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De Roma é claro que a paixão dentro do mesmo sexo alastrou para as colónias. A contaminação era fatal. Sofreu-lhe os efeitos a Península Hispânica, mormente no sul e no oeste, aonde mais demorada e mais poderosa foi a influência etológica dos Romanos. Depois vieram os Bárbaros do Norte inocular sangue novo no derrancamento crapuloso do império. A transfusão foi crudelíssima. Operaram, destruindo. Mas por trás da arrogância bestial da sua arremetida vinha apontando a generosa unção de um mundo novo. Aquela treva aparente mascarava uma alvorada. Eles traziam da penumbra druídica das suas florestas os elementos sociais que faltavam ao Ocidente gasto e decrépito: a liberdade pessoal, a sinceridade da crença, a disciplina, o valor, a ordem, a consagração da virtude, o respeito da família, o amor pela mulher. A regeneração foi prodigiosa. Dos escombros da assolação ergueu-se, — pura, sadia, idealista, ingénua, — a sociedade medieval.

Contudo, nesta reparação salutar dos povos latinos o gérmen mórbido resistira, latente. Mais tarde, a civilização árabe pô-lo a claro; depois, o abuso do monaquismo e das expedições náuticas longínquas favoreceram-lhe o desenvolvimento, agora piorado do apeganho ruim da cronicidade.

Compreende-se como centenas de homens válidos, desviados da labuta habitual da vida e mantidos em contacto reciproco permanente; com a imaginação e a carne falando alto, excitadamente, na eterna ociosidade da clausura ou na estreita e forçada permanência a bordo; sistematicamente afastados do comércio de