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vexado da audácia, mordia o beiço para o lado, e D. Leonor corava té à raiz dos cabelos. Ela era uma destas mulheres acanhadas e discretas, de inteligência medíocre e alma equilibrada, a quem a menor notoriedade assusta e o anormal, o extravagante escandalizam; mulheres sem vaidade, sem ambições, sem desvarios, fadadas para vegetar apagadamente no segundo plano da Vida, e-cuja exclusiva preocupação, cujo ideal supremo se cifra no cumprimento estrito do Dever.

Para a desafrontar do embaraço evidente, D. Elvira segredou-lhe, acotovelando-a com disfarce, a derivar:

— Não vês?... Lá está a viúva ao canto, agarrada ao Vieira... Não sabes o que deles se diz?
— Sei, filha, sei, mas não acredito. E uma boa gente, deixa falar — respondeu com a mais generosa segurança D. Leonor. — Ela tem um viver irrepreensível, garanto-te; apenas faz o possível por mitigar um pouco as saudades do marido, a quem amava loucamente. Querias que a pobre senhora ficasse toda a vida encerrada no seu quarto, a chorar e a arrepelar-se?
— Pois sim, mas ele?... e então ele de que vive?
— É comissário de vinhos agora, e agente de consignações.
— Estás a brincar...
— Palavra! Tem até escritório na Rua dos Fanqueiros. Diz meu marido.

Do grupo de homens que rodeavam, junto à porta da saleta do fumo, o coronel, destacou muito exibitivo Xavier da Câmara, e, sentando-se novamente ao lado da baronesa: