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E como ela se fosse ficando:

— Vossemecê quer alguma coisa? — interrogou, passados minutos, a baronesa, agora nadando nesta voluptuosa lassidão que nos deixa o abalo de um perigo que passou.
— A senhora baronesa desculpará... mas... sim, a senhora bem sabe que eu que sou sua amiga e que não me sei calar. E vai por isso não me sofre o interior vê-la assim tristinha, e não lhe dizer cá o que eu entendo...
— Sim, sim, obrigada... Eu não estou triste... Nem alegre... Aborrecida!... Vocês querem ver sempre a gente de carinha na água. — E pegou no livro, como para ler.

A Doroteia porém não se deu por despedida. Continuando a escrutinar felinamente a baronesa, passou com a língua os lábios gretados e prosseguiu:

— Com um dia tão bonito... a senhora veja... Tudo por aí na paródia, a passear, a divertir-se, e a minha rica senhora aqui a ralar-se! — E, numa torpe bajulice: — Bem digo eu que não é como as mais!
— Lá vem vossemecê com a tolice do costume. Cale-se!
— O senhora, isto não é ser má-língua, é a pura da verdade... Tenho servido em Lisboa, antes desta, seis casas... tudo gente casada... que isto é, uns deles desconfio que não, porque nunca saíam de braço dado... Seis casas... Pois juro-lhe que em todas elas, quando os maridos saíam para a rua, cuida que as senhoras que se punham assim, metidas a um canto?... Tó rola!... Iam mas era para a janela, fazer frente a outros.
— Não diga isso, mulher! — reprimindo, súbito indignada, a baronesa, a cuja lisura de ânimo