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— Olha para mim — pediu-lhe.

O rapaz mal ergueu os olhos, coçando a cabeça, sorrindo contrafeito; e relanceou-os logo obliquamente, numa visagem desconfiada, a todo o comprimento do corredor ao lado. A isto, o barão aproximou-se, e familiarmente, descansando-lhe o braço sobre o ombro, fê-lo correr a casa toda, a mostrar-lhe que não havia lá mais ninguém.

— Estás agora descansado?
— Estou, sim, meu senhor.
— Bem! — E tomando-lhe a mão, carinhosamente: — Anda cá... — Levou-o para junto do canapé, sentou-se e meteu-o entre os joelhos, pondose a contemplar, a beber amorosamente, numa expansão febril de concupiscência, aquele maltrapilho adventício das ruas, que permanecia de pé, vagamente assustado, aturdido, estúpido, mas ainda assim com um leve traço de malícia a apontar-lhe no rosto lascarino.

Vestia um pedaço de jaqueta de casimira castanha, pendendo das costuras em farrapos, encodeada, lustrosa, ignóbil; e um colete larguíssimo de lã, que fora azul-claro e agora era cinzento-sujo, sem botões, sobreposto na cinta, paradoxalmente engelhado e preso por uma correia de fivela, que servia também para segurar as calças, de cotim em xadrez miudinho, talhadas «à faia», afuniladas, cerces, a trama esfiada e lassa mantendo-se num prodígio de resistência, num joelho um rasgão fechado por um alfinete, e incrustações altas de lama nas aberturas farpadas.

O barão, vestido no Catarro, perfumado, correto, limpo, saboreava um requinte supremo de luxúria naquele