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tristezas atiram-se para trás das costas, criatura de Deus! A vida não dá para tanto! O homem deixou-te? Ora sebo! mete-se com outro e põe o coração à larga!

Ela suspirou em resposta, ainda triste; porém, a garrafa de parati correu a roda, de mão em mão, e, à segunda volta, Piedade já parecia outra. Começou a conversar e a tomar interesse no pagode. Daí a pouco era, de todos, a mais animada, falando pelos cotovelos, criticando e arremedando as figuras ratonas da estalagem. O Pataca ria-se, a quebrar a espinha, caindo por cima dela e passando-lhe o braço na cintura.

— Você ainda é mulher pr’um homem fazer uma asneira!

— Olha pra que lhe deu o ébrio! Solta-me a perna, estupor!

O grupo achava graça nos dois e aplaudia-os com gargalhadas. E o parati a circular sempre de mão em mão. A das Dores não descansava um momento; mal vinha de encher a garrafa lá dentro de casa, tinha de voltar outra vez para enchê-la de novo. "Olha que estafa! Vão beber pro diabo!" Afinal apareceu com o garrafão e pousou-o no meio da roda.

— Querem saber! Empinem por aí mesmo, que já estou com os quartos doendo de tanto andar de lá pra cá!

Essa noite, a bebedeira de Piedade foi completa. Quando João Romão entrou, de volta da casa do Miranda, encontrou-a a dançar ao som de palmas, gritos e risadas, no meio de uma grande troça, a saia levantada, os olhos requebrados, a pretender arremedar a Rita no seu choradinho da Bahia. Era a boba da roda. Batiam-lhe palmadas no traseiro e com o