Peregrinaçam/LVI

Auẽdo ja dous dias que nauegauamos ao lõgo da coſta de Lamau, cõ ventos & mares bonãçoſos, prouue a noſſo Senhor que a caſo encontramos hũ junco de Patane que vinha dos Lequios, o qual era de hum coſſayro Chim que ſe chamaua Quiay Panjão muyto amigo da nação Portugueſa, & muyto inclinado a noſſos cuſtumes & trajos, ẽ cõpanhia do qual andauão trinta Portugueſes, homẽs todos muyto eſcolhidos q̃ eſte coſſayro trazia a ſeu ſoldo, a fora outras muytas ventagẽs que cada hora lhes fazia com que todos andauaõ ricos. Eſte junco, tanto que ouue viſta de nòs, ſe determinou em nos cometer, parecendolhe que eramos outra gente, & pondoſe em ſom de abalroar, como elle era official velho, & pratico neſte oſficio de coſſayro, metendo à orça com todas as vellas, ſe pós a balrauento quaſi tres quatras do rumo da noſſa eſteyra, & marcando em popa, veyo arribando entre ambos os punhos atè pouco mais de tiro de berço, & nos fez hũa ſalua de quinze peças de artilharia, com que todos ficamos muyto embaraçados por ſerem as mais dellas falcoẽs & roqueyros. Antonio de Faria esforçou então os ſeus com animo valeroſo & de bom Chriſtão, & os repartio pelas eſtancias mais neceſſarias, como forão conuês, popa, & proa, com ſeu reſguardo de ſobreſſalente onde a neceſsidade mais o pediſſe. E indo aſsi com propoſito determinado de chegar ao cabo com tudo o que a fortuna lhe offereceſſe, quiz noſſo Senhor que lhe enxergamos na quadra hũa grande bandeyra de Cruz, & no chapiteo muyta gente com barretes vermelhos, que os noſſos naquelle tẽpo cuſtumauão muyto de trazer quando andauão darmada, pelo que aſſentamos que eraõ Portugueſes que podião vir de Liampoo, & yr para Malaca, como naquella monção ſempre cuſtumauão, & dandolhe nós tambẽ ſinal de nós, para ver ſe nos conhecião, tanto que enxergaraõ que eramos Portugueſes, deraõ todos hũa grande grita, & amainando ambos os traquetes de romania em ſinal de obediencia, deſpidiraõ logo hum balão muyto eſquipado com dous Portugueſes a ver que gente eramos, & donde vinhamos, os quais tanto que nos reconheceraõ, & ſe affirmaraõ na verdade de quem eramos, ſe vieraõ mais afoutos a nós, & deſpois de fazerem ſua ſalua, a que nos tambem reſpondemos, ſubiraõ acima. Antonio de Faria os recebeo com grandiſsimo gaſalhado, & como eraõ homẽs conhecidos de algũs ſoldados da noſſa companhia, ſe detiueraõ grande

eſpaço contando muytas particularidades que fazião a noſſo propoſito. Antonio de Faria mandou Chriſtouão Borralho em companhia dos dous a viſitar o Quiay Panjão, & lhe eſcreueo hũa carta de muytos comprimentos, & lhe fez grandes offerecimentos de ſua amizade, de que o coſſayro Panjão ſe moſtrou tão cõtente & vfano, que não cabia em ſy de vaidade. E chegando jũto do noſſo junco mandou amainar as vellas do ſeu, & ſe embarcou na champana que era o batel, & acompanhado de vinte Portugueſes veyo ver Antonio de Faria, & lhe trouxe hum rico preſente que valia mais de dous mil cruzados, em ambar, & perolas, & peças douro & de prata. Antonio de Faria os recebeo a elle & aos Portugueſes que com elle vinhaõ com muytas feſtas & gaſalhado, & a todos fez muytas honras & corteſias, & aſſentandoſe todos, deſpois que algum eſpaço eſtiuraõ praticando em couſas de goſto, conformes ao tempo em que eſtauão. Antonio de Faria lhes veyo a dar conta de todo o ſucceſſo da ſua perdicão, & de todos os mais infortunios da ſua viagem, & da determinaçaõ da ſua derrota para Liampoo, com propoſito de lá ſe reformar de gente & nauios de remo, para tornar de nouo a correr a coſta de Ainão, & yr pela enſeada da Cauchenchina dentro às minas de Quoanjaparù, onde tinha por nouas que auia ſeis caſas muyto grandes cheyas de prata, a fora outra mòr ſoma que nas fundiçoẽs ſe lauraua à borda da agoa, onde ſem riſco nenhum ſe podião todos fazer muyto ricos. A que o Panjão reſpõdeo, eu ſenhor Capitão, naõ tenho tanto quanto algũs cuydaõ de mim, mas ja em outro tempo tiue muyto, & tambem deſaſtres da fortuna, como eſſe teu de que agora me deſte conta, me leuaraõ a mayor parte da minha riqueza, & por iſſo receyo de me yr meter em Patane, onde tenho molher & filhos, porque ſey certo que me ha el Rey de tomar quanto leuo, porque me vim de là ſem ſua licença, & ha de fazer diſto peçonha, ſó a fim de me roubar, como ja algũas vezes fez a outros por muyto menos cauſa que eſta, de que me pode arguyr, pelo qual te digo q̃ ſe quiſeres & fores contente que eu te acompanhe neſſa viagẽ que queres fazer, com cem homẽs que trago neſte meu junco, & quinze peças de artilharia, & trinta eſpingardas, a fora outras mais de quarenta que trazẽ eſtes Portugueſes que andão comigo, eu o farey de muyto boa vontade, cõ tanto que do que ſe aquirir ſe me ha de dar a terça parte, & diſto, ſenhor, ſete praz me has de dar hum aſsinado teu, & jurarme em tua ley de mo cumprires inteyramente, Antonio de Faria lhe aceitou o offerecimento cõ muyto boa võtade, & deſpois de lho agradecer com muytas palauras, & o abraçar por elle muytas vezes, lhe jurou nũs ſantos Euangelhos de o fazer aſsi como lho pedia ſẽ falta nenhũa, & diſſo lhe paſſou logo hum aſsinado, em que dez ou doze dos mais honrados foraõ teſtemunhas. E com

eſte pacto ſe forão ambos meter num rio que eſtaua adiante daly cinco legoas, que ſe chamaua Anay, onde ſe proueraõ de tudo o que auião myſter a troco de cem cruzados que deraõ de peita ao Mandarim Capitão da cidade.