pedro, aquele endemoninhado, cuja língua o Onça tantas vezes quis cortar, veio transtornar tudo.

— Aquele pernóstico! Aqui é que ele nunca me entrou - disse Inácio, levando a mão ao peito; - não sei o que me palpitava cá.

A conversação demorou-se por algum tempo sobre as qualidades de Pedro. Era um rapazola, muito blasonador e espinhado. Gastava a maior parte do dia em contar proezas, e aí mesmo na vendola, Inácio tinha-lhe ouvido dizer que a sua faca ainda cheirava ao sangue derramado no assalto da véspera. Poucos eram os companheiros que o estimavam e muitos relevavam que, de há muito, era plano dele dividir a quadrilha e proclamar-se chefe de um grupo. Temerário até a loucura, tinha na sua curta vida de bandido ações bastantes para captar a boa vontade dos companheiros pela valentia, e por isso mesmo estes, receosos de cegarem-se por esta eminente qualidade do rapazola afastavam-se dele alegando os seus defeitos.

Pedro percebia a animadversão geral; mas não desanimava e sobretudo, para conservar-se inabalável na sua empresa de coroar-se chefe, odiava de morte não só os cabeças de turmas, mas também o chefe supremo da quadrilha.

— Pois o Pedro - continuou Virgulino - incumbiu-se de tornar um dia triste o da nossa maior felicidade. Havia muito tempo - acrescentou ele - denunciavam-no sempre como pouco fiel. Diziam muitos companheiros que ele guardava sempre para si metade do que podia obter nos assaltos.

— Infame! - exclamou o velho. - Como se todos não corressem igual risco.

— O Onça - prosseguiu o chefe -, quis muitas vezes castigá-lo; mas eu detinha-o sempre e fazia com que não se criassem ódios entre nós. Enfim, no Crato, a coisa foi feita sem jeito, e um dos companheiros viu-o esconder um faqueiro de prata, que só ele dava para um homem ficar contente consigo. O Onça não esteve mais para deter-se, e o castigo não se fez esperar.

— Sem desfazer nos outros, aquele Onça é que é sempre um pedaço de homem.

— Para dar um exemplo aos outros, o nosso chefe deu-lhe sentença de morte se ele não declarasse onde havia escondido o que já havia roubado aos companheiros. A certeza de que morreria fê-lo confessar, e a primeira coisa que soubemos foi que a minha bolsa estava com ele, e, portanto, que foi quem atacou d. Eulália.

— Veja que valentão que dá assaltos a uma mulher que vai sozinha por uma estrada!

— O Onça não lhe pôde perdoar isto, e, mandando amarrá-lo, fez o que nunca se tinha feito entre os Viriatos: surrá-lo.

— Isto é que é saber governar. Aconteça o que acontecer, a surra já ninguém lha tira e ele precisava bem dela.

— No dia seguinte, meu velho, você talvez não dissesse o mesmo lá no Crato. Pedro conseguiu o que talvez fosse

impossível conseguir em toda a sua vida: dividiu o povo dos Víriatos. Mais de 60 companheiros fugiram com ele e deixaram espalhadas pela estrada cruzes para dizer-nos que nos faziam guerra de morte.

— Se o medo é este, Desempeno, eu não o terei nunca. Pinga de urubu não mata rês gorda.

— Aquilo é falso como Judas, e de emboscada pode fazer-nos todo mal possível.

— Faz a alguns, não faz a todos.

— E se em vez de nos combater a punhal, ele for à justiça?

O velho Inácio ficou estatelado a olhar para Virgulino. A justiça era a sociedade inteira, e justamente diante desta não queria o velho Inácio aparecer tal como era. Fizera-se criminoso para garantir a felicidade dos seus, tinha filhas e o futuro delas foi o conselheiro mau, que o levou à transação ignóbil com o Onça. Ouvir falar em justiça, era para ele a evocação de todo o seu passado iluminado na sua pobreza pela honestidade, tranqüilizado na sua parcimônia vizinha da penúria pela consciência de que ninguém o amaldiçoava.

— É verdade que Pedro tem uma ambição imensa, e talvez ela o convença de que o melhor caminho não é ir à justiça - respondeu Virgulino.

— Acertou, ele não cai nesta.

— Mas - acrescentou Virgulino - ele pode muito bem pensar que, denunciando-nos, fica-lhe mais campo para as suas façanhas.

— É também certo murmurou Inácio. - A verdade é que o diabo do cabra dá-nos água pela barba.

— Há de custar, mas para isso é preciso andar depressa. Esta venda, por exemplo, deve desaparecer daqui.

— Eu nada posso dizer.

Estas palavras foram proferidas com tamanha tristeza que o bandido não pôde furtar-se à fraqueza de comover-se.

— Isto não quer dizer que você não a possa reabrir mais tarde, se nós conseguirmos dar caça ao Pedro. Nestes três dias, o mais tardar, tenho notícias.

O velho Inácio baixou os olhos submissamente. Quando, seduzido pelo preço que lhe oferecera o Onça, vendeu a sua propriedade, a alucinação momentânea não lhe deu tempo de meditar e por isso mesmo nada sentiu. Demais soube logo que não teria de sair dali e, por isso, não teve ocasião de avaliar a estima que tinha à vendola e ao torrão em que ela estava situada. Agora que recebia ordem de abandoná-la, embora com a esperança de que a ausência seria temporária, todos os seus sentimentos sublevavam-se, Parecia-lhe que a vendola e as árvores e tudo da localidade estava assentado e arraigado no próprio coração, e que as palavras de Virgulino eram golpes cruéis desfechados para arrancá-los.

— Mil raios partam aquele traidor! - bradou o velho.

— Eu não sei o que vai ser esta novidade para a minha velha.

— Eu também não tenho coragem de dizer a d Eulália que ela deve partir.

— Ela será a primeira a pedir.

— Mas eu terei de consentir, e depois que perdi a esperança de reunir-me aos meus, essa moça tomou-lhes o lugar.

A conversação, arrastando-se de tristeza em tristeza, continuou por algum tempo, mas acabou bruscamente por uma observação de Virgulino.

Seja o que for, enquanto eu tiver mãos hei de fazer valer a minha faca e o meu revólver. Depois, ninguém me conhece e eu saberei fugir.

— Eu sou infelizmente conhecido de todos - resmungou o velho Inácio e fitou atentamente o seu chefe.

Separados, Virgulino alquebrado pela fadiga fechou-se por dentro, tirou a máscara com que se disfarçava e adormeceu prontamente, como se nenhum sentimento o oprimisse. Inácio, porém, retirara-se vagarosamente, parando, levantando os olhos para o teto, como quem vai cogitando de coisas' tristes. Não se recolheu logo, ficou a passear pelo terreiro, e por duas vezes veio até a porta da saleta, diante da qual estacava e ficava a mirar-se com o olhar de quem duvida da sua própria ação.

— É preciso que, a sofrer, soframos todos, não haja desconhecidos entre nós.

Virgulino dormia já profundamente, quando o velho Inácio foi acomodar-se repetindo a sua frase igualitária, que por si só era um crime gravíssimo diante dos estatutos da quadrilha.

Na manhã seguinte, ao encontrarem-se, o velho Inácio tinha o semblante de tal maneira demudado que o chefe não pôde furtar-se a perguntar-lhe a causa.

— A justiça ainda vem longe, velho, não vale a pena adiantar sustos e pesares.

— Você fala assim, Desempeno, porque ninguém lhe poderá dizer fora daqui: você é dos Viriatos. Esta máscara...

— É verdade; mas não a deixarei antes de ver que tudo está perdido; ao passo que você pode hoje mesmo abandonar-nos.

Inácio não teve coragem de levar mais longe a sua queixa temerária, porque o tom de Virgulino, ordinariamente despretensioso, adquirira a altivez própria de um rude superior.

— Como está a d. Eulália? - perguntou o bandido. – Já se levantou?

— Ainda não sabe que você está conosco.

— Melhor, diga-lhe você primeiro que os meus negócios vão mal, que eu estou aqui muito desanimado. Eu afasto-me; não tenho coragem para ser o primeiro a dar-lhe causa para dizer que parte.

Internou-se pelo capoeirão, que perto da casa amarelecia e desfolhava-se ao rigor persistente do verão. Caminhou a esmo, sem destino, como se fugisse para não mais voltar; mas, afinal, sentindo-se fatigado, reparou para as árvores em roda, e, sentando-se a olhar e a desmanchar o cigarro, disse distraidamente:

— Estou perto da Encruzilhada, bem longe da vendola. De feito, a alguma distância de Virgulino, duas picadas se cortavam e, aí bifurcando-se uma e a outra dividindo-se em três, formavam uma espécie de leque espalmado por entre a vegetação, em face do qual o viajante pouco prático difícil poderia atinar com a direção.

— Aqui é preciso uma sentinela - murmurou Virgulino batendo na cinza do cigarro; - se não andarmos alertas, estamos perdidos.

Sucederam-se os minutos, os quartos, as horas e, não obstante, o bandido persistiu, ora sentado, ora deitado, já fuzilando fogo no isqueiro, já cortando com a ponta da faca os arbustos em roda. Dir-se-ia que ele tinha sido acometido de um ataque de idiotismo, ao vê-lo assim esperar sem causa e por tanto tempo em um lugar, onde não podia contar que passasse uma só presa, porque as picadas só eram conhecidas dos mateiros e dos bandidos.

Cerca de cinco horas depois da parada de Virgulino, uma pessoa apareceu no extremo visível do caminho, e o bandido, que tinha os olhos voltados para este lado, sorriu e murmurou:

— Dizia-mo o coração, miserável! Enganou-me! Vai pagar a tua ousadia!

Rápido e sem ruído como o rastejar de uma cobra, Virgulino levantou-se e foi postar-se em um dos ramais da encruzilhada, acocorado como um tigre, e com a faca desembainhada.

O caminheiro, andando com a ligeireza cearense, em breve ganhou a grande distância que o separava do ponto em que Virgulino se emboscava, e, chegando em face da encruzilhada, parou a olhar para as árvores. Esta demora, que dizia claramente que o apressado caminheiro aplicava instruções que recebera acerca do caminho, alegrou muito ao emboscado, que sorria, enquanto o caminheiro, tirando o isqueiro, fuzilava fogo.

De um salto, Virgulino, que havia embainhado a faca veio cair sobre o desconhecido, desfechando-lhe sobre a omoplata um murro formidável, que o fez vacilar e para logo cair ao choque do corpo do agressor.

— Onde ia você? - perguntou, apontando ao peito do agredido o revólver engatilhado: - Fale ou morre!

Houve uma hesitação da parte do caminheiro, e Virgulino continuou:

— Não procure ocultar que pertence aos rebeldes do Pedro; só eles poderiam ensinar-lhe este caminho, que vai dar justamente numa entrada falsa da venda: responda ou eu faço-lhe fogo! Fingiu que ia apertar o gatilho, e acrescentou:

— Morre por sua conta; eu bem lhe dei meios de salvar-se.

— Não descarregue, que eu lhe direi tudo; entrei apenas há três dias para o serviço de Pedro e não quero morrer já.

— Fale então.

A voz trêmula do emissário revelou, a titubear, o plano grandioso de Pedro. Entraria ao lusco-fusco pela cerca e ir-se-ia esconder na vendola, e à noite assassinaria Virgulino e em seguida o velho Inácio, que seria acordado e chamado pelo assobio da quadrilha dos Viriatos.

— E depois? - perguntou Virgulino.

— Eu obrigaria a família do velho a dar-me o que tivesse e deitaria fogo à casa.

— Infame traidor! Enganou-se por esta vez - exclamou o chefe e perguntou: - onde está esse infame?

— Não posso dizer - respondeu o caminheiro; - você, que é chefe, sabe que eu prefiro morrer a denunciar meu chefe.

— Mas o seu chefe sou eu, e você não faz mais do que me dizer onde pára um rebelde.

— Não, o meu chefe é Pedro; mate-me se quiser, mas não ouvirá de mim nem uma palavra que o condene.

— Morra, pois que assim o quer.

A detonação ecoou longe, mas a bala não ofendeu o agredido, porque Virgulino propositalmente desviara a pontaria.

— Vamos, responda, não me obrigue a mandá-lo para a casa do diabo; salve-se enquanto é tempo.

— Não - insistiu o agredido; - não denuncio o meu chefe.

Virgulino olhou fixamente para o bandido e exclamou:

— Você é um homem de coragem, não deve morrer!

O caminheiro, que se conservou estoicamente severo ante as ameaças, encolheu desdenhosamente os ombros, vendo que o chefe detinha-se em face da sua coragem.

— Veja em que fica? - disse ele. - Abrevie isto.

Virgulino, que continuava confuso pela ousadia deste homem - principalmente porque, desarmando-o, reconheceu que ele vinha atacar a uma casa de bandidos e trazia por única arma a sua faca -, não se irritou com a provocação e ao contrário ponderou-lhe amigavelmente:

— É pena que você desperdice tanta coragem com tão ruim chefe. Perde o seu tempo: não demorará muito que Pedro morra ás nossas mãos.

— Tanto pior para mim e para ele, morreremos ambos. Cada palavra do desconhecido fazia-o subir mais no conceito de Virgulino, que rola em tamanha calma a sua própria energia. Não seria ele quem o matasse; não queria corresponder à coragem com uma ação covarde. Resolveu, pois, conservá-lo preso até que notícias dos seus companheiros de quadrilha dissessem-lhe se devia ser piedoso ou cruel com os soldados de Pedro.

— Vamos para a venda – disse-lhe; - lá hei de dar-lhe a resposta.

O desconhecido não resistiu á ordem e levantou-se a resmungar:

— É indiferente para mim morrer lá ou aqui. Vamos.

Durante a caminhada, Virgulino, que não desengatilhara a arma e não se distraíra um só momento para não perder o menor movimento do seu prisioneiro, ia entretanto pensando no golpe que devia sofrer quando chegasse à vendola. Eulália o viria receber talvez, e desde logo ficaria resolvida a sua partida. Esta idéia triste quase o decidiu a desfechar o tiro sobre o desconhecido, visto que assim podia demorar-se mais. Não era uma infâmia, pensava ele, viera para assassiná-lo à traição. Mas a altivez de caudilho dos Viriatos demoveu-o logo, fazendo-o lembrar-se de que nunca assim procedera.

Chegaram finalmente à cerca e o assobio do chefe chamou o vendeiro, que apareceu sem demora.

— Traga-me uma corda - disse Virgulino; - temos aqui um freguês.

Inácio, satisfazendo o mandado do chefe, voltou pronto, e os dois amarraram sem resistência os braços do desconhecido, cruzados sobre as costas.

— É um soldado de Pedro; bem me parecia que ele não tardaria a nos mandar visitar.

O velho Inácio custou a conter a impressão dolorosa que lhe causara a noticia.

A presença do emissário era uma prova de que Pedro tinha as vistas postas sobre a vendola, e por conseqüência que ele, o velho senhor e amigo da mesquinha propriedade, teria de perdê-la em breve.

— Eu não o poupava - ponderou o velho; - quem ao inimigo poupa nas mãos lhe morre. Cabia-lhe bem um tiro nas costelas.

— Tudo há de ser feito pelo melhor, não tem dúvida; este já não perde o trabalho. Por ora vamos dar-lhe o que comer.

O prisioneiro foi conduzido para a saleta do chefe, que, amarrou-lhe também os pés, e, satisfeito por não ter visto Eulália, e assim poder adiar por mais um dia a sua partida, saiu de novo recomendando o desconhecido aos cuidados do Inácio.

Eulália, porém, ouvira não só o assobio, mas a voz de Virgulino, e veio procurá-lo à saleta, onde apenas encontrou o desconhecido.

A presença deste homem, que, amarrado e cabisbaixo, olhou-a com uma súplica, fê-la estremecer e recuar.

— Não tenha medo de mim que não lhe posso fazer nada, moça - murmurou o desconhecido. - Quem é o forte aqui é o amigo do seu pai.

A curiosidade e a piedade, que lhe despertou o bandido, fizeram com que Eulália parasse e perguntasse por Virgulino, seu protetor.

— Saiu, foi talvez fazer emboscada a alguém que venha descuidado. é o ofício dele e o meu.

As palavras do bandido agravaram as suspeitas que, desde o primeiro encontro com o chefe, tinham atravessado o espírito de Eulália. A máscara que escondia o rosto de Virgulino, o seu modo de trajar comparado com a sua prodigalidade fizeram com que ela pensasse que havia alguma coisa misteriosa do seu protetor. Mas estas suspeitas desvaneceram-se espontaneidade do acolhimento que dele por duas vezes recebera, e sem que a mais leve sombra de interesse tivesse vundo diminuir o merecimento de tais atos. Agora, porém, as suspeitas irrompiam quase com a pujança da certeza.

Ficou a olhar perplexa para o desconhecido, a perguntar-lhe com os olhos o que não ousava pela voz.

— Sim, está na estrada com certeza. Lá é que é o lugar dos ladrões. Faça-se você também de criança, não sabe, hein? Pois admira; ele que se apresente em qualquer parte para ver se o conhecem logo ou não.

Corrida de temor e de vergonha por se achar em casa de ladrões, Eulália saiu precipitadamente, deliberada a partir no mesmo instante. O velho Inácio, porém, muito risonho embargou-lhe o passo, e Eulália, que, amedrontada pelas palavras do bandido, perdera toda a confiança nos seus hospedeiros, dissimulou a indignação.

— Passear com este sol é perigoso, Eulália. Não me disse que está com vontade de seguir viagem para o Ceará? Olhe que para navegar por essas estradas é preciso ter pernas.

— Andava em procura do meu protetor, ouvi-o falar ainda agora.

— Esteve aqui, mas saiu logo; não tarda por ai nem um minuto.

— Parece que ele anda a se esconder pela beira da estrada...

— É que não tem coragem de ouvir de Vossa Mercê a notícia de que quer nos deixar. Como sabe os perigos que se corre em andar hoje por esses caminhos, tem pena.

— Ele então sabe que há muitos perigos?... Como sabe?

— Pois se ele navega por elas dia e noite com o seu negócio...

Eulália, deixando-se calculadamente prender pela conversa, ficou e foi para a palhoça esperar melhor ocasião para retirar-se despercebidamente. A hora do jantar ofereceu-lhe o momento que ela já começava a considerar impossível. Negando-se a ir para a mesa, saiu furtivamente e enveredou pela estrada que se dirigia para o norte da província.

A sua caminhada, porém, não foi longa; o velho Inácio, terminado o jantar, veio procurá-la com a costumada solicitude, que era a de um fâmulo fiel e dedicado. Chamou-a, procurou-a na vizinhança da casa e, desanimando de encontrá-la, assobiou dando sinal a Virgulino.

— A d. Eulália anda por ai a procurá-lo. Disse-me que você talvez estivesse escondido à beira da estrada, e é provável que seguisse por ela.

Virgulino caminhou quase a correr, espiolhando com o seu olhar de bandido as margens do caminho, mas toda a sua perspicácia foi inútil; não encontrou o menor vestígio da passagem de Eulália.

— É que já voltou - pensou ele, e, dando de mão à pesquisa, retrocedeu para a vendola.

Vinha apressadamente, mas calmo porque lhe aprazia toda demora do encontro com a sua protegida. Todavia estava magoado; era agora seu dever procurar Eulália, falar-lhe para a piedade não fosse por ela julgada desprezo.

Um incidente desviou-lhe por alguns momentos a atenção. Inácio tentara, como Virgulino, arrancar do desconhecido a denúncia de Pedro, e insistiu com ele com a impertinência do pânico. Parecia-lhe fora de dúvida que a vida do traidor importava a perda da quadrilha dos Viriatos, e por isso era também coisa decidida para si que era dever seu e de seus companheiros tratar de obter o segredo, que guardava o refúgio do chefe rebelde.

— Está uma bonita sorte - ponderou ele ao prisioneiro; - parece mais um escravo do que um homem livre.

— A traição pode tudo: talvez que se o seu chefe, velho sem-vergonha, em vez de se esconder como a cobra enroscada no caminho, tivesse comigo uma briga cara a cara, não fosse eu quem aqui estivesse.

— É verdade; grande covardia a do Desempeno; heróis são vocês que sempre oferecem luta cara a cara. Você vinha aqui justamente para fazer isto.

A ironia doeu ao prisioneiro mais do que se o houvessem desfeiteado. Um rápido pestanejar e o tom da sua voz o exprimiram.

— Mas nós somos o menor número, os fracos; podemos servir-nos de todos os meios.

— E por que é então que você se envergonha? – perguntou Inácio; - se é coisa líquida, como lhe custa a fazer?

O desconhecido não respondeu; ao contrário, perdendo a altivez colérica com que olhava para o velho, cravou no chão os olhos, como se o peso do vexame fosse para si irresistível.

— Vamos - continuou Inácio; - você não é para fazer parte da quadrilha de Pedro, porque é um homem de brio. Para aquele miserável, só os cães como ele. Os cães que tenham coragem para atacar mulheres, para as afrontar na sua honra, para insultar os fracos e indefesos. Não assim você que tem vergonha de qualquer ato de covardia, mesmo quando é para com o chefe de seus inimigos. Vamos, amigo, faça a vontade ao Desempeno, venha para nós, que não abandonamos os nossos na hora do perigo. Ele, porém, como teve cara para trair amigos, terá para vendê-los.

Quando Inácio acabou a sua estirada de entusiasmo, que se aumentava tomando o silêncio do prisioneiro por aquiescência, este replicou-lhe por um laconismo pungente:

— Todo o medroso tem a língua comprida; fale até se esbofar.

— Eu quero a sua felicidade.

— Pois eu quero o sangue de vocês todos, e, se não bebê-lo eu, beberá alguém por mim.

O velho vendeiro mediu até o fundo do coração do desconhecido o ódio intenso que lhe deviam os Viriatos. A sua última frase traduziu-o pela entoação rancorosa, e completou-o por um sorriso escarninho.

— Então você prefere a morte, não é?

— O que quiserem, menos chamá-los meus companheiros.

— Porém, que mal lhe fizemos nós? Poupar-lhe a vida.

— Os Viriatos andam à noite, como as corujas agoureiras, como as onças; assustam e matam sem ver a quem o fazem. Nenhum deles por isso mesmo conhece as suas vítimas, nem é por elas conhecido, e no entanto ficam da passagem dos bandidos rastros de sangue e de cinzas, resultado dos assassinatos e dos incêndios.

— Ah! - exclamou Inácio. - Você tem-nos ódio velho; está bem, falando é que os homens se entendem.

O vendeiro voltou as costas ao seu interlocutor, e foi sentar-se na venda a meditar. Sabia bem que a generosidade de Desempeno era inquebrantável e que ele não voltaria atrás a concessão que tinha feito ao desconhecido; enquanto o retivesse prisioneiro, fosse qual fosse o crime praticado, não o mataria.

Inácio não pensava do mesmo modo; entendia que se tratava de uma questão grave a cuja solução não podia ser outra senão o extermínio de uma das quadrilhas: ou os Viriatos ou Pedro.

— Com os diabos - pensava ele; - o cabra teve como primeira idéia mandar-nos desta para a melhor; hoje mesmo à noite devíamos ficar todos espichados, e nós é que havemos de poupar a vida àquele mesmo que veio para roubar a nossa! Não entendo e não consinto.

Olhava para a larga faca que tinha sobre o balcão, muito polida, luzindo como um olhar guloso, mas não ousava pegar dela para vibrá-la contra o desconhecido, porque sabia que a sua pagaria a vida traiçoeiramente roubada.

— E há de viver - resmungou juntando as mãos -, e talvez venha a matar-nos. Um assalto liberta-o, e nós seremos vítimas. Não, não há de viver.

Saiu e, chegando à palhoça, ordenou que lhe dessem o jantar para o prisioneiro. Quando lhe entregaram o prato, o velho, muito trêmulo, veio de novo à vendola e de uma das prateleiras tirou uma pequena boceta, que estava cheia de umas bagazinhas rubras. Machucou com o cabo da faca algumas delas e, misturando-as à comida, entrou na saleta e depôs o prato junto ao prisioneiro. Voltou ao negócio, e, tomando a garrafa de vinho e um copo, dirigiu-se amigavelmente ao desconhecido:

— Enquanto não vem o dia da briga, sejamos bons camaradas.

— Pois não; eu tinha mesmo necessidade de comer e tomar trago à saúde de Pedro.

O corajoso emissário virou de um gole o copo que lhe apresentado e pôs-se a comer com o apetite produzido por uma longa jornada.

— Que tal, hein? Ao menos bem temperado nós comemos; de fome é que não se morre - disse Inácio.

— Não é mau, não; podia ser pior.

O velho seguia com o olhar os bocados tirados pelo prisioneiro, e ia-se gradativamente alegrando.

— Enfim! - resmungou ele, ao tirar o prato. - Deste estou livre.

Inácio não se enganava; meia hora depois o desgraçado emissário estorcia-se com uma coragem lacedemônia, sem deixar fugir um ai, e tinha no semblante todos os sinais do envenenamento. O velho, para coonestar o crime, certo de que o desconhecido não podia mais evadir-se, desamarrou-o, e chamou para a saleta toda a família.

Foi neste momento que Virgulino entrou, e Inácio, com o sangue-frio de um velho envenenador, disse-lhe:

— Chegou a tempo, este desgraçado está expirando.

— Como? - perguntou o chefe surpreso, e depois de ver que nenhum ferimento dava causa à morte, acrescentou: - que ele envenenou-se.

— Talvez - murmurou Inácio; - não há de ser outra coisa.

A comoção do chefe, que demonstrava os seus sentimentos generosos, foi presto sufocada pelo egoísmo da própria conservação.

— Foi melhor assim - disse ele depois de uma pausa; -livrou-nos de recorrer a outro qualquer meio. Prestou-nos um grande serviço.

— Se todos os companheiros do Pedro têm igual sorte, não há muito que recear deles.

— Pois eu penso de modo contrário; veja qual o ódio que ele nos tem, que passa logo aos que se lhe associam e os faz preferir a morte a viver por uma graça nossa.

Inácio meneou a cabeça concordando com o chefe e, olhando de través para o moribundo, perguntou:

— O que acha você melhor, Desempeno: deixá-lo aqui, ou pô-lo lá na estrada? Eu não estragava caridade com semelhante bicho.

— Não - intervieram as filhas de Inácio; - é um cristão e não deve ser atirado à estrada como um cachorro.

Virgulino compartiu a piedade das mulheres, mas o moribundo como que se apressou em vir em auxílio do temor do velho em conservá-lo por mais tempo na vendola. Teve uma contração fortíssima, mas logo, esbugalhando os olhos injetados, e arregaçando os lábios sobre os dentes cerrados, inteiriçou-se para não mais mover-se.

— Foi-se - exclamou Inácio; - vejamos se ainda assim querem que ele fique. Dirão todos que ele foi morto por nós.

— Agora, sim; é preciso tirá-lo daqui. Vamos conduzi-lo até a estradinha.

— Saiam vocês - bradou Inácio, vendo o semblante da família; - isto é negócio nosso. Olhe cá, minha velha, uma sede lavada; quero que este pé-rapado goze ao menos de um pouco de limpeza na hora da morte.

Não demoraram a entregar a rede ao vendeiro, que por sua vez apressou-se em arranjar o cadáver dentro dela.

— Pronto, meu chefe, fora com ele - sorriu o velho; - não será ele quem nos faça mal; de um já estamos livres.

Virgulino curvou-se para enfiar a rede no caibro que o velho tinha entre mãos, quando um grito de espanto e uma exclamação dolorosa o fez olhar para a porta.

— O que tem, d. Eulália? - exclamou o bandido saltando para junto da sua protegida prestes a desmaiar. - Não se assuste que isto nada vale. Foi um retirante que veio morrer aqui de cansaço... Sossegue, isto acontece todos os dias.

— Já passou - murmurou Eulália esforçando-se para mostrar calma. - É que eu ando tão fraca e tenho ouvido falar muito em morte que não posso ver um defunto.

— Vá para onde estão as suas amigas - disse o velho com um tom acariciador -, nós voltaremos aqui num pulo.

Eulália obedeceu, e os dois, colocando nos ombros a carga funerária, internaram-se pela estrada lateral, que desembocava detrás da vendola.

Quando voltaram já era tardinha, e vinham ambos sombrios. Eulália, que os esperava ansiosa, porque desejava obter de Virgulino permissão para partir, arreceou-se de falar-lhe. Na sua imaginação a bondade de seu protetor parecia-lhe agora um plano indigno, e, para não dar ocasião a que ele o realizasse, justificando-o com qualquer ato seu, foi que voltou, arrependendo-se da fuga. Ao ver agora o chefe, Eulália pensou consigo que era chegado o dia em que ela devia começar a pagar os favores recebidos.

— Zanga-se pela menor palavra e faz disto pretexto.

Conservou-se, pois, silenciosa, mas, vendo que nem o mascarado nem o velho dirigiam-lhe a palavra, e, ao contrário, pareciam evitá-la, resolveu-se a espreitá-los e escutá-los de longe.

— Não há dúvida que ela deve partir, ou fica sabendo de todos os nossos segredos e você bem sabe o que são mulheres.

— É exato, velho Inácio; ela parece amedrontada e eu aproveito a ocasião para conseguir que ela parta comigo.

— Consigo? E se vierem atacar a casa?

— Tanto faz um como dois; não durma você cá dentro. Vão-se os anéis e fiquem os dedos. O certo é que eles não podem chegar aqui hoje, e amanhã temos cá o Onça ou o reforço. Eu vou falar à d. Eulália. Fica assentado.

Virgulino encontrou-se perto com a sua protegida, que só se afastara mais depois de ouvir o final da conversa, e alegre com a idéia da partida, ainda que temesse a companhia.

Poucas palavras trocaram para que resolvessem que a viagem devia ser imediatamente.

— Aproveita-se a fresca da tarde e da noite; é sempre melhor do que o sol do meio-dia.

Eulália limitou-se a concordar, embora objetasse que não era preciso o incômodo que o chefe insistia em tomar. Tinha medo, mas disfarçava o temor que lhe causava o companheiro, recordando-se das palavras que lhe ouvira, nas quais parecia haver inteira isenção de qualquer indignidade.

— Vá lá, seu maganão - exclamou Inácio ao ver o chefe montado e Eulália a endireitar-se na garupa; - vai ser uma noite de rosas.

Virgulino não respondeu senão por um olhar repreensivo. Eulália, porém, corando muito, murmurou:

— O sr. Virgulino disse-me que me protegia, porque eu prestei não sei que serviços à sua família, não é verdade?

— É sim senhora, d. Eulália, e estou pronto a servi-la até a morte.

Calaram-se ambos, e Virgulino esporeou o cavalo, o seu valente companheiro de correrias e assaltos, que em marcha certa e uniforme enveredou pela estrada geral.

A noite veio dentro em uma hora envolver o grupo, e Virgulino, que temia que a sua companheira se estivesse fatigando muito, dirigiu-lhe a palavra:

— Não acha bom que descansemos um pouco? Teremos feito uma légua, mas ainda falta mais de meia dúzia para chegar ao pouso.

— Eu não estou cansada - respondeu Eulália estremecendo, por julgar tais palavras um ardil do bandido; - gostaria mais de seguir.

Virgulino, percebendo o temor que involuntariamente inspirava, não objetou e, estimulando o animal, fê-lo prosseguir na marcha cômoda e ritmada.

Eulália, à medida que se adiantava a noite, e convencia-se da pureza das intenções do bandido, admirava-se de tamanha generosidade, e teve ímpetos de abraçá-lo, quando pela madrugada Virgulino, fazendo parar o animal, disse-lhe submissamente:

— Aqui é preciso que nós nos separemos; o pouso fica a meia hora de caminhada, e Vossa Mercê pode chegar lá antes que o sol clareie. Eu não posso ir mais longe.

— Obrigada - murmurou Eulália -, eu sei que se o senhor me deixa é que posso seguir só.

Apearam-se ambos e Eulália, sentando-se, pôs-se a olhar para Virgulino, que se mostrou perturbado.

— Quero pedir-lhe perdão - murmurou ela. - Fui muito ingrata para consigo. Aquele homem, que morreu na casa do Inácio, fez-me julgá-lo assassino - murmurou Eulália, continuou relatando a breve conversação que tinha tido com o comissário de Pedro.

— Não tenho nada a perdoar-lhe, d. Eulália; eu é que devo ser perdoado, pelos sustos que lhe causei. Aquele homem não lhe enganou, eu sou com efeito um ladrão.

O epíteto foi acentuado com o desprezo com que um inimigo de Virgulino o pronunciaria para aviltá-lo, e Eulália, tomando-o por uma ironia proferida para magoá-lo, murmurou:

— Não; eu estou agora convencida de que o senhor não é um ladrão. Um ladrão nunca é assim generoso!

— Sou um ladrão, sim - repetiu Virgulino -, mas não fui eu quem procurou sê-lo... fizeram-me. Lembra-se da noite em que na paróquia de B. V. apareceu uma família à noite, e o sacristão e o vigário e outros deitaram-no fora, porque o chefe tinha na testa a cruz com que se marcam os ladrões? Veja se conhece o homem de quem Vossa Mercê, sua amiga e seus pais tiveram tanto dó?

Virgulino desatou a máscara que o disfarçara por tanto tempo a Eulália, e continuou:

— Eu jurei nessa noite que não era um ladrão, e juro-o ainda agora. Mas Vossa Mercê não sabe o que é trazer em si este sinal cruel. É como que fechar o mundo à gente e obrigar a ser mau. Lembre-se do que se passou naquela noite, pois é o mesmo em toda a parte. Os filhos, a mulher, as irmãs, os parentes do desgraçado choram, morrem à fome, e a maior parte do povo ri-se, atirando-lhes à cara o insulto pungente filho, mulher, irmã, parente de um ladrão. B. V. deu-me abrigo, mas além da paróquia estava todo o Ceará, e eu tinha de caminhar.

— Talvez achasse quem o socorresse como na nossa paróquia.

— Talvez, mas havia anos que eu sofria e só Vossa Mercê e sua amiga e seus velhos pais tiveram pena de mim!

O Feiticeiro chamou-me para ser o que todos diziam que eu era, e eu vim para dar aos meus filhos algum dia o direito de viverem contentes fora daqui.

— Contentes - pensou Eulália -, quem sabe se eles viverão ainda!

— Eu sou muito desgraçado! d. Eulália, e alegro-me por não ser de todo perverso. Adeus; reze a Deus para que desapareça de mim o sinal que me faz tão mau, e diga aos meus filhos. se algum dia os vir, que o seu pai comete crimes, porém nem por isso deixa de ser agradecido a quem teve piedade dele!

O mísero bandido, atirando ao colo de Eulália um pequeno embrulho, montou de novo a cavalo e partiu rapidamente, deixando a moça enredada na confusão que lhe causava aquela natureza contraditória, que aliava à nobreza de um cavalheiro a abjeção de um bandido.

Ficou por muito tempo a olhar para o lado em que desaparecera o cavaleiro, absorta como se estivesse a sonhar acordada e, quando distraiu-se, murmurou

— Que diferença entre o bandido Virgulino e ele!...

Pronunciando esta última palavra, porém, como se ela contivesse em si um mundo de fantasmas, Eulália teve medo de estar só e levantou-se a olhar em torno de si. O embrulho, que Virgulino atirara-lhe ao colo, caiu tinindo o som do bater de moedas de ouro. Olhou-o com desprezo; a sua alma, afinada pela delicadeza moral de que o velho Queiroz dera provas não querendo fazer parte da comissão dos socorros; a sua alma, educada em extremados escrúpulos, rejeitou a esmola que vinha de uma fonte indigna.

— Antes morrer do que me servir de tal dinheiro! - pensou ela, e deu alguns passos.

O cansaço da viagem, porém, dificultando-lhe os movimentos, alquebrando-lhes o organismo, levantou a brutalidade dos instintos sobre a delicadeza dos sentimentos. Vieram-lhe à memória todas as narrações pavorosas que tinha do a respeito dos retirantes, que morriam em grande parte de fome. Deixar a esmola de Virgulino era o mesmo que se suicidar. Não teve coragem para persistir na sua resolução, e, deixando-se a olhar desconfiada, guardou no seio o tesouro que lhe fora dado.

Pôs-se a caminhar apressadamente, enxugando as lágrimas que lhe caíam em fio.