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XXVII
PREFAÇÃO.


Da côr do campo os mostra graciosos.
Quem não diz que são estes os formosos?
 

Alicuto.


  Perdoem-me as deidades, mas tu diva
Que no liquido marmore es gerada,
A luz dos olhos teus, celeste e viva,
Tens por vicio amoroso atravessada:
Nós petos lhe chamâmos: mas quem priva
De luz o dia, baixa e socegada
Traz a dos seus nos meus, qu'eu o não nego,
E com toda esta luz sempre estou cego.

Agora diga quem nasceo para sentir as bellezas da natureza, se ha em Theocrito ou Virgilio, ou algum outro poeta antigo ou moderno, um desafio igual a este, ou se póde chegar a mais a perfeição humana. E eis-aqui as duas Eglogas com que alguns individuos, que tendo olhos e tempo para ler muito, os não tiverão para observar a natureza, e conhecer com que ampliações ou restricções se devem entender e applicar os preceitos de Aristoteles e Horacio, pretendêrão provar que o nosso poeta não possuia o estilo bucolico. Certo que não ha na republica das Letras sevandijas mais nojentas, que certos homens de espirito acanhado, que enfatuados com graos de Doutores e titulos de Academicos, sem nunca terem produzido nem serem capazes de produzir cousa alguma, se arrogão o direito de taxar o merecimento e preço das obras dos grandes homens.