OS MAIAS
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podia tambem avançar porque a porta estava tomada pela caleche de praça, onde um dos sujeitos de flor ao peito berrava furiosamente com um policia. Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O sr. Savedra, que era do Jockey-Club, tinha-lhe dito que elle podia entrar sem pagar a carruagem! Ainda lh’o disséra na vespera, na botica do Azevedo! Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O policia bracejava, enfiado. E o cavalleiro, tirando as luvas, ia abrir a portinhola, esmurrar o homem — ­quando, trotando na sua grande horsa, um municipal de punho alçado correu, gritou, injuriou o cavalleiro gordo, fez rodar para fóra a caleche. Outro municipal entrometteu-se, brutalmente. Duas senhoras, agarrando os vestidos, fugiram para um portal, espavoridas. E atravez do reboliço, da poeira, sentia-se adiante, melancolicamente, um realejo tocando a Traviata.

O phaeton entrou — ­atraz do dog-cart, onde o homem gordo, a estoirar de furia, voltava ainda para traz a face escarlate, jurando dar parte do municipal:

— ­Tudo isto está arranjado com decencia, murmurou Craft.

Diante d’elles, o hyppodromo elevava-se suavemente em colina, parecendo, depois da poeirada quente da calçada e das cruas reverberações da cal, mais fresco, mais vasto, com a sua relva já um pouco crestada pelo sol de junho, e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e além. Uma aragem larga e repousante chegava vagarosamente do rio.