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JORNAL DAS FAMILIAS.

N’aquelle rosto já decomposto podia-se ver as phases do que lhe ia n’alma.

Juntou elle as mãos tendo a da moça entre ellas, e beijou-a.

— Posso agora morrer, disse elle.

Suas mãos crispadas pelas ligeiras convulsões da agonia apertavam a mão da moça.

Por mais tocante que fosse essa scena, Palmyra conservava-se muda, consternada e seguia com o olhar fixo e devorante os progressos da agonia do seu pobre amante.

Quando um tremor convulso agitou os labios do doente, o doutor disse á moça.

— Minha senhora, tenha coragem, deixe-me agora recolher o ultimo suspiro d’este nobre moço.

Por unica resposta Palmyra debruçou-se sobre o leito e collou seus labios aos labios do moço.

Pelo rosto do morimbundo passou um lampejo de alegria. Seus embaciados olhos tornaram-se limpidos, e elle murmurou surdamente: Morro por ti!...

Depois que Palmyra fora levada para um canto do quarto e nos braços de sua mãe jazia desfallecida, um como que sorriso pairava nos labios do cadaver.

A immortalidade começára para elle.

Quando Palmyra recuperou os sentidos e que sua mãe tentou afastal-a da camara mortuaria, já então envadida por alguns amigos do morto, ella lançou para aquelle leito um derradeiro olhar tão repassado de angustia que dir-se-hia, houvera enlouquecido.

Depois, sem verter uma lagrima sem um gemido, apoiou-se no braço da mãe e sahio silenciosa.

Chegando á casa, sua desesperação apenas se manifestava, por movimentos convulsivos, e lagrimas que lhe banhavam as faces assetinadas.

Violenta febre a devorava.


IX.

No dia seguinte em um dos cemiterios d’esta corte, n’esse campo de repouso termo final das vicissitudes da vida, onde apesar da vã pompa dos monumentos funebres reina a igualdade a mais perfeita, e a mais imponente; diante dos restos inanimados de um moço e de uma sepultura aberta e muda, alguns companheiros soluçando prestaram ao finado a