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cinzenta e gorda. O cortiço acordava com o remancho das segundas-feiras; ouviam-se os pigarros das ressacas de parati. As casinhas abriam-se; vultos espreguiçados vinham bocejando fazer a sua lavagem à bica; as chaminés principiavam a fumegar; recendia o cheiro do café torrado.

Piedade atirou um xale em cima dos ombros e saiu ao pátio; a Machona, que acabava de aparecer à porta do número 7 com um berro para acordar a família de uma só vez, gritou-lhe:

— Bons dias, vizinha! Seu marido como vai? melhor?

Piedade soltou um suspiro.

— Ai, não mo pergunte, S’ora Leandra!

— Piorou, filha?

— Não veio esta noite pra casa...

— Olha o demo! Como não veio? Onde ficou ele então?

— Cá está quem não lho sabe responder.

— Ora já se viu?!

— Estou com o miolo que é água de bacalhau! Não preguei olho durante a noite! Forte desgraça a minha!

— Teria a ele lhe sucedido alguma?...

Piedade pôs-se a soluçar, enxugando as lágrimas no xale de lã; ao passo que a outra, com a sua voz rouca e forte, que nem o som de uma trompa enferrujada, passava adiante a nova de que o Jerônimo não se recolhera aquela noite à estalagem.

— Talvez voltasse pro hospital... obtemperou Augusta, que lavava junto a uma tina a gaiola do seu papagaio.

— Mas ele ontem veio de muda... contrapôs Leandra.