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começam a patentear-se tristemente na intimidade egoísta da minha vida conjugal. Começo a perceber que o arrefecimento do meu ardor amoroso para com minha mulher vai lentamente toldando, de vaporosas mágoas, a sua calma existência de esposa infeliz e honesta. Ela se não queixa nunca, mas a progressiva expressão de desgosto que vão adquirindo os seus formosos olhos; o indefinível sorriso de resignação que lhe entreabre os lábios quando eu, ao seu lado na cama, lhe falo com entusiasmo de nossos filhos, e só deles, esquecido do resto do mundo, esquecido de tudo mais, tomado, possuído inteiramente pelo amor de pai; tudo isso me faz cair em mim e enche-me de revolta contra o exclusivismo do meu coração. Estudo-me e descubro com horror que já não há em mim a menor sombra de entusiasmo amoroso por minha mulher. — Fico indignado! Quero convencer os meus rebelados sentidos de que isto é uma indigna injustiça, e chamo em socorro dos meus deveres de bom marido a idéia dos encantos de Olímpia, evocando o ardor com que a desejei durante o noivado e durante a lua-de-mel.