CAPITULO II


A TERRA DO NUNCA



No outro dia, antes de dona Benta continuar a historia de Peter Pan, tia Nastacia apareceu com a sua sombra diminuida de mais um pedaço no hombro.

— Parece que é um rato que anda roendo a minha sombra, disse ela colocando-se entre o lampião de cima da mesa e a parede branquinha. Veja, sinhá, acrescentou apontando para a sombra projetada na parede. Está faltando mais um pedaço, bem no hombro. Neste andar eu acabo sem sombra nenhuma. Isto é uma desgraça.

— Não acho, disse Narizinho. Tanto faz você ter sombra como não ter. De que vale sombra?

— Parece, menina, parece que não vale nada, respondeu a negra. Mas o mundo é malvado, e se sabem que eu não tenho sombra são capazes até de me queimarem viva, como fizeram com a coitadinha da Joana do Arco.

— Joana Dare...

— Ou isso. O mundo dá cabo de toda a gente que não é igual a todos os outros. Dona Joana tinha olhos melhores que os do resto das gentes e porisso via mais coisas, tinha visões. Eles foram e queimaram a coitada. Se me enxergarem sem sombra são capazes de dizer que sou feiticeira, O mundo é mau, menina. Crédo...

— Isso não, gritou Emilia. O mundo persegue os que são mais que os outros, como essa Joana Darc, que enxergava mais; mas você é menos, porque tem menos sombra. Logo...

— Deixem de bobagens, disse dona Benta e vamos continuar a historia do menino que não queria crescer.

Todos se sentaram em redor dela e dona Benta começou:

— Essa Terra do Nunca, onde Peter Pan vivia com os meninos perdidos, era bem longe — e muito linda terra. Na frente havia uma grande floresta, que naquela estação do ano estava despida de todas as suas folhas e recoberta de neve branquinha. Nem para remedio era possivel encontrar uma só folha verde. Do lado direito havia um enorme lago, no qual boiavam pedaços de gelo, como ilhinhas flutuantes. Era nesse lago que navegavam os navios dos piratas. Do lado esquerdo ficava uma aldeia de Peles Vermelhas, isto é, indios norte americanos de nariz recurvo, cocar de penas na cabeça, cachimbo da paz na boca e sempre em atitudes calmas. Viviam em silencio e em descanso sempre, de cócaras, como os nossos caboclos do mato.

As casas desses indios eram em forma de tenda arabe.

— Eu sei, interrompeu Pedrinho. A tal tenda arabe tem a forma dum cartucho achatado, ou dum funil sem o bico.

— Pois é, confirmou dona Benta. Viviam nesses funis sem bico e em vez de cacique eram governados por uma india muito valente, de nome Pantera Branca.

— A senhora não disse o que havia nos fundos da Terra do Nunca, reclamou Pedrinho.

— Nos fundos ficava um deserto de neve que os lobos famintos percorriam em bandos uivantes. Pois bem: os meninos perdidos moravam perto dos indios, longe dos piratas e longissimo dos lobos famintos.

— Moravam como?

— Numa caverna subterranea, sem porta de entrada.

— E de que modo entravam na caverna?

— De um modo muito interessante. Em cima da caverna o chão era como ali no terreiro — liso, sem sinal nenhum de caverna em baixo. Mas havia varias arvores de longe em longe, arvores ocas, com raizes tambem ôcas. Cada menino era dono de uma arvore e entrava na caverna pelo respectivo ôco.


— Por que isso, vóvó, de cada um ter a sua arvore? Acho asneira.

— Havia uma razão muito importante. Tendo cada qual a sua arvore, um não atrapalhava o outro, quando eram atacados pelos piratas ou pelos lobos famintos. Sumiam-se todos a um tempo, cada qual pela sua entrada. Se não fosse assim, na precipitação da fuga dois ou tres eram capazes de se meterem pelo mesmo oco, ficando entalados lá dentro. Não ha melhor defesa contra piratas e lobos do que arvores ôcas, que vão dar em cavernas subterraneas. Tomem nota disso.

Pedrinho tomou nota em seu caderno.

— Na noite em que começa esta historia, prosseguiu dona Benta, estavam os meninos perdidos a brincar na floresta. vestidos de pele por causa do grande frio. Um deles dansava uma valsa com um avestruz. De longe mais pareciam ursinhos do que gente.

— E quantos eram?

— Seis. O mais velho chamava-se Levemente-Estragado. Os outros chamavam-se Bicudo, Cachimbo, Assobio e, finalmente, Gemeo. Gemeo era o nome dado a dois meninos realmente gemeos e tão iguaizinhos que as mesmas roupas e o mesmo nome serviam para ambos.

— E como se distinguis um do outro?

— Não se distinguiam. Os demais lidavam com eles como se fosse um só.

— Eu sei, berrou Emilia. Com os livros é assim. Ha montes de livros tão iguais que tanto faz a gente pegar num como pegar noutro. A obra é a mesma.

— Pois é, disse dona Benta rindo-se da comparação da boneca. Os seis meninos perdidos eram esses tais, e naquela noite estiveram brincando até tarde, á espera de Peter Pan, que fora á cidade ouvir o resto da historia da senhora Darling.

— Estiveram brincando de que? perguntou Pedrinho.

— De tudo, respondeu dona Benta. Os meninos ingleses são como vocês aqui; brincam de tudo. E um deles tinha um brinquedo muito original.

— Qual deles?

— Levemente-Estragado. Esse menino havia apanhado um avestruz fugido dum jardim zoologico, e o ensinara a dansar ao som duma flauta velha. Nada mais comico do que essas dansa tas do avestruz, porque os avestruzes são os bichos mais desajeitados e deselegantes que existem.

Ficaram brincando até tarde, porque Peter Pan estava a demorar-se mais que do costume, e por fim começaram a fiear inquietos, com medo que lhe houvesse acontecido qualquer coisa. Subitamente ouviram um rumor ao longe. Seria ele? Bicudo colou o ouvido no chão para ouvir melhor, como fazem os indios.

— Ouço um barulho surdo de vozes horrendas, disse ele arregalando os olhos. Devem ser os piratas.

Foi agua na fervura. Os seis meninos sumiram-se pelos ôcos de suas arvores, como coelhos se somem nas tocas quando cachorro late perto.

Minutos depois apareceram os piratas, os terriveis piratas do lago. Que horrendas criaturas! O crime estava estampado na cara deles como numeros escritos com giz no quadro negro. Vinham comandados pelo famoso Capitão Gancho, o peor pirata que jamais existiu, tão malvado que não havia quem não tremesse de medo dele. Tinha olhos vermelhos de coisaruim e cada pestana deste tamanho! Barba arrepiada e suja de terra, andar de gorilha, cabelos cacheados e lustrosos de banha rançosa. Marcha va na frente do bando, a cantar uma cantiga das mais frias, marcando o compasso com o gancho de ferro que lhe servia de mão.

— Como é isso, vovó? indagou a menina. Que historia de gancho de ferro é essa?

— Muito simples. Esse famoso pirata havia perdido a mão direita numa guerra contra os meninos perdidos. Peter Pan dera-lhe tamanho golpe de espada que a mão peluda pulou longe, indo cair no lago, justamente dentro da boca dum crocodilo. O crocodilo, nhoc ! devorou o horrendo petisco e gostou tanto que desde essa epoca não fez outra coisa senão andar peregrinando de terra em terra e de mar em mar para comer o resto da munheca, isto é, o Capitão Gancho inteirinho. Por esse motivo o pirata tinha odio de morte a Peter Pan e aos meninos perdidos, havendo jurado mata-los a todos com a peor das mortes possiveis e imaginaveis.


— Qual é essa morte? indagou Emilia.

— Não sei, nem quero saber. Não gosto de horrores. Quem sabia era o Capitão Gancho, um diabo malvadissimo. Mas depois que ele perdeu a mão com a espadada de Peter Pan, mandou fazer uma manopla de ferro com dois ganchos na ponta. Enfiava o toco do braço nessa manopla, atava-a bem atada com tiras de couro e manejava o gancho como se fosse mão.

— Crédo exclamou tia Nastacia. Imagine uma ganchada dessa mão...

— Devia ser terrivel, confirmou dona Benta, porque esse pirata passou a meter mais medo depois de perder a mão do que antes. Menos para o crocodilo. Este monstro não tinha medo nenhum do Capitão Gancho e começou a persegui-lo por toda a parte. Tornou-se o azar da vida do pirata. O que valeu ao Capitão Gancho foi uma coisa que até parece mentira. Imaginem que o tal crocodilo tambem havia engulido um despertador que tinha corda por um ano e cujo tic-tac era muito forte. O tic-tac do despertador no estomago da féra fazia-se ouvir longe e servia de aviso ao Capitão, dando-lhe tempo de fugir com quantas pernas tinha.

Pois bem, assim que o bando de piratas chegou ao ponto da floresta onde, pouco antes, os meninos estavam brincando, o Capitão Gancho sentou-se num enorme chapeu-de-sapo que por ali crescia, bem por cima da morada subterranea. Sentou-se para descansar e ao mesmo tempo meditar sobre o meio de descobrir o esconderijo de Peter Pan e seu bandinho.

— "Com seiscentos bilhões de demonios! urrou ele. Não descansarei nunca, enquanto não agarrar esse raio de menino.

O chefe dos piratas era especialista em pragas. Possuia a maior coleção de pragas da Inglaterra, e talvez da Europa inteira, na opinião de muitos. E todas as suas pragas começavam por seiscentos bilhões. Não fazia nenhuma por menos.

Emilia interrompeu dona Benta nesse ponto.

— Por que é que os marinheiros gostam tanto de pragas? perguntou ela. Sempre que numa historia aparece um cachorro do mar...

— Lobo do mar, corrigiu dona Benta. Os velhos marinheiros são chamados lobos do mar.

— Dá na mesma, insistiu Emilia. Eu quero dizer cachorro do mar e tenho minhas razões. Mas sempre que aparece um desses cachorros do mar, vem logo praga, e de milhões. Com trezentos milhões de caravelas! Com seiscentos milhões de baleias! E' milhão que não acaba mais.

— Sim, disse dona Benta, mas repare que é sempre praga de milhões apenas. Só esse Capitão Gancho usava as tais pragas de bilhões, e porisso ficou terrivel. Um bilhão compõe-se de cem milhões. Ora, quando ele praguejava com seiseentos bilhões de demonios, como fez em relação a Peter Pan, esse numero queria dizer seiscentas centenas de milhões, ou seiscentos montes de cem milhões cada um. Eu até creio que ele não era forte em arimetica, pois é impossivel que haja tantos demonios assim.

— Crédo! exclamou tia Nastacia persignando-se. Um demonio já deixa a gente tonta, como aquele Lucifer que fez a revolução dos anjos lá no ceu e foi jogado no inferno. Imaginem agora seiscentos montes de não sei quantos cada um. Crédo...

— Continue, vovó, pediu Narizinho. O Capitão Ganchosentou-se no chapeu-de-sapo e depois?

Sentou-se e logo deu um pulo, porque o tal chapeu-de-sapo estava quente como chapa de fogão. Furioso da vida, ele pregou um tremendo pontapé no coitado, fazendo-o voar dali com um som metalico. Aquele som abriu os olhos do pirata.

— "Hum ! exclamou ele, percebendo que não era chapeu-de-sapo natural e sim uma ponta de chaminé que saia de dentro da terra e tinha a fórma de chapeu-de-sapo. Oitocentos bilhões de diabos me assem vivo em todos os fogos do inferno, se isto não é arteirice do senhor Peter Pan e mais os seus meninos perdidos! Descobri tudo! Eles moram aqui em baixo, nalguma caverna subterranea.

Disse e pôs-se a examinar o terreno, dando pancadas no solo com o nó dos dedos, como fazem os medicos para examinar o pulmão dos doentes. O som era de terra óca em baixo. O chefe dos piratas ficou radiante. Tinha descoberto o esconderijo dos meninos e agora iria caça-los como se caçam ratos. Pôs-se a examinar o terreno. Viu que não havia entrada nenhuma afora os ôcos das arvores. Tentou entrar por um deles (justamente o ôco de Bicudo) e entalou. Não cabia. Ficou danado, espirrou mais alguns bilhões de demonios e teve uma ideia sinistra.

— "Achei o meio! exclamou. Mando preparar um grande pão-de-ló bem bonito por fóra e bem cheio de veneno por dentro. Ponho o pão-de-ló ali naquela pedra e vou ficar espiando de longe. Os meninos perdidos não têm mães para lhes ensinar o que devem e o que não devem comer, de modo que logo saem da caverna e se lançam sobre o doce como lobos famintos e eu terei o gosto de vê-los morrer a peor das mortes.

Em seguida deu uma ordem ao tenente do bando.

— "Olá, Capacete! Diga ao cozinheiro que prepare um pão-de-ló bem grande e bem bonito e que ponha dentro...

Não pôde terminar. Um tic-tac muito seu conhecido fez-se ouvir perto.

— "O crocodilo! berrou o chefe dos piratas, disparando na fuga a todo galope, seguido pelo bundo inteiro e logo se sumiram no horizonte dentro duma nuvem de pó. O crocodilo, tic-tac, tic-tac, os acompanhou sem pressa nenhuma, filosofando que se daquela vez não o havia apanhado, de outra o apanharia.


— A senhora falou em nuvem de poeira, vóvó. Mas a floresta não estava coberta de neve? indagou Narizinho.

— Sim, minha filha. Mas a neve logo que cai acumula-se solta como farinha. Se dá o vento, vôa como poeira. Ora, os piratas fugiram ventando, como diz tia Nastacia quando a carreira é séria, e portanto levantavam nuvens de neve em pó.

— E que aconteceu depois? quis saber Pedrinho.

— Pelo tropel, os meninos lá em baixo perceberam que os piratas haviam fugido e trataram de sair do subterraneo. Foram subindo pelos ôcos, e ao chegarem á superficie viram que os Peles Vermelhas estavam na pista dos piratas.

— Que historia é essa, vóvó? Então os indios eram inimigos dos piratas?

— Eram aliados de Peter Pan e inimigos do Capitão Gancho, contra o qual andavam em guerra feroz.

O modo de esses indios fazerem guerra merece ser contado. Eles trepavam nas arvores para espiar ao longe, com a mão sobre os olhos em forma de viseira e aplicavam o ouvido sobre a terra para ouvirem os rumores distantes. Caminhavam de rastos, como cobras, escondendo-se atrás de cada tôco de pau ou moita. Levavam arcos e flechas e tambem um tam-tam, que entre os indios é o tambor da vitoria. Infelizmente era muito raro ouvir-se o som do tam-tam, porque os Peles Vermelhas sempre saiam derrotados e fugiam como lebres.

Mas os meninos logo que puseram as cabeças fóra dos ôcos viram só o fim da correria. Em minutos a poeira levantada pelos piratas em fuga e pelos indios perseguidores desapareceu no horizonte.

— Que expressão bonita! exclamou Emilia. Desapareceu no horizonte!... Acho uma beleza em tudo quanto desaparece no horizonte. Inda hei de escrever uma historia cheia de desaparecimentos no horizonte, com tres pontinhos no fim...

E a boneca ficou absorta, de olhos pendurados no horizonte, enquanto dona Benta, a rir-se, continuava a historia.

— Passaram os piratas, disse ela. Passaram depois os indios. Só faltava passar o bando de lobos famintos, que habitualmente acompanham os guerreiros para comer os mortos.

— E vieram os lobos nesse dia?

— Como não? Logo depois surgiram os lobos no horizonte; mas farejando a gentinha de Peter Pan fóra do subterraneo, desistiram de seguir os guerreiros e vieram como flechas devorar os meninos.

Peter Pan, entretanto, já havia descoberto o melhor meio de assustar lobo faminto. Consiste em sair ao encontro deles de costas, com a cabeça entre as pernas. Os lobos entreparam, desnorteados, não podendo compreender que especie de animal é aquela, e depois fogem com maior velocidade ainda do que a do Capitão Gancho ao ouvir o tic-tac de crocodilo.

Assim que os lobos famintos chegaram a uma certa distancia, os seis meninos, guiados por Bicudo, correram-lhes ao encontro de costas, com a cabeça entre as pernas. Foi uma beleza! Os lobos entrepararam uns segundos e em seguida voltaram-se nos pés e sumiram-se dentro da floresta.

Ora graças! Os meninos perdidos podiam afinal brincar sossegadamente de pegador ou chicote queimado á luz do lindo luar que estava fazendo. Mas não brincuram, porque Cachimbo lhes chamou a atenção para qualquer coisa que vira no ceu.

— "Olhem! Lá vem voando para o nosso lado uma especie de passaro branco bem grande...

Todos ergueram o nariz e arregalaram os olhos. Não podiam compreender que passaro era aquele. Não parecia garça, nem outra qualquer ave conhecida. Subito, uma bola de fogo riscou o ar, vindo descer bem no meio deles. Era a fada Sininho.

— "Peter Pan manda dizer, declarou ela nervosamente na sua linguagem do tlin, tlin, tlin, que é preciso matar quanto antes essa ave que vem vindo.

Cachimbo, o melhor atirador do grupo, desceu imediatamente ao subterraneo, donde voltou com um arco e uma flecha. Ajustou a flecha ao arco, fez pontaria, esticou a corda e — zuqt! A flecha lá se foi assobiando e deu certinha no alvo. A ave branca vacilou no vôo, cambaleou, descreveu um parafuso e veio cair junto ao grupo. Todos correram para apanha-la.

— "Não é ave! exclamaram cheios de surpresa. E' uma linda menina de camisola branca. Talvez seja a tal mãezinha que Peter Pan vive prometendo trazer-nos.

Era Wendy, que se havia adiantado dos demais durante o vôo. A fada Sininho tinha cometido aquela traição porque estava a roer-se de ciumes. Gostava de Peter Pan e não podia suportar as atenções e requebrados do menino para com sua nova conhecida. Dai lhe veio a ideia de fazer que ela fosse flechada por um dos meninos.

Nisto chegou Peter Pan, seguido de João Napoleão e Miguel. Assim que pôs o pé em terra, foi logo indagando:

— "Onde está Wendy?

Ao saber que Wendy havia sido flechada, teve um grande acesso de colera e passou mão do arco para tambem flechar Cachimbo no coração. E flechava mesmo, se não fosse Wendy despertar do desmaio ainda a tempo de impedir tamanho crime.

Wendy não havia sido ferida, porque a flecha batera justamente no botão-beijo que Peter Pan lhe havia dado. Só sentiu o choque da flecha, e como já estivesse cansada e tonta de tanto voar, bastou isso para faze-la perder os sentidos e cair.

Vendo que ela estava vivinha, os meninos a rodearam na maior alegria, embora sem saber o que fazer. Levar Wendy para a morada subterranea não lhes parecia bem. Deixa-la por ali ao relento, era peor. O unico remedio seria construir para ela uma casinha bem ajeitada. Estavam a discutir esse ponto quando Wendy começou a cantar uma cantiga com versos de pés quebrados, assim:

Uma casinha quero ter,
Que menor não haja no mundo;
Terreiro bem limpo na frente,
Jardim de mil flores no fundo.

— "Pronto! Já sabemos o que ela quer! exclamaram os meninos em côro. Vamos fazer a casinha de Wendy, com jardim de mil flores ao fundo.

E foi uma lufa-lufa. Bicudo correu a cortar paus na floresta; Cachimbo desceu ao subterraneo em procura duma velha grade muito ajeitada para a armação do této; Assobio foi em busca dum pedaço de tapete velho e dum rolo de encerado.

Num instante ficou pronta a casinha. Peter Pan observou que haviam esquecido a chaminé. Onde já se viu casa sem chaminé? Correu os olhos em torno em procura e os deteve em Miguel, que tinha na cabeça a cartola de seu pai.

— Otimo! gritou Peter Pan tomando a cartola. Melhor chaminé que esta não é possivel — e arrumou-a em cima do této.

E tudo mais foi assim. O material de construção mais empregado era o "fazimento de conta". Não tem fechadura na porta? Faz de conta que esta fivela é fechadura. Não tem cadeira? Faz de conta que esta pedra é cadeira.

Wendy não precisou entrar na casinha, porque a casinha havia sido construida em redor dela — e foi a primeira vez no mundo que semelhante coisa aconteceu.

Pronta a casa com a dona dentro, Peter Pan veio e bateu á porta — tóc, tóc, tóc. Wendy surgiu á janela e perguntou quem era.

— "São os meninos perdidos que desejam saber se a menina está disposta a ser a mãezinha deles. Nunca tiveram mãe e querem experimentar se é bom.

— "Com muito gosto, responden Wendy. Serei mãe de todos, contarei historias á noite, remendarei as roupas de dia, agradarei aos que chorarem e ralharei com os que fizerem coisas inconvenientes — tudo igualzinho como mamãe faz lá em casa. Mas só serei mãe se Peter Pan quiser ser o pai.

Todos bateram palmas, numa grande alegria. Iam ter mãe, afinal. Iam ter quem lhes contasse historias — que maravilha!

— "Historia! Historia! exclamaram. Para começar, conte já uma linda historia — e os meninos foram entrando para a casinha, em atropelo. Era incrivel que lá coubessem todos, mas couberam. Para isso foi preciso que se arrumassem com a habilidade e o jeito com que as sardinhas se arrumam dentro das latas.

Logo que todos se acomodaram, Wendy começou assim: "Era uma vez uma pobre menina chamada Cinderela" — e foi por ai alem até que o sono tomasse conta de toda a sua filharada.

Tudo dormiu. Dormiu a floresta o seu sono agitado de morcegos, pios de coruja e uivos de lobo. Dormiu o crocodilo, lá longe. Dormiram os piratas; e os indios, vendo o inimigo a dormir, deixaram a perseguição para o dia seguinte e dormiram tambem.

Só não dormiu Peter Pan. Passou toda a noite fóra, de espada na mão, montando guarda á casinha da linda mãe que tinha arranjado para os meninos perdidos.

Dona Benta parou nesse ponto, achando que o melhor era tambem irem dormir.

— Pronto, disse ela. O resto fica para amanhã. Agora é cada qual ir para sua cama sonhar com o Capitão Gancho e o crocodilo.

— Crédo! exclamou tia Nastacia, erguendo-se. Eu quero sonhar com dona Wendy, que é tão galantinha. Mas com esse canhoto malvado, Deus me livre.

Pedrinho deu um suspiro. Estava lamentando não haver fugido para a Terra do Nunca no dia em que nasceu. Narizinho tambem suspirou. Quanto não daria para ser Wendy Darling?

Só Emilia não suspirou, nem disse nada. Saiu dali muito quieta e foi mexer na caixa de ferramentas de Pedrinho. Dona Benta encontrou-a lá, lidando para entortar um prego.

— Que é que você está fazendo, Emilia?

— Estou vendo se faço uma munheca de gancho como a do Capitão Gancho.

— E para que, bobinha?

— Para assustar tia Nastacia. Quero ganchar aquele beição dela...

Esta obra entrou em domínio público pela lei 9610 de 1998, Título III, Art. 41.


Caso seja uma obra publicada pela primeira vez entre 1929 e 1977 certamente não estará em domínio público nos Estados Unidos da América.