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medida que se lhe desdobrava o espírito, definia-se, afirmava-se-lhe a característica, roboravam-se-lhe as predileções plásticas, a qualidade sensorial dominante. No modalismo da natureza interessava-o principalmente o sensível, o tangível, a face pagã, material das coisas. Por isso, a despeito do seu fundo etiológico de pederasta, cultivava com frequência as mulheres. Mesmo entre uma mulher bonita e um efebo atraente, não hesitava: preferia geralmente a mulher. Procurava sempre e acima de tudo a linha, a forma, a beleza emocional aparente, quer fosse num seio virgem, quer num músculo bem fibrinado, quer num cristal perfeito, quer numa florinha delicada, num trecho vivo de paisagem, num encastelamento de nuvens fugidio.

Quando contou vinte anos, rogou ao pai que lhe permitisse fazer uma viagem ao estrangeiro. Concedido. E o rapaz partiu, trépido de entusiasmo. De Madrid seguiu a Paris; depois visitou a Itália. Nesse afortunado passeio pelas civilizações irmãs da nossa, tudo quanto respeitava à Arte constituiu a melhor porção do seu estudo. O maior do tempo gastou-o no interior dos velhos monumentos, nos museus, nas coleções particulares, nos bazares exóticos, nas lojas de bric-à-brac. E aí, na religiosa paz desses salões consagrados, que horas de sublimado gozo, de contemplação inefável! Estátuas e quadros que figurassem a nu belos corpos de adolescentes, estonteavam-no. Trouxe-o doente da mais cega paixão, dias seguidos, o célebre Antínoo descoberto em Roma no século XVI, no bairro Esquilino, que ocupa hoje no belvedere do Vaticano um gabinete especial, e é das melhores obras da antiguidade que o tempo