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CARTAS DE INGLATERRA

corredor, aos pares, toda a côrte seguiu á sala de jantar o rei Arthur, que levava pela mão, com uma graça solemne, a linda rainha Guinevra. Depois, mas não sem alguma confusão, em que necessariamente as mamãs tiveram de ser energicas com os cavalleiros, ficou completa a Tavola Redonda, ornada de baixellas e flôres. E nada faltava do que mandam as poeticas chronicas.

Ao fundo da mesa, na sua cadeira esculpida pelos Genios, lá se achava o velho feiticeiro Merlino, a quem a governante, para elle comer com limpeza a sua sopa, tirára as barbas propheticas. Não havia um javali assado sobre um prato de ouro. Apenas um modesto roast-beef. Mas o rei Arthur levantava o seu copo d’agua, misturada de uma gota de Bordeus, com a nobreza com que o outro, ha tantos centos de annos e n’aquella mesma collina, erguia a taça de hydromel em dias de victoria. De resto a sala, com o seu tecto de carvalho lavrado, tinha o severo apparato d’outras éras e através da janella lá estavam, como nos versos da Morte d’Arthur, as ruinas do Castello de Tintagil, negro e triste junto do mar de Cornwall.

A Côrte mostrava tanto apetite como á volta de uma batida aos lobos nos bosques, que avisinham o Usk. Até as fadas devoravam. Sir Galahad, esse que possuia a força de mil, porque o seu coração era