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as unhas, ora dava pequeninas ordens ao criado de mesa, ora derivava o olhar num passeio alheado pela sala, toda no cuidado de evitar os olhos do barão. Este, para evitar os olhos da baronesa, achara recurso mais cómodo: ia lendo o Diário de Notícias, posto ao alto contra o centro de mesa — quatro grifos rompantes de prata suportando uma túlipa de baccarat, muito elançada, em facetas de cujo bordo biselado em ponta se debruçavam, num parapeito fofo de violetas, as primeiras rosas da estação, colhidas no jardim.

O barão estava de fraque, vestido para sair. Mais de uma vez tentara travar conversa, sempre sem resultado. Primeiro, leves perguntas banais.

— Mandaste ao encadernador?
— Mandei — respondeu ela, distraída.
— O correio não traria nada hoje?
— Pergunta ao João.

Daí a pouco: — Sempre os Paradelas ontem...

Nada!

Após novo intervalo:

— Não estou hoje nada bem... Tive palpitações toda a noite. E este meu estômago...

A baronesa limitou-se a sublinhar com um risinho incrédulo. Por fim, quando tomava o café, o barão assentou no jornal a ponta da faca, mantida entre o dedo maior e o indicador da mão direita, e exclamou muito familiar, a querer entrar com sol no diálogo:

— É boa esta!... Sempre impagável de tolice este jornal. Queres ouvir?... — E leu alto, com um bom sorriso conciliador, mas sem fitar a esposa: — Diz hoje o luminária das