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REVELAÇÃO DE UM SONHO.


Vem-nos na vida o prazer,
Para a dôr nos mais pungir,
Sóbe o mortal p’ra cahir,
Gosa para mais soffrer.

A. F. S. Campos e Mello.


«Sangue! Sangue! — Do inferno horriveis scenas,
«Desviáe-m’as, oh! meu Deus, por piedade!»
— Era este o bradar d’um desgraçado,
Que após tremendo sonho, espavorido,
Tremulo de terror, julgava ainda,
Com ervado punhal, por mão iniqua,
O halito da morte estar sorvendo!

Sonhava sobre a face jaspeada
De candida donzella adormecida,
Sem que rubra de pejo ella corásse,
Nem dos labios o frémito podesse
Attenta ouvir, um casto e doce beijo,
De puro amôr nascido, ter impresso.
— Tambem sonhava já estar cingido
Por laço de marfim ao niveo colo
Dessa Virgem, que pura, brando arfava
Dulcissimos anhelos não scismados
No embate desta vida attribulada!