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De que ellas o fazião descontente.

Outras vezes á fonte, quando a olhava,
Ja cego, e sem juizo, agradecia
A figura que dentro lhe mostrava.

Mas vendo qu’ella em nada se dohia
De seu grave tormento, grita e chora.
Quanto erra quem de sombras se confia!

Ja lhe pede que saia para fóra.
Ignorando que sempre fóra esteve
A belleza que nelle proprio mora.

Despois que longo espaço se deteve
Nestes queixumes seus tão lastimosos,
Que com tão longo ser, julgou por breve;

Co’os olhos, bellos si, mas lagrimosos,
Do valle se despede e da espessura,
Dando soluços da alma vagarosos.

Entregue na vontade da ventura,
Ou, por melhor dizer, de seus enganos,
Ao centro se arrojou da fonte pura.

Dest’arte feneceo em tenros anos
Narciso, dando exemplo á formosura
De que tema, se he tal, tambem seus danos.

Sentimento mostrou da sorte dura
O namorado Jupiter, mudando
Ao moço em flor purpurea, qu’inda dura.

Aquellas claras ágoas rodeando,
Onde por seus amores se perdeo,
Está despois da morte acompanhando.

Tanto no seu engano procedeo,
Que não sabe na morte inda apartar-se
Dos erros que na vida commetteo.