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Gastando tempo e vida; os quaes tão alto
Me subião nas asas, que cahia
(Oh vêde se seria leve o salto!)
De sonhados e vãos contentamentos
Em desesperação de ver hum dia.
O imaginar aqui se convertia
Em improvisos choros e em suspiros,
Que rompião os ares.
Aqui a alma captiva,
Chagada toda, estava em carne viva,
De dores rodeada e de pezares,
Desamparada e descoberta aos tiros
Da soberba Fortuna;
Soberba, inexoravel e importuna.
  Não tinha parte donde se deitasse,
Nem esperança alguma, onde a cabeça
Hum pouco reclinasse, por descanso:
Tudo dor lhe era e causa que padeça,
Mas que pereça não; porque passasse
O que quiz o destino nunca manso.
Oh qu'este irado mar gemendo amanso!
Estes ventos, da voz importunados,
Parece que se enfreião:
Somente o Ceo severo,
As estrellas e o fado sempre fero,
Com meu perpétuo damno se recreião;
Mostrando-se potentes e indignados
Contra hum corpo terreno,
Bicho da terra vil e tão pequeno.
  Se de tantos trabalhos só tirasse
Saber inda por certo que algum'hora{