Postos estão, frente a frente

Postos estão, frente a frente
por Anónimo, traduzido por Gualdino de Campos
Romance renascentista português em castelhano que relata a morte do rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir. Foi publicado por Miguel Leitão de Andrada na sua Miscelânea (1629), acompanhado da melodia. Poema agrupado posteriormente e publicado em Cancioneiro de musicas populares.

Miguel Leitão d’Andrada, que foi um dos companheiros do Rei D. Sebastião na desastrada batalha de Alcacer-Quibir, recolheu na sua Miscellanea a presente musica e competente poesia, que diz ter-se popularisado logo depois do desastre.

A musica vem na citada obra, escripta a tres partes distinctas; não tem divisões de compasso: a parte superior, em clave de Dó em 1.ª, é designada por Cantus; a parte média, em clave de Dó em 2.ª, é designada por Altus; e a parte grave, em clave de Dó em 4.ª, é designada por Hassus; transcrevêmol-a rigorosamente, collocando por cima da parte superior e por debaixo da média e grave a lettra como está no original, addicionando-lhe apenas as divisões de compasso para melhor comprehensão das pessoas que não conhecem a musica antiga. Esta musica não é puramente de invenção popular, porque a fórma de contraponto em que está escripta indica proveniência mais erudita.

Postos estão, frente a frente,
Os dois valerosos campos:
Um é do Rei Maluco,
Outro de Sebastião
      O lusitano.

Moço animoso e valente,
Robusto, determinado,
Ainda que de pouca experiencia
E não bem aconselhado
      O lusitano.

Quando vê mouros sem conta
A sua hoste cercando,
Que p'ra cada um dos seus
Mais de dezoito tocando.

Ardendo em fogo seu peito,
Furioso por pôr-lhe as mãos,
Pensa que todos são nada
Manda à peleja deitar bando
      O lusitano.

Brada que envistam os mouros
E o exercito contrario,
Já se vão aproximando
— A elles (diz) Santiago
      O lusitano.

Dispara a artilheria,
A nossa mal disparando,
Chovem balas, chovem mortes,
Setas e fuzilaria.

Puxam d'arma branca os mouros
E fogem em debandada,
Os aventureiros victoria
Pregoam com grande applauso,

Que mataram o Maluco
E o levára o diabo,
Pois junto á sua liteira
O passaram com um balazio.

E na moura artilheria
Duas bandeiras ganharam,
Com victoria tão pujante,
Que mais parecia milagre.

Porém, por nossos peccados,
Pouco a tivemos gosado,
Que em soccorro á rectaguarda
A dianteira ha parado.

Que já por todos os lados
É vanguarda nosso campo,
E com o sangue dos mortos
Está feito um grande lago.

Percorreu-o todo o bom Rei,
Dando mortes mui galhardo,
Em sangue tingida a espada,
Rota a lança e sem cavallo.

Que o seu, traspassando o peito,
Já não póde dar um passo;
Pede a Jorge d'Albuquerque
Lhe dê seu russo rodado.

Dá-lh'o de boa vontade
E o Rei cavalga d'um salto,
Vê-o o Rei como jaz
De costas, quase expirando.

Mais lhe diz que se salve,
Que é tudo despedaçado,
E o Rei investe com os mouros,
Aos mouros Sebastião
      O lusitano.

Busca a morte dando mortes,
Busca a morte Sebastião
      O lusitano,
Dizendo: «Agora é a hora
Que uma bella morte toda a vida honra»[1]

NotasEditar

  1. «Palavras que este Rey trazia d'antes na bôca, e costumava dizer muitas vezes». — Miguel Leitão d'Andrada, 1629 (Miscellanea).