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Sobre historias de amor o interrogar-me
E’ vão, é inutil, é improficuo, em summa;
Não sou capaz de amar mulher alguma
Nem ha mulher talvez capaz de amar-me.

O amor tem favos e tem caldos quentes
E ao mesmo tempo que faz bem, faz mal;
O coração do Poeta é um hospital
Onde morreram todos os doentes.

Hoje é amargo tudo quanto eu gosto:
A benção matutina que recebo...
E é tudo: o pão que como, a agua que bebo,
O velho tamarindo a que me encosto!

Vou enterrar agora a harpa bohemia
Na atra e assombrosa solidão feroz
Onde não cheguem o echo duma voz
E o grito desvairado da blasphemia!

Que dentro de minh’alma americana
Não mais palpite o coração — esta arca,
Este relogio tragico que marca
Todos os actos da tragedia humana! —

Seja esta minha queixa derradeira
Cantada sobre o tumulo de Orpheu;
Seja este, emfim, o ultimo canto meu
Por esta grande noite brazileira!

Melancholia! Estende-me a tu’aza!
E’s a arvore em que devo reclinar-me...
Si algum dia o Prazer vier procurar-me
Dize a este monstro que eu fugi de casa!

Pau d’Arco — 1906