Página:O Barao de Lavos (1908).djvu/119


Para se certificar de que não era atraiçoado, além dos miúdos interrogatórios á mulher do ferro-velho, invariavelmente rematados por espórtulas magnanimas, tinha elle uma chave da casa, que trazia sempre comsigo, e que lhe permittia entrar a toda a hora, de surpreza, com olho inquisidor farejando...

Algumas vêzes, depois duma noite atormentada de desejos, toda levada em somnos curtos, fatigantes, cortados de estremeções nevroticos, dava o barão em levantar-se cêdo, a pretexto de qualquer negocio urgente, e corria á rua da Rosa. A sua alma de artista deleitava-se no conspecto da cidade áquella hora matutina... Lisbôa espreguiçava no azul fresco e retincto os seus milhares de braços de calcareo. Colgava os últimos andares dos prédios uma tenue laxa de oiro. D’esse immenso amphitheatro, festivo e branco, largava para o espaço, erguia-se breve, atarefado e cheio, o sussurro d’um povo que-acordava. As carroças da limpeza passavam, com um chocalhido pêrro de campainhas. Gemiam pregões ao longe. Vinham ás portas das lojas os caixeiros, mãos nos bolsos, as pernas em compasso, palito ao canto da bocca, a olhar o céu. Chalravam pardaes nas praças. Os carrilhões nas torres picavam arias de operettas. Ranchos de garotos cruzavam-se como flechas, massos de jomaes sobraçados, espalhando um cheiro acre de tinta húmida, a gritar:

— Ouem quer Diário?... Dez reis!

O ar fino e macio acalmava o barão, que chegava expansivo, acreançado, leve, todo flammante de disposições prazenteiras, como raríssimo lhe acontecia. Eugênio, ainda deitado, es-