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Porque este mal de mi se não despida.
Ai quão devagar passa a triste vida!
  Onde cousa acharei que alegre veja?
A quem chamarei ja que me responda?
Quem me dará remedio á dor presente?
Não ha bem, que de mi ja não s'esconda;
Nem algum verei ja, que a mi o seja,
Porqu'está quem o foi da vida ausente.
Eu alguma não vi tão descontente,
Que Amor tão mal tratasse,
Qu'inda não esperasse
A seus males remedio achar vivendo:
Eu só vivo soffrendo
Hum mal tão grave e tão desesperado,
Que tanto he mais pezado,
Quanto a vida com elle he mais comprida.
Ai quão devagar passa a triste vida!
  Suaves ágoas, dura penedia,
Arvoredo sombrio, verde prado,
Donde eu ja tive livre o pensamento;
Frescas flores; e vós, meu manso gado,
Que ja m'acompanhastes na alegria,
Não me deixeis agora no tormento.
Se do mal meu vos toca sentimento,
Dae-me par'elle ajuda,
Qu'eu tenho a lingua muda,
O alento me vai ja desamparando.
Mas quando (ai triste!) quando
D'hum dia hum'hora me virá contente,
Qu'eu te veja presente,{