Os Retirantes/II/VIII

Os Retirantes por José do Patrocínio
Segunda parte: a retirada, Capítulo VIII


Eulália, impelida pela alucinação que lhe causara a certeza do insulto recebido pela família, tomou automaticamente a estrada apontada, mas o cansaço e a reflexão vieram logo detê-la. De que serviria aventurar-se por desconhecidos caminhos sem alguém que lhe servisse de guia?

A bolsa, que lhe fora dada pelo bandido, lembrou-lhe que podia obter um guia, e Eulália, voltando ao povoado, não regateou o pagamento.

Horas depois, a pé, suando ao ardor do sol, embora já declinado, recomeçou a caminhada.

À medida que se adiantava, dobrava o terror que lhe causava o amargo pressentimento das desgraças a que estava exposta a sua família. O deserto, com o seu corpo pardacento, seco e ardente, havia-se estendido a fio comprido por toda a circunvizinhança. As casas tinham sido abandonadas, e as portas e janelas, desconjuntadas pelas ventanias freqüentes, agravavam ainda mais a tristeza desses mesquinhos monumentos da prosperidade extinta da província. A nudez substituíra a vegetação, e o verão deixara um rastro negro sobre os lugares outrora cultivados, como se fora uma lápide sobreposta aos mortos plantios.

— O que será feito delas? - pensava Eulália. - Que forças há que possam resistir a jornadas longas por esta paragem desabrigada?

— É preciso ir mais devagar - observava de quando em quando o companheiro; - daqui ao Quixadá vão mais de 20 léguas.

Eulália, porém, apressava mais o passo quando o camarada lembrava-lhe a grande distância que a separava do ponto povoado. A sua imaginação media pela distância a extensão da penúria a que estavam reduzidos os seus, e os pés reproduziam-lhe a agitação do espírito.

— Não lhe parece que duas mulheres, tendo de carregar uma menina de quatro anos, e de medir o passo pelo de duas meninas, não podem andar muitas léguas por dia?

— É exato; mas em três dias podiam estar perto de Quixadá, a não haver contratempo.

— Podiam, se não tivessem necessidades; mas estas devem obrigá-las a parar.

— Qual! A fome dá asas à gente; já podem estar em Quixadá.

— Encontrá-las-emos lá então, mas é preciso caminhar.

E dobrava a celeridade do passo, e tinha desejos de deitar fora as provisões para que a necessidade a impelisse com maior presteza.

A noite, porém, veio providencialmente obrigá-la a parar, para que não ficasse logo extenuada.

Três léguas fizemos nós hoje - ponderou o companheiro; - amanhã podemos andar pelo menos mais do dobro, e depois de amanhã dormir perto de Quixadá.

O honrado camarada pôs-se logo a acender fogo para preparar a alimentação; e Eulália, ao ver as labaredas crescerem, enquanto o camarada desarrumando o mocó de viagem punha no chão as provisões, desatou a chorar.

Passava-lhe pela imaginação o quadro medonho a que necessariamente estariam reduzidas sua tia e irmãs, e a fartura em que ela se via pungia-lhe mais do que todas as suas dores.

Rogério Monte, o padre Paula, Augusto Feitosa surgiam todos diante de si e cada um dizia-lhe uma palavra amarga, que a sua consciência comentava em silêncio, afeiando-lhe a sorte de d. Ana, Chiquinha e suas irmãs.

Todavia, por maiores que fossem as torturas que lhe causasse a cogitação, elas não reproduziam nem palidamente a sorte da família.

Depois da inaudita violência, que foi obrigada a sofrer sem reagir, d. Ana apenas teve tempo e recursos para arranjar provisões para um dia. A boa mulher, que fora involuntariamente causa da cena aviltante, prestou-se a vender-lhe as jóias e ir clandestinamente encher de água as borrachas ou vasilhas de couro, que dariam, quando muito poupadas, para que a família se arraçoasse por três dias. Com esta matalotagem seguiu viagem.

No primeiro dia não sofreu senão o cansaço e apenas afligiu-a o horrendo temor da fome. Porém, a esperança, a eterna companheira dos desgraçados, atenuava-lhe a angústia, e ela conseguia espairecer e até rir-se, e falar alegremente às meninas para dar-lhes coragem.

— Agora restam-nos poucas léguas; não tarda muito que não encontremos alguma casa habitada, e dizia-me o defunto mano que esta gente por aqui era muito caridosa.

Tais palavras produziam o resultado esperado por d. Ana: encorajar as meninas, que não cessavam de caminhar. A própria caçula, com o seu descuido infantil, queria, de quando em quando, descer do colo para andar também pelo próprio pé e ir brincando com o Amigo.

No dia seguinte, porém, as provisões, embora poupadas, só podiam chegar para iludir a fome, e não obstante a casa habitada não aparecia. O cansaço e o desânimo tomaram o lugar da coragem, e só a muito custo d. Ana pôde conseguir que só se parasse com a noite.

Com a manhã do terceiro dia, a família viu aparecer de novo em torno de si o deserto, mas agora agravado pela fome. As meninas tinham já os pés disformemente inchados, e a caçula estava prostrada pelas soalheiras e pelo começo da fome, cujos efeitos fatais d. Ana evitava dando, de quando em quando, uma bolacha à pobrezinha.

De todo o grupo, só um dos entes se mostrava corajoso e enérgico: era o Amigo. O nobre cão jejuava desde o pouso; havia emagrecido muito e tinha os olhos vermelhos, de modo que a família começava a recear que ele viesse a danar. Mas ainda assim não tinha perdido o porte altivo; parecia um mártir a caminhar sereno para o suplício. Era o primeiro sempre a sair e agora, como se percebesse que falecia a coragem aos seus companheiros de infortúnio, corria até o meio da estrada, latia e vinha puxar pelo vestido de d. Ana.

A jornada foi, afinal, encetada, mas a fadiga, duplicando a fome, fez com que não se adiantasse muito para o estádio da viagem, a vila de Quixadá.

À noite as meninas deitaram-se e adormeceram extenuadas, e a caçula, que também ficara sem o que comer, queimada pelo sol, ardia em febre. D. Ana e Chiquinha, sentadas uma em face da outra, choravam sem trocar uma única palavra. O Amigo também parecia ter desanimado, e, ao clarão das frouxas labaredas do fogo que as infelizes haviam com muita dificuldade acendido, o nobre cão embebia nelas o olhar.

Durou por muito tempo o silêncio, mas afinal Chiquinha quebrou-o bruscamente perguntando a d. Ana:

— Vosmecê lembra-se do que nos contou aquela mulher a respeito do que ela e a família passaram?

D. Ana meneou afirmativamente a cabeça.

— Começaram comendo raízes do mato...

— É que elas conheciam as ervas de que podiam aproveitar as raízes, porém nós...

— Mas depois - continuou Chiquinha - mataram a besta que trazia as cargas e comeram-na.

— Nós não temos besta - sorriu tristemente d. Ana -, portanto, não podemos fazer o mesmo. Temos de esperar com fome até que encontremos algum croatá.

— Mas nós temos...

— O quê? - perguntou d. Ana interrompendo-a.

— O Amigo - respondeu Chiquinha, que abaixou os olhos.

O cão, ouvindo o seu nome, pulou ao colo de Chiquinha e deitou para fora a língua larga e vermelha, meneando-a com intenção acariciadora.

— Eu não tenho coragem - murmurou d. Ana; - era muita ingratidão!

— É a necessidade! - exclamou Chiquinha enxugando as lágrimas. - Não é verdade, Amigo?

O nobre animal, que, afastado brandamente por Chiquinha, havia-se espichado junto a ela, bateu com a cauda no solo e soltou um latido festivo.

Dir-se-ia que neste movimento o Amigo fazia um oferecimento da sua à vida da família e que lhes suplicava até a honra desse holocausto.

D. Ana e Chiquinha, compreendendo assim a atitude do Amigo, fundiram em lágrimas, que de há muito buscavam um pretexto para correr livremente e com a abundância do tormento que lhes dava causa.

— Não, não! - exclamaram ao mesmo tempo. - Seria um crime.

O Amigo, levantando-se de chofre, caminhou num passo picado em torno das meninas adormecidas, farejando-as como se quisesse confortá-las com o bafo. Voltou a esticar-se de novo aos pés de Chiquinha, a ganir acariciadoramente, e, como as senhoras se conservassem imóveis, tornou ao passeio em volta das adormecidas.

A caçula acordou estremunhada, e, com um choro doloroso, repetiu com uma acentuação comovente:

— Não posso mais, eu morro de fome.

Os esforços de d. Ana e Chiquinha para acalentá-la foram vãos, e dentro em pouco despertavam também, com o semblante lastimoso do faminto, as duas meninas.

O Amigo, como se quisesse repreender as senhoras que o poupavam prolongando assim a angústia das crianças, latiu alto, parando hostilmente em face de Chiquinha.

A moça hesitou ainda, mas afinal, como se fosse tomada de um acesso de loucura, levantou-se, e, tomando um dos tições, chamou com uma castanhola o nobre cão, que a seguiu sem relutar.

Estavam abrigadas numa das muitas casas abandonadas que marginavam a estrada, e Chiquinha, entrando para o compartimento destinado à cozinha, amarrou com as cordas da rede o pescoço do Amigo. O animal, levantando-se nas patas traseiras, estendeu para ela as dianteiras e pousou-lhas sobre o ombro, como se a buscasse abraçar.

O choro da caçula, a sua triste queixa de que ia morrer soaram com mais força. A moça, revestindo-se de uma heroicidade semelhante à alucinação, passou em um dos caibros a corda e puxou-a até que o fiel companheiro dos seus infortúnios começasse a sentir os primeiros efeitos do estrangulamento.

D. Ana, ouvindo o latir engasgado do Amigo, correu até o lugar da execução, mas Chiquinha longe de desanimar comunicou à tia a sua resolução e dentro em pouco o corpo do nobre animal caia em terra, inerte e sem vida.

— Vamos, minha tia, é preciso ter coragem, ou senão veremos todas aquelas crianças mortas.

Horas depois, as duras carnes do Amigo faziam calar a caçula, e, satisfazendo as duas meninas mais velhas, diminuía a dor das duas senhoras.

No dia seguinte, quando Eulália chorava lembrando-se de que à mesma hora talvez a sua família sofresse as indescritíveis torturas da fome, d. Ana e suas sobrinhas dormiam com o peso do cansaço o sono do apetite satisfeito, graças ao corpo do Amigo.

Eulália conciliou também o sono na sua pousada e só pela madrugada voltou à tristeza dos seus pensamentos e à ousadia da sua empresa. Metendo-se a caminho, a sua imaginação via em cada estremecimento, em cada redemoinho de poeira, que se levantava na estrada, o passar da sua família.

Talvez em vez de adiantar a jornada retardava-a, e foi por vezes advertida pelo camarada, que pôde por fim obter que seguissem em linha reta.

O dia findou sem que o menor vestígio deixasse perceber a passagem da família; nem uma só pessoa apareceu de quem pelo menos uma informação vaga servisse de incentivo à esperança.

Ao anoitecer, porém, quando o camarada já exigia de Eulália que ela se recolhesse para não se afadigar muito, um vislumbre de esperança veio indenizar-lhe em parte o sofrimento do dia.

Passavam por diante de um casebre, de frente esburacada, já sem janelas e sem portas. Vinha de lá um berreiro de crianças.

— Ouve? Quem sabe se não são eles?

— É impossível, minha ama; eles devem chegar hoje a Quixadá.

— Mas podiam ter ficado por aqui por causa das crianças.

— Por isso mesmo não ficariam.

— Pois bem, vá saber quem é; devemos pousar dentro em pouco tempo, e sendo boa gente...

— Podemos fazer ponto aqui.

— Ouça, pergunte se é a família de d. Ana Queiroz, ou se a conhecem, mas não diga o meu nome.

O camarada dirigiu-se à casa, enquanto Eulália, sentada a distância, aguardava, deleitando-se com a esperança de haver enfim encontrado com a sua família.

Um quadro de miséria esbateu-se aos olhos do companheiro de Eulália. Da porta da entrada viu no interior da casa uma família inteira, composta de moças e de crianças agrupada em torno de uma velha, que, recostada ao colo de uma das moças, ansiava a respiração dificultosa dos moribundos.

Entrando com a precipitação da compaixão, o camarada foi parar junto do grupo e proferiu a pergunta que a sua ama lhe recomendara.

— Não - respondeu uma das moças; - somos uma família que morre à fome.

— Mundica! - exclamou o camarada, reconhecendo uma das moças. - Como é desgraçada!

— Conhece-me? - soluçou a filha do sacristão. - Pois quando voltar ao povoado diga lá se fui eu quem roubou o comissário.

O homem, em quem palpitava um coração cearense na plenitude da virgindade sertaneja, teve ao ouvir estas palavras uma impressão indefinível. Sabia que a mais brutal das ofensas tinha sido por ordem de Mundica praticada contra a família de Eulália. Talvez a esta mesma hora, pensou ele, estivesse aquela a padecer o mesmo tormento, pois que era quase impossível que, sem dinheiro e sem provisões, alguém atravessasse incólume as estradas da província. Como, pois, socorrer as desgraçadas que ali via às portas da morte? Além disso, embora sua ama viesse prevenida para socorrer os seus, quereria ela abrir mão de alguma coisa para socorrer estranhos e inimigos?

O desespero em que o emaranhavam tais pensamentos fê-lo demorar mais do que o tempo que devia gastar para uma simples pergunta, e Eulália, tomando a demora por um bom agouro, caminhou até junto da casa.

— São elas, não é verdade? - perguntou ao ver o semblante comovido do camarada que saía. - Sofrem muito?

— Sofre-se muito aqui, morre-se mesmo à fome, porém não é a sua família.

— Pois fiquemos entre eles - murmurou Eulália suspirando longamente a sua desilusão; - não pode haver melhor companhia.

O camarada baixou os olhos confuso, e, como Eulália se encaminhasse para entrar no casebre, o leal companheiro veio postar-se-lhe na frente.

— Vossa Mercê não deve entrar, faça pelo amor de Deus uma obra de misericórdia às infelizes que lá estão dentro, mas não entre, porque talvez se arrependa de ter querido praticar tão boa ação.

— Não me disse você que as pessoas que aí estão dentro morrem à fome?

— É verdade, porém Vossa Mercê tem-lhes ódio.

— Eu?

— Sim, e não as perdoará nem na hora da morte.

— É então Mundica? E a família da malvada? - interrogou Eulália arquejando.

O camarada abaixou os olhos; e ambos conservaram-se por algum tempo em silêncio, mas afinal a vítima de Mundica murmurou a soluçar:

— Avie-se para que encontremos outro pouso, e dê à gente que lá está dentro metade do que trazemos.

O camarada, aturdido pela generosidade de Eulália, entrou apressadamente na casa e foi entregar a Mundica o socorro inesperado.

A ex-amante do comissário, entregando-se a expansões de gratidão, e como invocasse os céus em paga da piedade que lhe vinha em auxílio, observou-lhe o camarada:

— Antes de tudo, você deve pedir um perdão; ajoelhar-se aos pés de uma pessoa a quem maltratou muito.

— Nunca ofendi ninguém que não me houvesse ofendido antes, mas ainda assim farei.

— Venha então comigo; esta esmola, que acabo de trazer-lhe, não é dada por mim; quem a dá é d. Eulália.

— Quem? Eulália?! - exclamou indignada. - Pode levar outra vez o que me trouxe. Eu sabia que ela devia estar farta e feliz, enquanto eu vivesse abandonada. Diga-lhe que nunca hei de curvar-me a ela, a comborça.

O camarada no primeiro ímpeto de indignação pensou iludir a ama e deixar Mundica e os seus entregues à penúria. Chegou a dar alguns passos, mas o seu coração cearense deteve-o.

— Diga o que quiser, fera, come e quando tiver mais força calunie, insulte e persiga a quem a salvou. Deus queira porém que o dia de hoje não volte, e sem remédio.

Sem dar tempo à resposta de Mundica, o honrado camarada saiu deixando a orgulhosa faminta irresoluta sobre a decisão a tomar.

Eulália, que se havia afastado, perguntou ao ver chegar o camarada:

— Poderá salvar-se a família?

— Sim - respondeu ele; - Vossa Mercê foi o anjo da guarda que lhes apareceu.

— Elas hão de pedir a Deus por quem lhes dá esmola - ponderou Eulália pensando em Virgulino; - e isto servirá para redimir-lhe os pecados.

— Elas amaldiçoarão o benfeitor - pensou o camarada; - aquelas feras não agradecem.

E o camarada era quem tinha razão. Mundica veio até a porta a fim de verificar se era com efeito Eulália quem vinha em socorro da sua família. Não pôde reconhecê-la pela distância em que já se achava, mas, vendo uma mulher, a rival de Eulália acreditou no camarada.

A generosidade extrema não a comoveu. Só um pensamento a dominou: foi que Eulália vivia feliz, podia atravessar a província e abastada a ponto de dividir com quem sofria; não obstante a miséria, vigilante como uma alfândega, espiar à beira da estrada, pedindo a todos uma contribuição penosíssima de lágrimas e de sofrimentos.

De onde lhe poderiam vir os recursos senão do vigário Paula? Conhecia-a bastante, sabia que ela fraqueara diante da sedução, mas não se rebolcaria facilmente na prostituição. Era por força Paula.

E Mundica amava-o ainda. Se não lhe dera as primícias da sua formosura, compensava-as com uma paixão que irrompia do ardor tumultuoso da mocidade. Traíra-lhe o segredo porque fora por ele ofendida no egoísmo da paixão, e agora com a separação sentia que o amava ainda mais.

Amá-lo-ia Eulália? Não o podia amar tanto quanto ela o amava, e, não obstante, Eulália fora a preferida, podia viver na abastança, enquanto ela acabava de ser ameaçada mortalmente pela fome.

Amélia ocupara-se imediatamente em socorrer a velha e fazer calar as crianças. Mundica, porém, hesitou em servir-se das provisões que lhe foram dadas pelo camarada; e só depois de longo meditar assentou-se junto de sua irmã e pôs-se a partilhar da refeição.

A desgraçada - disse ela sorrindo - veio dar-me forças para a vingança.

Amélia estremeceu ao ouvir sua irmã e murmurou:

— Você tirou o gênio de meu pai, até me faz medo.

— É que ainda está criança, não compreende o que isto é. Eu tenho coragem de matá-la.

Logo que terminou a refeição, Mundica foi ter com sua mãe e pôs-se a encorajá-la.

— É preciso que cheguemos a Quixadá, minha mãe; partiremos amanhã, não é verdade?

— Sim, partiremos amanhã.

— E lá nos encontraremos - resmungou Mundica -, havemos de ver quem vence.

No dia seguinte, pela manhã, as duas rivais saíam das pousadas em que haviam passado a noite.

Durante a jornada, Mundica, que por largas horas conservara-se calada, rompeu de improviso o silêncio.

— Vou pensando no caso do abarracamento.

— É o que você sempre nos arranja; já lá na paróquia você, por ser linguaruda, deu ocasião à barulhada.

— Eulália esteve também parada no abarracamento e, com certeza, esteve lá na noite em que o Cassiano deu por falta do dinheiro.

— E o que tem ela com isto?

— O vigário Paula esteve também lá. Eu aposto em como o vigário, que estava hospedado na casa do padre Belmiro. era ele.

— Pode bem ser - respondeu Amélia distraidamente.

Um longo silêncio seguiu-se à breve troca de frases, e só ao meio-dia, quando pararam para descansar, recomeçaram a conversação.

— Se eu encontrasse com Eulália, na posição em que estive no abarracamento, feliz e respeitada, sabe você o que eu fazia?

— Não - respondeu Amélia - mas devia ser por força uma maldade.

— Havia de procurar todos os meios de comprometê-la, e, se ela mandasse meter o chiqueirador em pessoas da minha família, havia de procurar perdê-la.

— E ela ainda tem mãos para nos dar esmolas.

— Eu, por exemplo, se viesse acompanhada de meu amante, pedia-lhe que se introduzisse de noite na casa do comissário.

— E depois? - perguntou Amélia corando.

— Depois dizia-lhe que ouvisse o que se conversava, e, finalmente, que sabendo que em uma lata estava o dinheiro, ele o roubasse para que a minha inimiga passasse por ladra.

— Mas Eulália era incapaz de proceder assim.

— Mas, como não se deu isto, fui eu quem roubou Cassiano.

— Não foi você, mas também não foi Eulália.

— Veremos; a justiça de Quixadá há de decidir isto.

— Mas o que vai você fazer, minha irmã? - perguntou Amélia estremecendo.

— Fazer com que Eulália diga de onde lhe vem o dinheiro com que dá esmolas. Ao menos ela e o vigário hão de confessar publicamente que são amantes.