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No mar me cahe da mão o duro remo.
  E quando a branca vela sólto ao vento,
Tão descuidado vou do fiel leme,
Que me leva a perder meu pouco tento.
  Mas quem arde por ti, quem por ti treme,
Os seus maiores riscos não receia,
Os teus que sente mais, muito mais teme.
  Despois que te não vi, (não sei que creia
Desta tardança tua e morte minha)
Sendo a lua vazia, he quasi cheia.
  O tempo, que nos gostos passa asinha,
Detem-se neste mal da saudade,
Por me dobrar a dor que d'antes tinha.
  Não desprezes, ó Lilia, huma vontade,
Que por te contentar tudo despreza,
Tudo julga, sem ti, por pouquidade.
  Se pretendes amor, ja tens certeza
Que não podes ser nunca mais amada
Dos que vencidos traz tua belleza.
  Se por ventura estás affeiçoada
A gentil parecer, a bom engenho,
A ninguem nestas partes devo nada.
  Se fazes caso d'honra, ólha que venho
De geração d'honrados pescadores;
Se de riqueza, barco e redes tenho.
  Por erros julgarás estes louvores;
E oxalá não os julgues por doudice!
Mas quem siso quer ter não tenha amores.
  E mais tudo foi pouco quanto disse,
Pondo os olhos no muito que meu fado
Nos teus, que ver desejo, quiz que visse.{250}