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Porque a todos, emfim, se manifeste
Que cousa he amor puro e verdadeiro;
  Á sombra deste funebre cypreste
Me fareis hum sepulcro sem arrêo
De boninas que o prado ameno veste.
  As desusadas musicas de Orphêo
Aqui me cantareis; e desta sorte
Não haverei inveja ao mausolêo.
  E porqu'a minha cinza se conforte,
Em vossos metros doces e suaves
As exequias direis de minha morte.
  Alli responderão as altas aves,
Não módulas no canto nem lascivas,
Mas de dor ora roucas, ora graves.
  Não correrão as águas fugitivas,
Alegres por aqui, mas saudosas,
Que pareça que vem dos olhos vivas.
  Nascerão por as praias deleitosas
Os asperos abrolhos em lugar
Dos roxos lirios, das pudicas rosas.
  Não trarão as ovelhas a pastar
De redor do sepulcro os guardadores;
Pois nada comerião de pezar.
  Virão os Faunos, guarda dos pastores,
Se morri por amores, perguntando;
Responderão os ecos: Por amores.
  Dos que por aqui forem caminhando,
Hum epitaphio triste se lerá,
Qu'esteja minha morte declarando.
  E no tronco de huma árvore estara,
N'huma rude cortiça pendurado{189}