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N’esta colheita de dôres
Pelo mundo todo andei,
No pranto dos peccadores
As minhas vestes molhei.
 
Vagueando dias e dias,
Chegára á Judéa emfim,
Quando um clamor de agonias
Veio de longe até mim.

O sol, o sol inflammado
D’estas terras orientaes,
Tinha no disco afogueado
Não sei que estranhos signaes.

Soavam menos distantes
Sinistros brados de dôr,
Choros de mães e de infantes,
Cantos de morte e terror.

Vi anjos de azas nevadas
Em bandos subir ao céo,
Quaes pombas amedrontadas
Fugindo á voz de escarcéo.

«Onde ídes? Quem vos persegue?
A que tormentas fugis?»
Um, que triste o bando segue,
Estas palavras me diz:

«Somos as almas de infantes
Mortos em guerra feroz;
Inda das mães delirantes
Nos chama a sentida voz.

«Só a materna saudade
Nossa carreira detem,
Embora no céo, quem ha de
Esquecer, o amor de mãe?»

Disse e o semblante formoso
Com as azas encobriu,
E ao bando silencioso
Silencioso se uniu.

Eu segui. Na impia cidade
Aterrada penetrei...
Ai, da fera humanidade
Os meus olhos desviei!