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bolantes, estonteadoramente largas, transcendentes, complicadas de volúpias infinitas, — como se complica de arabescos inextricáveis, de allucinantes pinturilagens a maravilha doirada e leve d’um palacio oriental. Mas, depois, nada d’isso acontecia ! A realidade vinha e arrastava-se muito abaixo. D’ahi um desgosto cuja lembrança lhe fazia largar súbito, mesmo no momento mais proximo da realização, o instrumento de qualquer prazer que elle andára a sonhar longamente, ardentemente.

Com o ephebo novo é que ainda se não tinha dado nem decepção, nem remorso. Havia dois mêzes que D. Sebastião o amava, sempre com a mesma egualdade, a mesma sofreguidão, a mesma effervescencia. Ao contrario do que lhe succedêra com muitos outros, a paixão por este rapaz mantinha-se inalterável, firme, resistindo aos caprichos d’aquella vontade titubeante.

Era uma doentia obsessão, um amor extranho, dissolvente, enorme, d’uma acuidade que fazia soffrer. Um mixto extravagante de submissão e de império, de adoração e de lascívia, que prendia o barão áquelle indivíduo do mesmo sexo por laços mais poderosos do que quantos nos serve a Historia como exemplos de ligação admiravel entre homem e mulher. E este amor pathologico não relampeava em turbulências; antes enkistára numa fixidez calma e sinistra de mania, que é a fórma da paixão nos lymphaticos. Antes de tudo e acima de tudo, na vida sinuosa do barão sempre lampejava agora, sobranceira a todas as preoccupações e a todos os desvarios, esta paixão syndromatica, pregada e fria como um luzir de espelho na penumbra.