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más línguas diziam viver de complacências junto da inconsolável D. Plácida; Henrique Paradela; Inácio Miguéis; o barão de Lavos; e a filhita mais velha dos donos da casa, de 6 anos apenas, mas já cordata, ponderada, séria, compondo gestos, medindo palavras, observando as toilettes, toda a viveza e turbulência mortas nesta precocidade pretensiosa e doentia que forma a base da educação das crianças de Lisboa.

Como o coronel não desatasse do improviso, D. Leonor e D. Elvira acercaram-se dele, troçando:

— O coronel, falta-lhe hoje a veia, que vergonha!
— Pronto, pronto! — explodiu ele, numa radiação de triunfo.

Escreveu a correr um último verso, ergueu-se, encavalou a luneta na base do nariz, chegou da luz o álbum, afastado a todo o comprimento dos braços, tossicou, e leu alto esta quadra:


Com a noite o Amor vem e cresce
E as almas junta e inebria,
Depois, tímido, se esvanece
Quando assoma a luz do dia.


Um coro de gargalhadas acolheu a parturição grotesca daquele avariado cérebro.

— Bravo, coronel, muito bem!
— É madrigalesca, maganão! E maliciosa, vamos lá!...
— Sabe a pouco, é o defeito que tem. — Parece-me que o terceiro verso está errado — criticou a meia voz para a mãe a linear D. Aurélia, cuja boca enorme, sem mucosa labial, fendida em costura, parecia estirada ao peso do