Pensar é preciso/VI/Lutero: Reforma e Contra-Reforma

Lutero: Reforma Protestante e Contra-Reforma Católica


O termo “protestante”, de etimologia latina e de uso panorâmico, passou a indicar os cristãos do Norte da Europa que se rebelaram contra a Igreja Católica Romana, passando a cultuar uma nova forma de religiosidade. O fundador do Protestantismo foi o monge agostiniano alemão Martinho Lutero (1483-1546). Sua magistral tradução da Bíblia do latim para o alemão constitui o primeiro grande monumento literário em língua germânica, assim como fora a Divina Comédia de Dante Alighieri para a língua italiana, uns três séculos antes. Aproveitando a descoberta da imprensa pelo seu patrício Gutenberg, Lutero possibilitou a divulgação dos livros do Velho e do Novo Testamento. Desta forma, o conhecimento da Escritura, considerada sagrada, deixava de ser uma exclusividade dos clérigos e se tornava de domínio público, accessível a qualquer cristão alfabetizado.

A gota de água que precipitou a reforma protestante foi a campanha do padre dominicano alemão Johannes Tetzel, encarregado de pregar as indulgências dos pecados àqueles que contribuíssem monetariamente para a reconstrução da Basílica de São Pedro. Isto aconteceu em 1517, mas já vinha de longe a indignação dos povos do Norte da Europa contra a prepotência e a corrupção da Igreja de Roma. Em 1381, o teólogo inglês John Wycliffe, junto com frades franciscanos, organizou manifestações públicas para uma reforma de costumes, exigindo que bispos e cardeais renunciassem aos bens materiais e que padres e monges fossem trabalhar. E foi condenado como herege. Jan Huss, estudante de teologia da Boêmia, denunciou a venda das indulgências (o perdão dos pecados em troca de pagamento) e a ganância e a imoralidade do alto clero. E, em 1415, foi condenado a morrer na fogueira.

Em 31 de outubro de 1517, Lutero afixou na porta de uma igreja suas 95 teses que questionavam princípios e práticas da Igreja Romana. Sua intenção não era afastar-se da religião professada, mas apenas criticar os abusos. Após três anos de polêmicas com os teólogos de Roma, porém, o conjunto de sua doutrina acabou sendo condenado pelo papa Leão X. Daí o maior cisma do Cristianismo, que deu origem à fragmentação dos ensinamentos de Jesus em várias igrejas. Apontamos os pontos de conflito, que se encontram expostos nos quatro principais escritos de Lutero: Comentário (à Epistola de São Paulo aos Romanos), manifesto À Nobreza Cristã da Nação Alemã, O cativeiro da Babilônia e Da Liberdade do Cristão.

Meditando sobre a frase do apóstolo Paulo “O justo viverá pela fé”, Lutero sente uma revelação interior que o leva a pensar que a fé não requer informação, conhecimento, certeza, mas uma rendição livre e uma aposta feliz na bondade não sentida, experimentada e conhecida de Deus. Encontra, então, a salvação apenas na fé em Deus, concebido como amor, sempre disposto a perdoar nossos pecados. Ele nega a autoridade eclesiástica, pois a palavra de Deus está contida apenas nos textos sagrados, não podendo ser alterada pela intervenção do Papa ou de bispos reunidos em Concílios: sola scriptura (apenas a Escritura Sagrada contém a verdade).

Lutero não aceita, portanto, o dogma da infalibilidade papal, mesmo falando “ex cátedra” sobre assuntos de fé: todo ser humano está sujeito a erro. Qualquer cristão pode dirigir-se diretamente a Deus, não precisando de intermediários: daí a iconoclastia, que prega a derrubada de imagens e estátuas da Virgem Maria e dos Santos, assim como o culto de relíquias, a celebração de missas e a confissão. Rejeita, portanto, todos os “Sacramentos” inventados pela Igreja, aceitando apenas os dois que se encontram no Novo Testamento: o Batismo (que Jesus recebeu de João Batista) e a Eucaristia (a comunhão do pão da Última Ceia). Ele deu o exemplo de dessacralização do matrimônio, juntando-se com a ex-freira Katharina von Bora com quem teve seis filhos.

Mas a doutrina luterana não deixa de ter um substrato político e econômico. Trata-se, enfim, da insurreição dos povos anglo-saxônicos contra a tirania do poder papal, que de Roma impunha pesados tributos e uma moral hipócrita. Ele pregou a substituição do decadente clericalismo romano pela instituição de um sacerdócio universal de todos os cristãos, abolindo qualquer tipo de hierarquia, posto que todos somos iguais perante Deus.

E por isso que a Reforma luterana provocou rebeliões na Alemanha, na Suíça, na Inglaterra e em outros países do Norte da Europa, que transcenderam o aspecto religioso, entrando no social. Os nobres empobrecidos, junto com a seita popular dos “anabatistas” (os novos batizados), assaltaram abadias e mosteiros, lançando o grito comunitário: se todos os homens são iguais perante Deus, é justo que todos os bens sejam divididos entre todos. Mas esta forma de comunismo antecipado não foi aprovada por Lutero, que sempre esteve ao lado da burguesia.

O apoio à burguesia foi mais evidente ainda no segundo patriarca da reforma protestante, o suíço João Calvino (1509-1564), que transformou Genebra numa cidade-igreja, regida pelos princípios do Evangelho. A base ideológica está na crença de que o sucesso social e econômico, o enriquecimento, mesmo ilícito pela usura, é um sinal da benção divina. O historiador Marx Weber escreveu uma obra que, publicada em 1905, se tornou clássica sobre o assunto: A Ética protestante e o espírito do Capitalismo, tese que pretende dar a razão pela qual a maioria dos povos de religião protestante são mais ricos e desenvolvidos do que as etnias latinas onde predomina a religião católica, que prega (apenas na doutrina, bem entendido!) a renúncia aos bens materiais. É preciso salientar que o fundador do Protestantismo, Lutero, fora educado na filosofia escolástica de Guilherme Ockham (1287-1347), que havia instado os cristãos a tentar merecer a graça de Deus por meio de suas obras: estava lançada a base da meritocracia, cada qual devendo ganhar conforme o mérito.

O princípio fundamental do Protestantismo, que defende o direito ao julgamento individual na interpretação das Escrituras, teve como conseqüência natural o aparecimento de um grande número de seitas ao longo do tempo e do espaço. Além do luteranismo e do calvinismo, apontamos o anglicanismo, as igrejas batistas, metodistas e evangélicas (em suas várias ramificações), o pentecostalismo, os quacres, os mórmons, entre outras seitas que não param de surgir. Volta e meia aparece um novo pregador que se acha possuído pelo Espírito Santo para fundar uma igreja diferente.

O sucesso da Reforma protestante provocou a Contra-Reforma católica. A igreja de Roma, para enfrentar a disseminação das várias seitas protestantes, convocou o Concílio de Trento, cidade do Norte da Itália, que durou de 1545 a 1563. Os bispos dos vários países católicos fizeram uma revisão da doutrina cristã, reafirmando os dogmas tradicionais e impondo severas normas de moralidade. Ficou a cargo da ordem religiosa, chamada de Companhia de Jesus, que surgira na Espanha em 1534, chefiada por Santo Inácio de Loyola, contestar as doutrinas heréticas dos protestantes, através do ensino religioso dirigido. Mas o Jesuitismo que assim nascia, embora posteriormente viesse a ter méritos inegáveis pela sua ação social e cultural, na época do barroco espanhol, sendo o braço forte da Contra-Reforma, foi acusado de crimes horríveis na tentativa de reprimir protestantes e outros praticantes de religiões consideradas hereges.

Em verdade, o Concílio de Trento restaurou o antigo Tribunal da Inquisição, criado no começo do século XIII para reprimir as heresias de cátaros e albigenses. Na Idade Média, quem agisse de uma forma extravagante, fora dos parâmetros religiosos da época, era considerado herege ou bruxo e condenado à fogueira. O que aconteceu, por exemplo, com a “Donzela de Orléans”, a mítica heroína francesa Joana D’Arc, sacrificada em 1431, sob a acusação de ter recebido vozes divinas e de ter vestido roupa masculina para lutar contra os opressores ingleses. Depois de quase meio milênio, em 1920, a Igreja Católica lhe fez justiça, proclamando-a Santa. O padre dominicano Tomás de Torquemada (1420-1498), Inquisidor-geral para toda a península ibérica, passou à história como sinônimo de intolerância religiosa, tendo condenado à morte milhares de heréticos, especialmente judeus.

A Contra-Reforma ensejou inúmeras e sangrentas guerras de religião em toda a Europa, especialmente entre franceses e espanhóis, motivadas também por motivos políticos, devido à disputa por territórios limítrofes entre os dois países. A noite de 24 de agosto de 1572 é lembrada como a “Noite de São Bartolomeu”, quando foram massacrados aproximadamente trinta mil “huguenotes” (nome depreciativo dos protestantes franceses). O conflito só começou a declinar a partir de 1594: pelo Edito de Nantes, Henrique de Navarra concedeu liberdade de culto aos protestantes. Ainda hoje, a rivalidade entre as duas religiões continua, especialmente na Irlanda.

Mas o crime maior que a Igreja Católica cometeu foi contra a ciência, atrasando o desenvolvimento que a Renascença européia vinha iniciando. No ano de 1600, o monge italiano Giordano Bruno foi queimado vivo em meio a uma praça pública de Roma, condenado como herege pela Inquisição, não apenas por duvidar da virgindade de Maria e da Trindade de Deus, mas, especialmente, por acreditar na existência de outros planetas, que ameaçariam a hegemonia terrestre. Conseqüentemente, a narrativa bíblica da criação do mundo podia ser contestada: se existissem outras terras, poderiam existir outras criaturas. Estas também teriam nascidas com o pecado original, precisando de outros Cristos?

Galileo Galilei (1564-1642), o grande cientista italiano, sucessor do polonês Copérnico e do inglês Newton, acusado de ensinar que era a Terra a mover-se ao redor do Sol e não o contrário, conforme o sistema ptolomaico até então aceito, precisou abjurar publicamente de sua teoria para escapar da morte. Um dos seus pensamentos mais profundo se conecta à sabedoria da Grécia antiga, retomando o método socrático da autognose:


“Você não pode ensinar nada a um homem; você pode apenas ajudá-lo a encontrar a resposta dentro dele mesmo.”


Voltando ao Protestantismo, a nova religião, como o Judaísmo, também teve o seu “êxodo”. Puritanos ingleses e calvinistas radicais, que se sentiram perseguidos na sua pátria, decidiram emigrar para o Novo Mundo. A América recém descoberta passou a ser vista como sua terra prometida, assim como fora Canaã para o povo hebreu. Lá, os emigrantes do Norte da Europa se juntaram a judeus e a grupos de outras etnias perseguidos ou desajustados em sua terra de origem para construir uma nova pátria onde os indígenas não tinham capacidade nem vontade de trabalhar.

Na nova terra, irmanados pelo espírito do trabalho e do progresso civilizacional, não há conflito entre cristãos, judeus e muçulmanos. O evangelismo americano pouco se diferencia do catolicismo: a remissão dos pecados e a promessa do paraíso não se paga mais por indulgências, mas por dízimos. As igrejas, todas elas, se enriquecem às custas de seus fiéis. Parece que padres, pastores, rabinos, lamas, mulás, aiatolás formam um coro sussurrando:


“vocês, idiotas, ficam com a fé, nós ficamos com o dinheiro!”.