OS MAIAS
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— ­A ida do Damaso para Cintra deu-te no goto, rosnou Taveira impaciente. Anda, joga!

Carlos, sem responder, pousou mollemente uma pedra.

— ­Dominó! gritou Taveira.

E em triumpho, aos pulos, contou elle mesmo os sessenta e oito pontos que Carlos perdia.

Justamente o marquez entrava, e a victoria do Taveira indignou-o.

— ­Agora nós, exclamou elle, puxando vivamente uma cadeira. Oh Carlos, deixe-me você dar aqui uma sova n’este ladrão. Depois jogamos de tres... Como queres tu isto, Taveirete? A dous tostões o ponto? Ah, queres só a tostão... Muito bem, eu te ensinarei. Anda, desembaraça-te já d’esse dôble-seis, miseravel...

Carlos ficou ainda um momento olhando o jogo, com uma cigarette apagada nos dedos, o mesmo ar distrahido: de repente, pareceu tomar uma decisão, atravessou o corredor, entrou na sala de musica. Steinbroken fôra ao escriptorio vêr Affonso da Maia, e a partida de whist; e Cruges só, entre as duas vélas do piano, com os olhos errantes pelo tecto, improvisava para si, melancolicamente.

— ­Dize cá, Cruges, perguntou-lhe Carlos, queres vir ámanhã a Cintra?

O teclado callou-se, o maestro ergueu um olhar espantado! Carlos nem o deixou fallar.

— ­Está claro que queres, não te faz senão bem vir a Cintra... Ámanhã lá estou á porta, com o break.