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Que te quiz muito em quanto Deos queria;
Mas de pura affeição, d'amor honesto.
  E pois de teus descuidos e ousadia
Nasceo tão dura e aspera mudança,
Fólgo; que muitas vezes to dizia.
  Fica-te embora, e perde a confiança
De ver-me nunca mais, como ja viste:
Que assi se desengana huma esperança.
            ALMENO.
  Oh duro apartamento! oh vida triste!
Oh nunca acontecida desventura!
Pois como, Nympha? assi te despediste?
  Assi s'ha d'ir tornando (ah sorte dura!)
Nesta sylvestre e aspera rudeza
Tão branda e excellente formosura?
  Tua nunca entendida gentileza,
E teus membros assi se transformárão,
Negando-se-lhe a propria natureza?
  Dest'arte os teus cabellos se tornárão
(Deixando ja seu preço ao ouro fino)
Em fôlhas, que a côr tẽe do que negárão?
  S'este consentimento foi divino,
Consinta-me tambem que perca a vida,
Antes que a mais m'obrigue o desatino.
  Pois se a fortuna sempre embravecida
Em meu tormento tanto se desmede,
Não viva mais hum'alma tão perdida.
  E vós, feras do monte, pois vos pede
Minha pena o remedio derradeiro,
Fartae ja de meu sangue vossa sêde.
  E vós, pastores rudos deste outeiro,{188}